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Brasil em queda livre

Prática de aikido, arte marcial japonesa - Reprodução/Pacific Aikido Federation
Prática de aikido, arte marcial japonesa Imagem: Reprodução/Pacific Aikido Federation
Sandra Caselato

Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Está sempre em busca de experiências que contribuam com a transformação pessoal e de outras pessoas. Especialista em Comunicação Não-Violenta, atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos.

14/07/2020 12h48

A primeira coisa que aprendi quando comecei a praticar aikido, aos 17 anos, foi a cair. É interessante como na vida aprendemos a engatinhar, a andar, a correr, mas raramente as pessoas aprendem como cair. Entretanto, todos nós caímos em algum momento! Não apenas fisicamente mas também metaforicamente. Coisas acontecem da maneira que não gostaríamos, perdemos empregos, amores, amizades, pessoas queridas morrem, ficamos doentes, desanimados, com depressão… enfim, a vida não é sempre uma maravilha. Frustrações, decepções e perdas acontecem, assim como conflitos.

No momento, estamos vivendo uma grande "queda" coletiva com a pandemia do Covid-19, a maior crise sanitária do século, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). E está sendo difícil levantar. Fica claro que enquanto comunidade global não sabemos cuidar muito bem da vida humana particularmente, nem da vida como um todo no planeta.

Na prática do aikido, aprendemos a aproveitar a energia da queda para, num rápido rolamento, ficarmos em pé. Nos harmonizamos com o chão e o impulso da queda nos ajuda a levantar. Não saber cair pode ser fatal, pois a concretude do chão não perdoa, e o risco é quebrarmos a cara literalmente. Saber cair é algo muito útil, não todos os dias logicamente, mas quando eventualmente caímos, a sabedoria da memória corporal entra em ação e nossa integridade física está protegida.

Da mesma forma, aprender a cair "na vida" tem muito valor. Em vez de mergulhar em desespero e desesperança, aprender a utilizar a energia que nos leva para baixo para nos reerguermos, pode fazer toda a diferença. Podemos utilizar a energia de uma situação desafiadora ou de um conflito para incluir o que estava sendo deixado de lado, aprofundar a compreensão daquilo que não compreendíamos, nos conectarmos mais profundamente com as dores que emergem e com a humanidade por detrás delas e, assim, com empatia, transformar a situação e cocriar um mundo melhor para as pessoas envolvidas.

Crises e conflitos são inevitáveis, sejam internos, nas relações pessoais ou no mundo lá fora. Aprender a lidar com eles com rapidez, tranquilidade e sabedoria é talvez uma das mais preciosas habilidades que podemos desenvolver e praticar durante a vida.

É isso que a Comunicação Não-Violenta (CNV) também nos ensina, incluir o que estava de fora e cuidar de todos. Muitos paralelos podem ser traçados entre o aikido e a CNV. Ambos nos apoiam a transformar conflitos, aprendendo a nos harmonizar com as quedas e os "ataques" da vida e a criar soluções que melhorem a vida de todos.

De maneira direta ou indireta, venho falando sobre essas habilidades em quase todos os meus textos nesta coluna, tanto nas dimensões intrapessoal, interpessoal e social/coletiva/sistêmica. Convido você a (re)lê-los, com a esperança de que possam contribuir para olhar para os desafios da vida com a perspectiva de um novo paradigma.

Tanto o aikido quanto a CNV podem nos trazer lições preciosas para lidar melhor com essa "queda" tão terrível que estamos enfrentando individual e coletivamente, no Brasil e no mundo. Neste momento de crise sanitária mundial, temos o exemplo de países como Nova Zelândia, Uruguai e Cuba, que conseguiram se levantar rapidamente, controlando a pandemia em seus territórios.

Diferente do Brasil, que vem quebrando a cara ao não reconhecer a realidade do coronavírus e não tomar as medidas necessárias, esses países se harmonizaram com o "chão", embasando suas respostas na ciência e no fortalecimento dos sistemas de saúde e medidas de proteção socioeconômica. Com ações efetivas e imediatas se ergueram com rapidez.

No Brasil, enquanto o presidente nega a realidade e a ciência, o fardo da crise coletiva recai principalmente sobre as pessoas mais vulneráveis: pobres, pretos e indígenas.

A nós, resta demandar ações mais efetivas das autoridades, via manifestações públicas, nos juntando a campanhas, petições etc e cuidar das dimensões em que temos influência mais imediata: nossa saúde e equilíbrio emocional, nossas relações interpessoais e ajuda às pessoas ao redor, nos apoiando solidariamente para reduzir os danos desta "queda livre" que estamos vivendo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.