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Primeira Infância

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Não podemos cuidar da infância sem cuidar das mães', diz liderança do CE

Campanha Pé de Infância, em Jundiaí - Cléber Almeida - Pedro Amora - Dane Dalastra
Campanha Pé de Infância, em Jundiaí Imagem: Cléber Almeida - Pedro Amora - Dane Dalastra

Luanda Nera e Carol Guimarães

14/05/2021 06h00

Mesmo enfrentando as dificuldades da vida em uma comunidade de Jundiaí (SP), a diarista Fabiana Teodoro, 42, mãe de três filhos, é uma liderança empenhada em melhorar o seu entorno. Com experiência de articulação no bairro e sempre atuando nos espaços de participação civil, em 2020 coordenou o mutirão do Pé de Infância na região do Jardim Fepasa, comandando dez mulheres durante as intervenções na área.

Uma das ações da Rede Urban 95 na cidade do interior paulista, o Projeto Pé de Infância oferece um mapa de ações elaborado pelo Allma Hub Criativo em diálogo com líderes comunitários e agentes locais. Propõe intervenções que caracterizem as ruas e espaços públicos da cidade com uma nova identidade visual, lúdica, educativa e um convite ao brincar.

Há mais de 15 anos, quando grávida da primeira filha, Fabiana se envolveu com a Pastoral da Criança e nunca mais largou o trabalho comunitário. "Se a gente quer melhoria tem que ir atrás da melhoria. Temos que mostrar que somos capazes de transformar. Gosto muito dessa frase. Somos um sol vivo. Então bora brilhar, independentemente da situação!", completa animada a mãe e militante pela infância.

Já em Fortaleza (CE), a psicóloga Glória Maria Galvão, 62, pode ser considerada uma especialista em primeira infância, já tendo passado por diversas gestões na cidade - além dos sete filhos que pariu e criou! Coordenou projetos de apoio à gravidez na adolescência e aleitamento materno na prefeitura, e hoje trabalha no Instituto da Primeira Infância (Iprede), que há 35 anos se dedica ao combate à desnutrição infantil entre famílias em situação de pobreza.

Mas, no discurso de Glória, a análise técnica se contrapõe à vivência prática: "Sempre quis olhar para o outro e pelo outro. Trabalhando em regiões de vulnerabilidade social em Fortaleza aprendi que não podemos cuidar da infância sem cuidar das mães. Precisamos investir nos vínculos, principalmente entre pessoas em situação de miséria. A formação de vínculo é tudo na vida".

Sabemos que a vontade política define os assuntos prioritários das cidades, as áreas de atuação pública nos territórios e, em muitos casos, o sucesso de um programa ou projeto. Definitivamente, contamos com o engajamento do poder público para transformar os centros urbanos cidades em lugares melhores para nós e nossas crianças. Quando isso não acontece, são as mães que fortalecem os espaços construídos e mantidos pela sociedade civil, mesmo sem qualquer apoio governamental.

Esse é o caso de Lenilda Moreira, 56, dois filhos, liderança na comunidade de Barra do Ceará, Fortaleza. Com os filhos já crescidos, há seis anos desenvolve o projeto Barra Karatê, referência para crianças, jovens e adultos: "Vimos a necessidade de tirar as crianças da ociosidade. Nosso bairro tem muitas dificuldades, não oferece alternativas para as crianças. O projeto vai acompanhando as crianças ao longo dos anos e assim conseguimos ver as transformações, as boas mudanças".

Sem nenhum tipo de apoio da prefeitura, Lenilda se indigna. "Tentamos por diversas vezes, mas nunca tivemos retorno. Por isso, nos viramos com a mobilização da sociedade. Um gestor com visão de futuro já teria nos apoiado, mas não vamos desistir", reforça. O trabalho de Lenilda conta com a parceria da própria filha, que é formada em Educação Física.

Ao mesmo tempo, Fabiana e Glória nos trazem histórias de esperança e inspiração sobre a capacidade de realização da sociedade civil e a importância do seu engajamento nas políticas públicas. Contrariando estatísticas, expectativas e bandeiras políticas, elas acumulam décadas de militância nos temas ligados à infância e primeira infância, mesmo sem cargos públicos e títulos técnicos.

No Jardim Fepasa, centenas de famílias usufruem das intervenções que o Projeto Pé de Infância tem semeado por lá. Já no Instituto onde Glória atua, 1300 crianças são hoje atendidas por mês, além da oferta de oficinas de geração de renda e trabalho para as mães. Ações do poder público, mas impensáveis sem a agência de cidadãs comuns e mães desse Brasil.

Na semana em que comemoramos o Dia das Mães e em que, infelizmente, vivemos um momento em que tantas crianças estão órfãs por conta da pandemia, histórias como dessas três mulheres (mães, profissionais e ativistas) ganham ainda mais força.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL