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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Roteiro para enfrentar as mentiras fascistas

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Helena Singer

Helena Singer

Helena Singer é vice-presidente da Ashoka para América Latina, doutora em Sociologia pela USP e idealizadora do Movimento de Inovação na Educação.

30/03/2022 06h00

O ano de 2022 já prometia muita emoção com a esperança da superação da pandemia e as eleições gerais no Brasil, quando eclodiu uma guerra com risco de se tornar mundial. Além disso, o cronômetro das mudanças climáticas parece a cada dia oferecer novas evidências da corrida contra o tempo para a preservação da espécie humana.

Marca comum a todos estes eventos é seu atravessamento por uma proliferação de mentiras elaboradas e difundidas pelas forças de extrema direita, ultraconservadoras ou fascistas, ampliando a angústia dos que estão buscando mover positivamente a sociedade. Para além de enfrentar os problemas em si, temos ainda que lidar com as mentiras.

Neste esforço, o historiador argentino Federico Finchelstein oferece um bom apoio. Em seu livro "Uma breve história das mentiras fascistas", ele nos ajuda a entender não só a lógica daqueles que inventam as mentiras, mas também o comportamento dos que os seguem. O livro também nos ajuda a colocar em perspectiva os desatinos que vivemos hoje em dia. Nem tudo se explica pela força das redes sociais — muito antes delas, milhões de pessoas espalhadas por vários continentes já tinham sucumbido às mentiras fascistas e seus efeitos devastadores. Mas fomos capazes de superá-las. E podemos vencer novamente.

Em primeiro lugar, é preciso entender que os fascistas e a extrema direita acreditam em algumas das mentiras que eles professam. Assim como Hitler acreditava que os judeus constituíam uma raça inferior, a extrema direita de hoje de fato acredita nas suas ideias racistas, machistas e lgbtfóbicas. Sendo assim, podemos entender o que esses atores chamam de mentira: mentira é tudo o que contradiz essas ideias. Mentiras, para eles, são os fatos que contradizem a teoria racista do universo. Encontra-se aí a razão da guerra da extrema direita à ciência que não se submete à sua ideologia.

Em seguida, precisamos compreender a importância e estratégia da propaganda fascista: o líder é aquele que fala o que o povo entende, liberando um inconsciente coletivo, liberando os desejos íntimos, desejos de exclusão do diferente, de dominação política, de dominar os mais fracos e de ser dominado por um líder. Daí o ódio fascista ao politicamente correto ou à cultura de cancelamento.

O terceiro aspecto a ser compreendido é o da importância da destruição para as mentiras fascistas. Finchelstein mostra como a perseguição aos judeus visa torná-los aquilo que a teoria racista pregava: "impuros e contagiosos". Da mesma forma, o estupro "confirmaria" que a mulher é "vadia", a violência policial "confirmaria" que o suspeito é "bandido".

O líder, sendo aquele que revela a verdade fundamental falando a língua do povo, deve guiá-lo. Daí decorre a mentira fascista fundamental: a de que ditadura é a forma mais verdadeira de democracia. A verdade depende das percepções e desejos do líder e, por isso, é importante destruir os registros, manipular as memórias e experiências. Vemos a história transformar-se em mito com o enaltecimento da ditadura militar no Brasil ou com as justificativas dadas por Putin para a invasão da Ucrânia. O fascismo segue e transforma antigas formas de insensatez, envolvendo revelação, simulação e projeção. Os que seguem o líder creem nele, não há que se perder muito tempo tentando mostrar-lhes as evidências de que os fatos o contradizem.

O que distingue o fascismo do populismo de extrema direita é que o último depende das eleições para confirmar o líder como único representante da verdade. Por isso, a urgência de os representantes da extrema direita vencerem as eleições. Caso percam, cruzam a fronteira, e passam a deslegitimar o processo.

Compreendendo melhor a dinâmica da experiência fascista, podemos resumir as prioridades para desmontar as mentiras da extrema direita, seja no contexto das eleições, no enfrentamento às mudanças climáticas ou na superação da pandemia:

  1. Difundir o mais amplamente possível a perspectiva histórica e científica, ocupando e criando espaços educativos para isso.
  2. Cancelar sem tréguas os propagadores das mentiras.
  3. Promover todas as formas de empatia, colaboração, criatividade e transformação pelo bem comum como antídoto à agenda da destruição e violência.
  4. Não perder tempo com os que seguem o líder. A maioria não compactua com a insensatez e é a ela que devemos direcionar nossos esforços.
  5. Estar atentos aos movimentos da extrema direita, devidamente preparados para suas esperadas tentativas de golpe e manipulação.

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