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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pandemia: trauma para crianças maiores, mas oportunidade única para bebês

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Imagem: iStock

Luanda Nera e Carol Guimarães

03/09/2021 06h00

O Brasil é referência mundial em aleitamento materno, com um dos melhores índices de amamentação exclusiva até os seis meses. A melhora destes indicadores é progressiva desde os anos 1980, e teve como chave-mestra o desenvolvimento de programas de atenção a bebês e mulheres. Instituída em 2015, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC) surgiu com um olhar especial sobre a primeira infância e as populações de maior vulnerabilidade, promovendo a atenção e cuidados integrais e integrados, da gestação aos nove anos de vida.

Paulo Bonilha é ex-coordenador de saúde da criança e aleitamento materno do Ministério da Saúde, pediatra e sanitarista na Secretaria de Saúde de Campinas e no departamento de Saúde Coletiva da Unicamp. Participou da formulação do Plano Municipal da Primeira Infância na cidade paulista, o PIC, e conversou com a coluna sobre sua experiência no assunto e os entraves ainda presentes para o aleitamento materno no Brasil.

O que a ciência já sabe definitivamente sobre a importância da amamentação e seu impacto ao longo da vida das crianças?

Paulo Bonilha: No curto prazo, os efeitos do aleitamento exclusivo são conhecidos, como a diminuição de infecções, diarreias e alergias. No médio prazo, a falta da amamentação está diretamente relacionada à prevalência de vários tipos de câncer nas mães e às doenças crônicas nas crianças, como obesidade, diabetes e hipertensão. No longo prazo, por exemplo, contamos com a pesquisa do professor Cezar Victor, da Universidade de Pelotas, um dos principais cientistas brasileiros e que acompanha um grupo de crianças já há décadas. E ele já identificou uma associação direta entre tempo de amamentação e o salário na quarta década de vida. Uma pergunta que sempre aparece é se as crianças amamentadas têm mais inteligência, mais equilíbrio emocional ou os dois. É difícil dizer, mas provavelmente um pouco dos dois. Há definitivamente uma melhora do QI e do que a gente brinca que seria o "QE", o quociente emocional.

Pensando no contexto atual da pandemia, podemos afirmar que o home office e o isolamento social podem ter facilitado o aleitamento materno mais prolongado? E, nesse sentido, a volta às atividades presenciais vai ter um impacto nos bebês?

Paulo Bonilha: Não conheço nenhum trabalho científico que tenha avaliado o aleitamento materno pós-pandemia, mas, do ponto de vista empírico, observamos os bebês sendo mais amamentados nesse período. Então, para as crianças maiores a pandemia foi terrível, porque significou isolamento social e afastamento das escolas, sabemos que houve aumento de violência doméstica, insegurança alimentar no Brasil e muitos problemas emocionais que atingiram fortemente as crianças. Crianças ganharam muito peso com a alimentação inadequada e o sedentarismo. Muitas relataram momentos de pânico, dificuldade em compreender o contexto da pandemia, de sair, de se relacionar. Por outro lado, para os bebês pequenos, o impacto foi o oposto, o resultado imediato com a pandemia. Foi uma maravilha. Tudo que o bebê quer, a mãe e a família por perto, é bem diferente das crianças maiores. O novo contexto familiar propiciou uma aproximação entre pais e bebês ímpar na nossa história.

Neste momento em que comemoramos (mesmo que tardiamente) o amplo acesso à vacina para os adultos e adolescentes, podemos dizer que os bebês que amamentam estão de certa forma já protegidos, imunizados?

Paulo Bonilha: Está provado que a mãe vacinada transfere anticorpos para os bebês ao amamentar, mas não sabemos se é o suficiente para que ele seja efetivamente imunizado. Há um potencial para isso, mas ainda não está 100% comprovado. Torcemos para que seja assim.

Hoje o Brasil é referência em programas de aleitamento materno, muitos dos quais organizados pelo Ministério da Saúde nas últimas décadas. Quais os fatores que levaram a uma melhora progressiva nesses indicadores?

Paulo Bonilha: Em relação ao aleitamento materno, considero que o principal avanço na época em que estive no Ministério foi a formulação de uma política nacional de atenção integral à saúde da criança. Pela primeira vez na história do Brasil houve uma política única sobre a criança, elaborada de forma democrática e participativa, com representação da saúde da criança de todos os 27 estados e 27 capitais. Neste período fazíamos dez encontros semestrais com todo esse grupo em Brasília para discutir essa política, e uma de nossas diretrizes era de que nenhuma portaria seria surpresa para os parceiros dos estados e capitais. Os entes participaram de todo processo, o que foi fundamental para o sucesso da implementação local das ações.

O PNAISC resumiu a política de saúde da criança em sete grandes eixos, do apoio à mulher grávida, passando pelo aleitamento materno, desenvolvimento das crianças, promoção da cultura de paz, chegando ao controle de doenças entre nossas populações vulneráveis, como crianças indígenas ou moradoras de rua. O aleitamento sempre foi uma área de grande investimento e muito tradicional no Ministério da Saúde.

O hospital amigo da criança foi uma grande mudança nesse sentido, um espaço onde a mulher conta com uma série de cuidados que vão favorecer o aleitamento exclusivo, desde a promoção do parto normal. A tríade promovida pela OMS quando do nascimento dos bebês também é respeitada nestes espaços para incentivar o aleitamento, como o contato pele a pele imediatamente após o nascimento, o grampeamento do cordão não ser imediato e a mamada na primeira hora de vida. Na época, muitas mulheres nos questionavam que alguns hospitais que tinham recebido o título de amigos da criança eram também inimigos da mulher, então passamos a incluir cuidados com a mulher e a garantia de acompanhante para bebês internados.

E os atuais retrocessos que observamos no campo das políticas públicas afetam também o aleitamento materno?

Paulo Bonilha: Algumas coisas se mantiveram, mas, considerando os descaminhos do governo federal, muita coisa se perdeu. Felizmente existe uma equipe comprometida, de funcionários de carreira que são verdadeiros soldados, comprometidos com a causa e batalhando para tentar manter a chama acesa. Podem não estar conseguindo fazer muito, porque a cúpula está complicada, mas felizmente os retrocessos que temos visto nas políticas públicas federais, aparentemente, ainda não conseguiram estragar essa tradição do ministério. Estudos apontam que o sucesso do Brasil em melhorar suas taxas de aleitamento se deu pelo conjunto da obra, tanto por uma mudança cultural quanto pelo apoio da legislação, como o Marco Legal da Primeira Infância e a extensão da licença maternidade e paternidade. São avanços limitados, pois a maioria das pessoas não tem carteira assinada no país, mas é de grão em grão que as coisas vão mudando para melhor.

Carol Guimarães estará distante nos próximos meses vivenciando, agora na prática, a primeira infância na cidade durante sua licença-maternidade

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL