PUBLICIDADE
Topo

Primeira Infância

Confinadas e longe da natureza, nossas crianças estão adoecendo

Getty Images
Imagem: Getty Images

Luanda Nera e Carol Guimarães

22/01/2021 04h00

Aquela imagem idílica de crianças brincando em parques, correndo pelas ruas, subindo em árvores e convivendo harmoniosamente com os animais e a natureza há muito tempo não faz parte da realidade da maioria das famílias brasileiras. São inúmeros os motivos do nosso confinamento que, muito antes da pandemia, vem transformando as experiências infantis em atividades circunscritas aos espaços privados, fechados e excessivamente concretos - em ambos os sentidos da palavra.

Em evento da Rede Brasileira Urban95 nesta terça (19), cidades brasileiras discutiram o desafio de dar acesso à natureza para nossas crianças em um momento de pandemia. Depois de quase um ano longe da escola e (ainda mais) presos às telas, os mais jovens contabilizam os impactos na saúde mental e os danos físicos da quarentena.

Segundo o Panorama da Obesidade em Crianças e Adolescentes, hoje, um em cada três crianças e adolescentes brasileiros com idade entre 5 e 19 anos apresenta excesso de peso ou obesidade. Projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que podemos ocupar o 5° lugar na lista de países com maiores índices de obesidade infantil em 2030.

O confinamento tem prejudicado o desenvolvimento das crianças, inflacionando o desafio que já tinham para experimentar o espaço urbano. Como o principal canal para o desenvolvimento do conhecimento, o corpo infantil demanda espaços em que possa explorar suas descobertas, viver e presenciar ciclos com ampla movimentação. Reunindo estes e outros aspectos pedagógicos ricos, a natureza é o espaço de desenvolvimento integral por excelência.

Por isso insistimos que cidades mais verdes e amigáveis para crianças são aquelas que promovem espaços públicos com mais natureza, acessíveis e favoráveis à presença da diversidade como pilares do planejamento urbano dos municípios brasileiros. Considerando o fato inquestionável de que o contato com a natureza não é mais óbvio ou natural para aqueles que vivem no meio urbano, precisamos criar posicionamentos ativos sobre as cidades que queremos.

Durante encontro da Rede Urban95, a coordenadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana, Laís Fleury, destacou o conceito de "transtorno do déficit de natureza", termo não médico utilizado para descrever o fenômeno que tem impactado a saúde das crianças em diversos aspectos por estarem sendo privadas de brincar em áreas verdes.

Controle de peso, problemas de sono e menos oportunidade de estarem ao ar livre no contexto urbano são sintomas das mudanças que a pandemia trouxe para nossas crianças, com consequências como o aumento marcante da obesidade entre as faixas etárias mais jovens.

No contexto de restrições para as famílias e comunidades, Laís propôs um debate sério sobre o planejamento de reabertura das escolas que inclua um olhar sobre a cidade com parte do espaço pedagógico disponível e destaque a importância do diálogo intersetorial. Um exemplo seriam as salas de aula temporárias e em espaços ao ar livre. Espaços mais lúdicos, que priorizem elementos naturais, se mantenham livres de publicidade infantil e que garantam seu acesso igualitário.

O multiartista Guilherme Blauth apresentou a experiência inovadoras dos parques naturalizados, proposta que prioriza materiais naturais, estruturas móveis e a interação com a biodiversidade local na instalação de áreas de lazer e recreação. A ideia é estimular o brincar livre e não-dirigido, incentivando a exploração orgânica, o mergulho criativo e segundo os fluxos da natureza. Talvez os tempos de confinamento extremo sejam uma semente potente para repensarmos os espaços de desenvolvimento que temos oferecido para nossas crianças.

Se o confinamento nos empurra para os eletrônicos, hoje um dos maiores desafios das famílias modernas, os espaços naturalizados apoiam a confiança das crianças na exploração, na criatividade, na liberdade e no desenvolvimento das crianças, ao mesmo tempo em que atraem a participação de famílias e cuidadores, o caldeirão perfeito para uma política pública de sucesso.

Seja para auxiliar o planejamento de volta ao ensino formal, para apoiar famílias e cuidadores na socialização de crianças pequenas ou incentivar a prática de atividades saudáveis, a retomada do brincar natural apresenta benefícios para toda a comunidade.

Avançamos tanto no desenvolvimento tecnológico, mas esquecemos da tecnologia social mais próxima e sincrônica com nós mesmos: a natureza. Esta que garante uma infância saudável, formação integral e o melhor potencial de aprendizagem para explorar, criar e aprender.