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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Pais na pandemia: uma chance para o equilíbrio nas tarefas domésticas?

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Imagem: iStock

Luanda Nera e Carol Guimarães

02/04/2021 06h00

Nessa nuvem cinzenta em que estamos mergulhados, reforçada por um cenário de falta de perspectivas, cansaço físico e mental e luto constante, pode soar um tanto constrangedor supervalorizar os problemas domésticos, a relação dentro de casa, a intimidade das famílias. Mas é fato que, nas famílias heteronormativas, nossas crianças estão vivenciando uma situação ímpar e assistindo a mudanças nos papéis mais tradicionais de pai e mãe. O desafio da paternidade em um contexto de home office, aulas virtuais, confinamento e, tragicamente, cheio de limitações e medos também precisa de um olhar atento.

Circulam nas redes sociais memes que fazem referência ao "homem-office" e à "mulher-office", em que aparece a clássica imagem do homem sentado (geralmente lendo ou assistindo à TV) e da mulher, sempre com mãos e pés ocupados, sempre com as crianças em volta e visivelmente descabelada, estressada. Em um momento tão restritivo como esse, em que não se pode contar com a ajuda de família, professores, faxineiras e outras redes de apoio, o "braço-curto" de muitos homens ficou mais evidente, sobrecarregando ainda mais as mulheres.

Nunca se falou tanto da economia do cuidado, quando finalmente as horas investidas por meninas e mulheres ficaram um pouco mais evidentes, até pelos seus impactos perversos resultando em estresse, ansiedades, ataques de pânico além, claro, da perda de produtividade no trabalho de muitas mulheres.

Mas será que a pandemia também trouxe algum impacto positivo na relação dos pais com seus filhos? Nesse artigo tentamos nos debruçar sobre essa pergunta, afinal a pandemia nos mergulhou numa tragédia coletiva ímpar, mas também abriu possibilidades de mudança, de repensar nossas relações profissionais, pessoais, amorosas, de pai e mãe.

Duas pesquisas online foram conduzidas pela Making Caring Common, uma iniciativa da Escola de Graduação de Educação da Harvard. Entre os 1.319 participantes, 284 são pais, que demonstraram que suas relações com seus filhos estavam "mais próximas" e "muito mais próximas" durante o período de home office provocado pela pandemia.

O interessante é que a pesquisa não buscava analisar as relações de pais particularmente, mas esses resultados se mostraram latentes e consistentes em diferentes classes, níveis educacionais e vieses político-partidários. O que difere muito de outros estudos que, via de regra, apontavam pais distantes emocionalmente e alienados da educação de seus filhos.

A segunda pesquisa buscou captar maior conhecimento dessa tendência, e os resultados sugerem que os pais têm se envolvido mais com suas famílias durante a pandemia de maneiras importantes. Exemplos incluem descobrir novos interesses em comum, tentativas concretas de fortalecer vínculos e se aprofundar nas questões familiares e dos filhos.

A pesquisa avançará com outros focos e, pensando na perspectiva do pós-pandemia, o objetivo é avaliar se esses novos hábitos se sustentarão, se, de fato, farão parte de um novo modelo de sociedade.

Olhando para o contexto brasileiro, questionamos Leandro Ziotto, pai e criador da plataforma 4daddy, que busca formar e sensibilizar sobre a importância da figura paterna para o desenvolvimento social e humano. Ziotto reconhece o privilégio dos pais que podem trabalhar de casa, o desafio inicial familiar que a pandemia impôs, e a aproximação que vem resultando dessa (já nem tão) nova vivência: "Durante a pandemia, esse homem foi tendo consciência da falta de vínculos com o seu próprio filho ou filha. Muitos se deram conta de que não sabem, por exemplo, qual é a matéria que sua criança mais gosta na escola, ou quais os nomes dos melhores amiguinhos, brincadeiras prediletas etc. Por mais que haja uma geração de novos pais mais participativos e engajados afetivamente, a média geral ainda é fruto de um machismo estrutural e cultural que ensina o homem a performar a paternidade apenas como provedora financeira do lar".

A plataforma 4daddy produziu o relatório "Pais em Casa", que atesta que "a participação dos homens nas atividades de cuidado com as crianças começou a aumentar, mesmo que ainda muito longe do ideal." Ziotto complementa: "O fenômeno é mundial. Tanto na nossa pesquisa, como em outras similares feitas na Inglaterra, Canadá e França, todos os homens declaram sentir impactos positivos, mesmo em meio ao caos, deste recolhimento para dentro do lar e, assim, uma aproximação que chega a ser inédita com seus filhos e filhas. "

Questionamos Leandro Ziotto sobre o reconhecimento do cuidado e do papel materno nesse momento de isolamento social: "Ao estar mais presente, o pai também começou a reconhecer a sobrecarga materna. Mas, como numa terapia psicanalítica, reconhecer o problema só não basta. Mais do que ter consciência, é preciso agir. E é nesta parte que está a principal dificuldade dos homens. O machismo (assim como o racismo) não foi golpe do azar, foi um plano muito bem implementado. Para reverter esse cenário, também precisamos de um contra plano muito consistente, organizado".

Pensando nisso, o relatório "Pais em Casa" apresenta algumas recomendações (micro e macro) para começarmos hoje, agora, essa transformação. Ziotto destaca, neste sentido, a chamada "Economia do Cuidado" e tudo que envolve o "pré-cuidado direto". O que significa que não basta aos pais, por exemplo, colocar as crianças para dormir. Há atividades que precedem essa tarefa mais direta, como ter roupas limpas na cama, gerenciar as necessidades da casa etc. É a famosa (sobre)carga mental das mulheres, nunca tão em destaque quanto agora.

Será que essa aproximação entre pais e filhos e os vários momentos de "ajuda" (com aspas bem reforçadas para deixar clara a ironia) forçados pela pandemia resultarão em mais horas de cuidado compartilhado? Será que esses pais se tornarão novas referências para que seus filhos também os tenham como novos modelos de maternidade e paternidade, e relações entre pais?

Terminamos sem conclusão, mas torcendo para que essa tendência vire a regra, e que possamos realmente evoluir nessa crise sem precedentes e, juntos, nos tornar mais resistentes e fortalecidos para as próximas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL