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Primeira Infância

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um recomeço da vida de dentro para fora

Um recomeço da vida de dentro para fora - Divulgação
Um recomeço da vida de dentro para fora Imagem: Divulgação

Thaís Oliveira Chita

11/06/2021 06h00

"Eu vi uma minhoca! Se as minhocas não têm olhos, como elas enxergam embaixo da terra? Vou pensar como uma minhoca!" E fecha os olhos com a minhoca em uma das mãos. Esse diálogo entre uma professora e um aluno, exibido no filme "O Começo da Vida 2: Lá fora", uma produção da Maria Farinha Filmes, é uma das inúmeras situações em que as crianças expressam sua genuína conexão com a natureza - sobretudo quando estimuladas a estarem nela: uma espécie de senso exploratório de vida que transborda, parecendo querer encontrar lá fora, a potência que sente dentro.

Produzido antes da pandemia de covid-19, com o objetivo de propor uma reflexão sobre a relação das crianças e adolescentes com o mundo e com a natureza, o documentário se potencializou com o isolamento social como uma oportunidade robusta de gerarmos conversas de qualidade sobre o que se mostrava evidente antes dele em relação ao cuidado (às vezes, à falta de) com nossas crianças. Muitas delas já estavam confinadas física e socialmente antes da covid-19, principalmente nas cidades. Agora piorou, e muito.

No trajeto da casa para a escola e vice-versa, seja de transporte público ou particular, por exemplo, elas estão em ambientes fechados. Nas salas de aulas também, e nem sempre os recreios acontecem em espaços abertos. Aos finais de semana, a falta de espaços ao ar livre seguros e de qualidade nas cidades empurra muitas famílias para shoppings centers como opção de lazer. Mais paredes e tetos confinando as crianças, além dos estímulos ao consumismo. As ruas se tornaram lugares de passagem, não mais de encontro e convívio.

Baixa motricidade, excesso de peso e mal-estar emocional são apontados por especialistas como reflexos negativos dessa privação de contato com a natureza e livre brincar para as crianças e adolescentes. Ambientes naturais contribuem para diminuir o estresse, previne problemas como depressão e ansiedade, aumenta os batimentos cardíacos e a expectativa de vida, melhora a qualidade do sono e a visão. Não só a criança precisa da natureza, como a natureza precisa da criança. Se elas não ficam ao ar livre, como vão conhecer e se apaixonar pelo lugar em que vivem?

Um "hub" de experiências

O filme é um convite para abrirmos portas e janelas, derrubarmos paredes e seguirmos na direção de caminhos mais naturais e coletivos em busca de uma vida de mais saúde e bem-estar. O que será essencial para nossas crianças no pós-pandemia? E qual é o lá fora que todos nós, famílias, sociedade civil organizada, profissionais e governos precisamos construir nas cidades, nas escolas, nos locais de trabalho?

A partir de quatro eixos temáticos - Saúde, Cidades, Educação, Conservação da Natureza - que conduzem a narrativa, são trazidas as vozes de especialistas, de crianças e adolescentes, e também experiências concretas que apontam saídas para recuperar e remediar boa parte dos impactos gerados pelo nosso modo de vida e agravados pela pandemia, como o emparedamento das crianças e adolescentes.

O raio de ação do filme se expande quando, além de conectar as ações do programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, aos temas do documentário, mais de cem instituições se juntaram em parceria para trilharem uma mobilização em torno dos assuntos retratados no documentário. Foram idealizados mini-documentários, junto com alguns desses parceiros, a partir de conteúdos extras, trazendo oportunidades ricas para debates em escolas, com as famílias, com grupos de ativistas, nas instituições, prefeituras etc. Outros materiais foram feitos como o "Histórias sobre aprender e ensinar com e na natureza", destinado à formação de professores/as com um percurso baseado em histórias reais, mostradas no filme.

O poder da natureza na consciência humana

O isolamento social deixou um rastro inominável de sentimentos, percepções e aprendizados, muitos deles bem dolorosos. E estar na natureza é um caminho potente para lidarmos com esse legado pandêmico. Ela provoca uma mobilização interna e sem percebermos, nossa mente fica mais presente, consciente, aberta e receptiva.

Feche os olhos e faça algumas respirações profundas, deixando sua mente te levar a uma lembrança feliz da sua infância. Qualquer uma. Permaneça nela o tempo que quiser e quando desejar, retorne.

E, agora, deixo um chamado: Que sigamos juntos/as/es uma jornada de reconexão com a coletividade, com as infâncias, com a natureza - a de dentro e a de fora - honrando as crianças que fomos e as que estão no começo de suas histórias. Que mais pessoas, grupos, organizações públicas, privadas e governos se somem e ampliem as ações, se inspirem, se mobilizem até perdermos o controle, numa imensa onda coletiva banhada de natureza. A gente acredita que precisaremos muito da natureza para nos curarmos daqui para frente. Quem vem? Escreva para nós: movimento@criancaenatureza.org.br.

Thaís Oliveira Chita, mulher, mãe da Clara, jornalista e pós-graduada em Gestão da Comunicação: Políticas, Educação e Cultura pela Escola de Comunicação e Artes da ECA/USP. É responsável pela área de Mobilização do programa Criança e Natureza, do Instituto Alana.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL