PUBLICIDADE
Topo

Primeira Infância

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Infância, violência e desenvolvimento: metodologias na prática

Grupo participa do Estudo Piá - Primeira Infância Acolhida, em Pelotas (RS) - Michel Corvelo
Grupo participa do Estudo Piá - Primeira Infância Acolhida, em Pelotas (RS) Imagem: Michel Corvelo

Luanda Nera e Carol Guimarães

05/02/2021 04h00

Espalhadas por países em desenvolvimento de todo o mundo, mais de 250 milhões de crianças não irão atingir seu máximo potencial até os cinco anos de idade, com prejuízos diretos sobre suas perspectivas de futuro e redução da pobreza intergeracional. Foi a partir desses dados alarmantes que a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e a Prefeitura da cidade se uniram para lançar, em 2018, o Estudo Piá - Primeira Infância Acolhida. A parceria entre setor acadêmico e a gestão pública local é uma prática inspiradora para os municípios brasileiros e, em pouco mais de dois anos de atuação, já colhe resultados importantes.

Estudos longitudinais podem ser extremamente relevantes para estabelecer correlações causais e observar impactos associados em uma comunidade, especialmente pela possibilidade de aplicabilidade em políticas sociais. Também chamado método observacional, estabelece um grupo amostral para ser analisado por determinado período de tempo, buscando entender variações ao longo dos anos.

No âmbito do Pacto Pelotas Pela Paz, o Centro de Epidemiologia da UFPel aplica metodologias já testadas internacionalmente em um estudo de campo inédito no Brasil, avaliando o impacto de duas intervenções com foco em práticas parentais, cognição, desenvolvimento sócio emocional e agressividade infantil. O objetivo é identificar os determinantes sociais de diferentes práticas e suas consequências sobre o desenvolvimento psicossocial infantil e a prevenção de fatores de risco para a violência no futuro.

Em uma conversa com a prefeita de Pelotas, Paula Mascarenhas, ela reforça a importância das ações integradas e de longo prazo na gestão pública local e justifica a relação entre os projetos voltados para a primeira infância e o trabalho com presidiários, por exemplo: "Aos poucos fomos investigando o histórico da população carcerária e percebendo que a base dos problemas estava nas relações familiares. Muitos eram filhos de mães adolescentes, não tinham o nome do pai registrado na certidão de nascimento, sofreram violência durante a infância, não foram amados".

Sabemos que cabe aos governos estaduais decidirem sobre a segurança pública, mas é nos municípios que as ações efetivamente preventivas podem e devem começar. São responsabilidade dos prefeito/as as políticas públicas diretamente relacionadas à saúde, educação, assistência social e desenvolvimento econômico local. Uma criança feliz, amada, protegida, segura, tem muito mais chance de se tornar um adulto não violento, de seguir no caminho da paz.

Em Pelotas, o estudo acompanhará as famílias, pelo resto da vida, de 369 crianças nascidas em 2015 na cidade. Serão realizadas uma variedade de intervenções centradas no estreitamento de vínculos familiares, como leituras dirigidas e atividades lúdicas com pais e na escola.

A longevidade da observação em Pelotas nos oferece um enorme potencial de intervenção, munindo pais, educadores e especialistas de um rico material para entendermos a importância da primeira infância no desenvolvimento humano e compreender como mecanismos sociais nessa fase de vida influenciarão a sociedade do futuro.

O estudo teve reconhecimento da Parceria Global pelo Fim da Violência contra Crianças, que chegou a enviar representantes à cidade para conhecer a iniciativa inspiradora. Apesar dos resultados preliminares, até mesmo pela natureza das pesquisas longitudinais, a Prefeitura enxerga impactos positivos para os facilitadores envolvidos, crianças e cuidadores que integram a pesquisa.

As mães já apontam uma melhor comunicação com os filhos e o desenvolvimento de formas próprias para se entender os sentimentos alheios. Mas a pesquisa deverá trazer novos insights ao longo dos próximos anos, e a expectativa é de que a parceria forneça material e evidências científicas para embasar novas políticas públicas.

Quando falamos em mudança de comportamento e resolutividade de políticas sociais, é preciso testar, explorar e pensar a longo prazo, o que quebra a lógica política do "mostrar serviço" a cada quatro anos. Os impactos também aparecerão ao longo dos anos, sendo um dos objetivos de médio prazo a economia de despesas do município em relação ao combate à criminalidade e prevenção à violência

Se os custos das contravenções são intangíveis para famílias e comunidade próximas, ficam muito visíveis para a gestão pública, como a sobrecarga para os sistemas judiciário e carcerário. Aqui já aprendemos que o foco da política social em prevenção tem infinitos benefícios.

Vivemos em um mundo que busca respostas rápidas da ciência quando crises acontecem, mas cada vez mais somos questionados a pensar sobre a necessidade do investimento constante e a longo prazo, para trazer aplicabilidade à ciência, e dados às políticas públicas. Ciência pode e deve nos guiar com melhores e mais complexas respostas, à primeira infância e à violência é um exemplo disso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL