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Primeira Infância

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Crianças, telas e possibilidades

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Imagem: iStock

Mariana Sineiro Herig*

12/11/2021 06h00

Pediatras do mundo inteiro têm observado cada vez mais casos de atraso na fala e no desenvolvimento das crianças, especialmente em anos pré-escolares, e com piora evidente desde o início da pandemia. Ao investigar crianças de 2, 3 ou 4 anos com atraso de fala, a primeira pergunta que se faz é: quantas horas de celular/tablet/televisão ela assiste por dia? Para essa pergunta, a resposta mais frequente é "muitas".

Às vezes, o tom é de culpa, e os pais, sobrecarregados de trabalho, pandemia e exaustão, recorrem à tela para entreter os filhos enquanto fazem as tarefas da casa ou espairecem ao final de um longo dia de trabalho. Outras vezes o tom é de orgulho, porque o cuidador imagina que esteja propiciando as melhores ferramentas para o desenvolvimento do cérebro, afinal, a criança já sabe contar até 10 em inglês, desbloquear o celular sozinha e até mesmo reproduzir coreografias do TikTok.

Não sem incredulidade os pais ouvem que o tempo de tela recomendado por sociedades nacionais e internacionais de pediatria é zero para os menores de dois anos. Zero. E depois? Dos 2 aos 5 anos, uma hora. E depois? Aí chegamos em um ponto importante. Comecemos ao contrário então: quanto tempo de tela é adequado para um adulto? Com exceção do tempo em que se está exclusivamente trabalhando, quanto tempo do nosso dia podemos passar usando mídias sociais, vendo vídeos, jogando, enviando mensagens para os amigos ou tentando acompanhar cinquenta grupos de WhatsApp, sem prejuízo à nossa saúde mental e ao convívio social e familiar?

O vício e a hipnotização causados pelas telas - seja por meio de jogos, vídeos ou mídias sociais - é comparável à dependência química causada por drogas de abuso, como cocaína. Mas o efeito sobre o cérebro infantil, ainda em desenvolvimento, é muito mais maléfico. A criança, que precisaria de estímulos vivos, contato com a natureza, conversas cara a cara, momentos de ócio, atividades físicas, livros, ensaiar o faz-de-conta e brincar com outras crianças, acaba ficando sedentária, passiva e solitária. Não há espaço para o tédio, para o vazio que leva à criação e às ideias mirabolantes, afinal o próximo vídeo irá começar em 5 segundos.

Obesidade, atraso no desenvolvimento, irritabilidade, agressividade e déficit de atenção são problemas de saúde cada vez mais prevalentes e alarmantes. O estudo canadense CHILD, de metodologia prospectiva longitudinal que avaliou cerca de 2500 crianças pré-escolares, mostrou que comparadas às crianças com menos de 30 minutos de exposição a telas, as com exposição maior que duas horas por dias têm 5 vezes mais chance de apresentar distúrbios como inatenção, e 7 vezes mais mais chance de preencher critérios para TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). O tempo de tela ideal para crianças pré-escolares, segundo esse estudo, mostrou ser na verdade inferior a 30 minutos diários.

Mas o que podemos fazer frente a um cenário tão sombrio? Entre o ideal e o real, fiquemos com o possível. Algumas pequenas mudanças de hábitos, sempre explicadas às crianças e aplicadas de forma firme porém gentil, trazem grandes impactos positivos.

- Priorizar a refeição de adultos e crianças no mesmo horário, sentados à mesa e sem telas, inclusive sem o barulho de fundo da TV. São nesses momentos que a família pode conversar sobre o que fizeram no dia, dividir angústias e fazer planos. Para os bebês pequenos, é uma oportunidade de ver os adultos conversando, observar a articulação da boca e das palavras. Distrações na hora da alimentação propiciam a ingestão excessiva e desatenta da comida.

- Nos momentos em que a tela for de fato liberada pelo adulto, o ideal é que a criança esteja acompanhada, com o adulto dando sentido ao conteúdo que está sendo exibido. Os desenhos animados não mexem a boca e nem esperam uma resposta da criança, tornando-as espectadoras passivas, enquanto o adulto pode intermediar essa interação e torná-la mais rica.

- Como opção ao lazer digital, o adulto pode propor a criação de brinquedos e brincadeiras. Sites como Tempojunto, Blog da Estéfi Machado e o site da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal disponibilizam uma vasta gama de atividades possíveis, para todas as faixas etárias. A criança pode aprender a inventar brincadeiras, reutilizar materiais recicláveis e usar a criatividade.

- Restrinja o uso do celular para o estritamente necessário nos horários de convivência com a criança. É importante que ela sinta que o adulto está de fato presente, prestando atenção e escutando-a, e que ela não precisa constantemente competir com o celular pela atenção dos cuidadores.

*Mariana Sineiro Herig é médica pediatra pela USP. Trabalha como pediatra emergencista na UPA do Campo Limpo e no Hospital Menino Jesus, na cidade de São Paulo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL