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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A conveniente criminalização da música e da arte independente

Show da banda de hardcore Dead Fish  - Marcelo Marafante
Show da banda de hardcore Dead Fish Imagem: Marcelo Marafante
Rodrigo Lima

Rodrigo Lima

Nascido em Vito?ria (ES), Rodrigo e? vocalista e letrista da banda de hardcore Dead Fish, membro do coletivo Hardcore contra o fascismo, sócio na empresa Cucamonga. Profissional da música por mais de 30 anos, compositor e um dos nomes do punk rock no Brasil. Rodrigo é bacharel em direito pela Universidade Federal do Espírito Santo.

23/01/2022 06h00

Passei longas duas horas em frente a esse computador para escrever o que, na minha cabeça, parece muito óbvio. Mas dois anos depois de uma pandemia devastadora e de vários golpes na cultura e no Brasil, é impossível compilar toda essa jornada em apenas um texto.

Tudo que vivemos nesses últimos tempos daria um filme, um livro. Um documentário daqueles bem tristes e ainda sobraria material para outras coisas. Muitos dos nossos não apenas morreram, foram apagados. Desapareceram, foram cancelados em um visível projeto de governo que se encontra em andamento hoje, agora e aqui, não só dentro da música. Basta perguntar para um professor ou um motorista de ônibus como foi a vida deles nos últimos vinte meses.

A criminalização da arte e da cultura independente e periférica sempre foi muito forte dentro do nosso país. Tudo que está "fora dos padrões" para a "elite intelectual" à frente da grande mídia é considerado perigoso, má influência e sabotado. É tido como criminoso e precisa ser combatido.

Quando andar de skate era um crime

Vivo isso desde meus doze anos, quando escolhi fazer parte de um grupo de skatistas na minha cidade, ainda nos anos 1980.

Naquele tempo andar de skate era crime. Sim, é sério. Peguem os decretos do Jânio Quadros, de 1988, quando ele era prefeito da capital paulistana. Jânio proibiu a prática do esporte na cidade, que só foi liberado em 1989 com a entrada de Luiza Erundina na gestão da prefeitura.

Crescemos, fundamos bandas, selos, coletivos, casas de show, gravadoras, estúdios. Desenvolvemos tecnologias locais próprias para nossos instrumentos de trabalho, seguindo a boa e velha cultura do do it yourself (DIY) - "Faça você mesmo".

Dentro do punk/hardcore, a gente criou a nossa própria forma de ver e pensar arte, música, política, alimentação, moda, trabalho e muitas coisas mais. Somos uma realidade mundial e hoje estamos em mais lugares do que imaginávamos na década de 1980.

Qual é o plano do país para a cultura?

Show da banda de hardcore Dead Fish  - Marcelo Marafante - Marcelo Marafante
Imagem: Marcelo Marafante

Mesmo com tudo isso, persiste a ideia de nos apagarem de novo. Até hoje, esse governo genocida não instituiu de forma transparente um plano de combate ao vírus e é racionalmente responsável por mais de seiscentas e dez mil mortes. Isso é mais do que a Guerra da Síria matou em dez anos.

De dezembro pra cá, nós estamos tateando no escuro e resolvendo, nós mesmos, como sempre, o que pode ser seguro e o que não dá para ser feito para voltarmos a reativar eventos. Parecia ser uma volta mais sustentável', e vinha sendo cuidadosamente feita, exigindo comprovantes de vacinação, uso obrigatório de máscara, até aparecer a nova variante, ômicron. Nesse exato momento estou vivendo as consequências de tentar conseguir reativar o que não podia ficar tanto tempo parado: a música, a arte contestadora e linda que fazemos desde sempre.

Não queremos mais parar, é sério. Não se trata de uma afirmação leviana e irresponsável, é um fato. Não podemos ser responsabilizados de novo e de novo. A cultura foi a primeira a parar e agora, somos os últimos a voltar. E não se trata só de dinheiro circulando aqui, trata-se de sanidade mental e física também. Perdemos amigos pra depressão. Que levante a mão quem está metalmente bem depois disso tudo.

É absolutamente inaceitável criminalizar eventos independentes, salas de cinema, eventos de teatro, bailes, quando os eventos mainstream, como jogos de futebol, grandes shows sertanejos e religiosos, bombaram como um "respiro no meio da pandemia".

Exigir mais vacinas, testagem em massa e vacinação das crianças é a nossa saída. Sabemos perfeitamente que temos capacidade de fazer isso em grande escala em um curto espaço de tempo graças ao nosso Sistema Único de Saúde, o SUS. Estamos com mais de setenta por cento da população vacinada com as duas doses. Basta parar de gastar dinheiro com cloroquina e ivermectina, e investir no que funciona de verdade em uma pandemia.

Nós, que estamos há anos na resistência independente, somos comprometidos o bastante para fazer acontecer com o máximo de segurança. Não duvidem, é perfeitamente possível, basta vontade política e muita pressão sobre as autoridades sanitárias e políticas e encarar nossa cultura como item de primeira necessidade, que é o que somos.

O que espero com tudo isso é ver uma conscientização maior sobre o uso correto de máscaras adequadas, vacina para todos e todas e que a cultura, fundamental desde o início da pandemia com as incansáveis lives, não seja mais culpabilizada. O caminho é árduo, mas possível. Venceremos.

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