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Primeira Infância

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Menos estímulo, mais experiência

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Luanda Nera e Carol Guimarães

05/03/2021 04h00

Nos primeiros anos de vida, o cérebro de uma criança se desenvolve mais do que em qualquer outro momento. Estudos apontam que 80% da estrutura cerebral se forma até os três anos de idade. Essa informação, cada vez mais conhecida, faz com que famílias e cuidadores busquem explorar ao máximo para que as crianças tirem o melhor proveito desse momento. E o que significa aproveitar essa fase de forma ideal? Devemos exigir alta produtividade também na primeira infância?

Para se desenvolver integralmente, atingindo seu pleno potencial, a criança pequena não precisa de uma infinidade de estímulos. Há quem acredite que as telas, jogos eletrônicos com sons e aplicativos com testes simples de conhecimento são uma boa estratégia para o desenvolvimento, estimulam bastante. Só que não. Os eletrônicos não são indicados para favorecer o desenvolvimento da criança, muito pelo contrário. A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é a de que, até os dois anos de idade, bebês não devem nem mesmo ser expostos ao uso de eletrônicos. Dos dois aos cinco, seu uso deve ser limitado a uma hora. A partir daí, no máximo duas horas por dia.

A boa notícia é que promover o pleno desenvolvimento não é algo exigente nem complexo em termos de recursos. A resposta está em deixar a criança brincar, explorar, aprender naturalmente com seu corpo e com o mundo ao seu redor. Viver experiências é a principal recomendação.

A qualidade das experiências de que ela pode participar é o que importa. O que realmente ajuda um bebê e uma criança pequena a atingirem seu pleno potencial são as interações, especialmente as humanas, entre ela e as pessoas de seu maior interesse no mundo: mães, pais, cuidadores próximos, irmãos, avôs e avós. São essas trocas de olhares, o contato físico, o som da voz, as músicas e parlendas cantadas e contadas por suas figuras de afeto que geram a real oportunidade para que o cérebro construa bases saudáveis para seguir aprendendo. Nada melhor para uma criança pequena do que ouvir uma história contada a partir de um livro cheio de imagens, podendo se aconchegar em um corpo adulto, afetivo, que o acolhe.

A ideia de experiência é muito mais interessante do que a de estímulo. O estímulo é algo que vem de fora, algo que atinge o outro sem dele demandar qualquer resposta. A experiência é diferente, é algo construído entre o bebê e o mundo que o circunda. É da ordem da relação, onde o bebê tem um papel ativo. Experiências de qualidade exigem certo respeito ao tempo do bebê, o tempo da exploração, da construção de sentido, da tentativa e erro, tentativa e acerto. Tempo de descobertas.

As primeiras experiências ocorrem principalmente no ambiente familiar, mas é importante lembrar que as famílias estão inseridas em um contexto e, no Brasil, a grande maioria está em um ambiente urbano. Quando uma cidade gera medo, stress e muitas dificuldades na mobilidade e acesso aos serviços, ela se torna um fator dificultador de boas experiências para crianças pequenas. Se uma cidade permite aos cuidadores espaços de convivência com outros, acesso seguro e confortável a serviços e oportunidades de interação com a natureza, a cidade facilita experiências ricas, que provocam a curiosidade e o desejo de explorar, de investigar, de conhecer mais sobre si, sobre o mundo e sobre o outro.

Há um poder intrínseco na relação humana. A experiência de que o bebê precisa para atingir seu pleno potencial é simples, afetiva, conhecida. Olhar, esperar, responder, falar, cantar, acariciar. A criação de espaços e práticas nas cidades que permitam essa mágica de bons encontros é possível e necessária, fazendo com que o processo de desenvolvimento em seu pleno potencial se dê sem várias telas, sem estímulos múltiplos e sem tanto esforço. Apenas através de experiências humanas de qualidade, naturalmente.

(Por Claudia Vidigal, mestre em psicologia social e representante da Fundação Bernard van Leer no Brasil)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL