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Primeira Infância

Por que defender cidades para a primeira infância?

Luanda Nera e Carol Guimarães

Luanda Nera é Jornalista vencedora do Prêmio Ethos de Jornalismo em 2002 e finalista em 2001, 2006 e 2007. Foi professora e coordenadora do curso Jornalismo Social, da ECA-USP, em 2008. É membro do conselho consultivo da Agência Mural de Jornalismo das Periferias. Desde 2007, coordena a comunicação do Instituto Cidades Sustentáveis. Carol Guimarães é urbanista e gestora de projetos. Atualmente coordena a Rede Nossa São Paulo e é conselheira do Conselho de Transporte e Trânsito de São Paulo.

27/11/2020 04h00

Se inicialmente o conceito de cidades para primeira infância pode parecer específico ou segmentado, são muitos os benefícios e impactos coletivos do desenvolvimento urbano com essa perspectiva. A conta fica ainda mais nítida no cálculo financeiro, segundo o qual cada dólar investido em políticas para a primeira infância (0-6 anos) traz um retorno superior a U$ 7 (R$ 37, na cotação atual), segundo o estudo "Investir no desenvolvimento na primeira infância: Reduzir déficits, fortalecer a economia", de James J. Heckman, professor emérito de economia "Henry Schultz" da Universidade de Chicago e ganhador do Prêmio Nobel de Economia e especialista em economia do desenvolvimento.

Pensar na primeira infância é refletir sobre a acessibilidade dos serviços urbanos, a qualidade dos deslocamentos na cidade e seus espaços de convivência. Para além da segurança viária e do mobiliário urbano, estamos falando de cidades como laboratórios da vida. São por seus caminhos que os pequenos cidadãos vão descobrir e construir seus territórios, revelar histórias locais e experimentar sua cultura, fazendo pulsar a cidade.

Nesse sentido, iniciativas que promovem a troca de conhecimento e reflexões sobre essa agenda estratégica são de alto valor agregado, potencializando respostas aos gargalos das cidades. A Rede Brasileira Urban95 é um bom exemplo, iniciativa da Fundação Bernard van Leer e do Instituto Cidades Sustentáveis para promover, desenvolver e fortalecer ações, programas e políticas públicas voltadas ao bem-estar e qualidade de vida das crianças de 0 a 6 anos de idade e seus cuidadores.

O projeto apoia municípios na compreensão da importância da agenda e lhes oferece um portfólio de possibilidades, incluindo apoio técnico, diagnósticos, consultorias em mudança de comportamento, elaboração de planos para primeira infância, gestão de dados, planejamento urbano e inclusão em uma rede de parcerias nacionais e internacionais.

Nós, Carol Guimarães e Luanda Nera, ambas coordenadoras do Instituto Cidades Sustentáveis, assinaremos esta coluna quinzenalmente trazendo reflexões, conceitos, boas práticas e iniciativas de sucesso em cidades que estão dedicando um olhar especial para sua primeira infância. Também teremos convidados da rede Urban95 no Brasil e mundo. Carol é urbanista e futura mãe, Luanda é jornalista e mãe já experiente. E ambas vivemos o ambiente urbano em sua complexidade. Acreditamos que a troca de experiências pode ser inspiradora para especialistas, técnicos e servidores para pensar desde o setorial de diferentes espaços ao multissetorial do desenvolvimento urbano, abordando serviços meios e fim e a objetividade e subjetividade nas cidades.

Com a ideia de meritocracia na pauta do debate público e o contraste com a experiência brasileira como um país tão desigual, nunca foi tão urgente o diálogo sobre o investimento e atenção a longo prazo em prol de uma sociedade mais equitativa para todos, assim garantindo o mesmo começo. As cidades precisam incorporar esta agenda transversal e tão importante para o futuro urbano. Se já compreendemos que quanto mais cedo é feito o investimento, maior impacto social ele gera, o que ainda estamos esperando?

Se a retórica urbana é iminente, com 84,72% (PNAD, 2015) da população brasileira vivendo em cidades, é crucial ajudá-las a repensar a abordagem dada ao público infantil, valorizando o desenvolvimento integral do indivíduo como ponto central da construção de sociedades mais justas, humanas e democráticas.