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Primeira Infância

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A primeira infância no território das desigualdades

Wweagle/iStock
Imagem: Wweagle/iStock

Luanda Nera e Carol Guimarães

29/10/2021 06h00

Cento e cinquenta e oito dias é a média que uma criança moradora do distrito de Marsilac, extremo sul da capital paulista, demora para ser matriculada em uma creche próxima de sua casa. São 19 dias a mais do que em 2019, quando a média ficava em torno de quatro meses de espera. Os números que expressam a desigualdade social são claros, preocupantes e desenhados de formas bem específicas no mapa das cidades. Mas, sob a dimensão da primeira infância, este desafio multissetorial impõe que nosso olhar para as diferenças possa ir ainda além do que está aparente.

Além de contar com um índice 53 vezes pior de espera por uma vaga em creche do que o melhor distrito da cidade, no caso o bairro da República, Marsilac também fica para trás no indicador sobre gravidez na adolescência, referente à proporção de nascidos vivos cujas mães têm 19 anos ou menos. Mais de 15% dos bebês que nascem no distrito são filhos de mães adolescentes que, por sua vez, perdem perspectiva em relação à escolaridade e uma futura inserção no mercado de trabalho.

Dados do IBGE indicam que mesmo o número de adolescentes grávidas tendo caído muito na última década, o índice ainda é alto no Brasil e a maioria delas têm muito em comum. São mulheres de baixa escolaridade, negras e moradoras de regiões menos desenvolvidas economicamente.

Mas, afinal, onde vivem as crianças de São Paulo? Segundo dados do Mapa da Desigualdade, produzido em séries anuais pela Rede Nossa São Paulo desde 2012, enquanto os dez distritos com maior proporção de favelas concentram pouco mais de 20% da população infantil, distritos que não têm nenhum domicílio deste tipo representam apenas 4,4% das crianças paulistanas.

Na mesma tendência, o indicador que mede a renda média das famílias aproxima os bairros com maior população de crianças entre 0 e 6 anos e aqueles com renda média familiar mensal abaixo da média da cidade. Enquanto isso, nos distritos com menor população infantil a renda é superior à média paulistana. O contexto que a infância das grandes cidades encontra para seu desenvolvimento integral é comprometido em diversas escalas.

A mobilidade urbana é outro desafio das crianças e, quando os serviços de que necessitam não estão próximos de suas residências, elas dependem da qualidade das rotas de transporte e caminhadas para chegar até onde precisam. Não só Pinheiros concentra 11,4 vezes mais empregos formais que Jardim São Luís, como todos os distritos com menores proporções de domicílios em favelas atendem ou superam a média de oferta da cidade.

A necessidade de deslocamento é um motivo de estresse para os cuidadores e, considerando que grande parte da população é formada por trabalhadores, que dependem da renda mensal para sustentar suas famílias, a proximidade de creches e escolas públicas de qualidade também é marcadora de diferenças no território. No conjunto, os piores e melhores indicadores se repetem insistentemente em determinadas áreas da cidade, e nos ajudam a entender por que no distrito de Pinheiros a taxa de mortalidade materna e de crianças até um ano está zerada. Entre os 10 piores resultados sobre óbitos femininos por causas maternas, nenhum figura no ranking dos 10 melhores distritos avaliados pelos 53 indicadores do Mapa da Desigualdade de 2021.

É mesmo assustador o dado de que a idade média ao morrer é de 58 anos em Cidade Tiradentes e de 80 anos em Pinheiros, distritos que têm pouco mais de 35 quilômetros entre si. Mas o caminho que culmina nesse indicador-síntese começa lá atrás, acumulando desigualdades desde os primeiros anos de vida. O local de nascimento em São Paulo fala muito sobre o seu futuro no mundo, um mapeamento que nos dá boas pistas sobre por onde começar o enfrentamento às desigualdades.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL