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Primeira Infância

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Trazer as crianças de volta às ruas deve ser compromisso de toda sociedade

Getty Images
Imagem: Getty Images

Luanda Nera e Carol Guimarães

19/02/2021 04h00

Pensando em um recorte no tempo e espaço, quantas crianças que hoje moram em nossas metrópoles já vivenciaram aquele ideal de infância nostálgico marcado por brincadeiras de rua, convivência com vizinhos e autonomia para caminharem sozinhas? Muito antes da pandemia, as ruas já haviam se tornado lugares hostis à convivência, afastando as famílias do espaço público e virando símbolo de extrema insegurança, especialmente para aquela população que demanda maiores cuidados, como os idosos, gestantes e crianças pequenas.

Ruas, espaços públicos e serviços de mobilidade devem garantir segurança e acessibilidade para todos os cidadãos. Para tal, devem ser projetados para minimizar riscos de acidentes, promovendo o acesso à cidade e o bem-estar físico e mental para crianças e seus cuidadores. Para serem consideradas seguras, as ruas devem incluir acessos contínuos para pedestres, infraestrutura adequada ao ciclismo, sinalização e iluminação adequada, controle de velocidade nas vias e na emissão de poluentes.

Mas, afinal, quando as ruas deixaram de ser espaços seguros? Em que momento o desenvolvimento das cidades passou a significar o protagonismo dos carros e o temor dos pedestres? Sem dúvidas, o olhar unidimensional da produtividade, que prioriza a velocidade aos benefícios da rua, foi um marco deste espaço urbano pouco amigável.

Assim construímos cidades sem planejamento, que crescem de forma contínua e informal e não priorizam espaços para que os pedestres possam caminhar, descansar, conviver e socializar, ou seja, não entendem seus públicos e suas necessidades diversas.

Para além da gestão urbana local, que pode controlar a velocidade em ruas próximas de escolas ou creches, por exemplo, a sensação geral de segurança influencia diretamente o acesso das crianças à cidade. Quando os cuidadores não se sentem seguros nos espaços públicos, é cada vez menor a chance de darem autonomia para as crianças, incentivando o uso destes espaços.

Mesmo quando acompanhadas por cuidadores, sabemos que basta um deslize para que crianças pequenas se coloquem em situações de perigo. Assim, é fundamental que as ruas atendam a estas necessidades e apoiem os pais no cuidado com os pequenos. E que a gestão pública invista em programas de educação no trânsito para que crianças e cuidadores se tornem familiarizadas com as regras.

Um exemplo é o projeto Territórios Educadores, que desenvolveu caminhos lúdicos no trajeto escola-casa no Campo Limpo, bairro no extremo Sul da cidade de São Paulo. A ideia é que as crianças possam interagir e aprender brincando enquanto caminham pelas calçadas, com muros pintados, um jogo de amarelinha ou números coloridos no chão, um jardim sensorial ao longo do trajeto e outros estímulos ao seu pleno desenvolvimento. Os espaços combinam estudos de ergonomia infantil às referências de mobiliário urbano, com brinquedos acessíveis e adequados para diversas idades, que estimulem o desenvolvimento psicomotor e a relação cuidador - bebê.

Com intervenções em 10 locais entre os mais vulneráveis distritos da capital paulista, o projeto surgiu a partir de uma estratégia do Plano Municipal da Primeira Infância em cruzamento com o Mapa da Desigualdade de São Paulo, da Rede Nossa São Paulo, em 2017. O projeto propôs também a revitalização de uma praça local, que fica no caminho entre várias instituições de ensino do bairro, promovendo a segurança viária nas rotas mais comumente percorridas a pé por crianças entre 0 e 6 anos de idade.

Se a recuperação das cidades em prol de ciclistas e pedestres vinha sendo uma pauta setorial da mobilidade urbana, a pandemia reforçou a importância de ruas focadas em pessoas como uma resposta à crise sanitária. Este é um momento histórico, em que as cidades podem mudar de rumo ao fornecer novas possibilidades para as pessoas usarem as ruas.

Criar ruas seguras é essencial durante a crise, já se somando ao que sabemos sobre o impacto sócio-cultural do acesso ao espaço público por cidadãos de todas as idades. A Covid-19 nos fez repensar a ideia de espaços de trânsito, aproximar as fronteiras entre o global e local e nos ajuda a refletir sobre nossos caminhos urbanos, os físicos e conceituais.

Ao promover um ambiente seguro, alegre e que incentive conexões na comunidade, o planejamento das cidades ajuda a pavimentar o caminho para uma geração de crianças, adolescentes e adultos saudáveis. Se é verdade que hábitos se constroem desde a infância, fica fácil entender porque ruas seguras promovem o acesso aos espaços públicos por crianças e cuidadores, permitindo a apropriação por aqueles que vão crescer naquela comunidade.

O movimento de ocupar a rua pressupõe repensar o que nos distanciou dela. Se queremos construir o futuro e já sabemos que a primeira infância é um bom investimento, e com retornos significativos, pensemos em territórios que fortaleçam os vínculos sociais, a mobilidade ativa, o explorar de caminhos e novas experiências em nossas cidades.

Que nossas crianças recebam o convite para viver nossas cidades em todo o seu potencial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL