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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Militância é coletividade, não vaidade

Karol Conká é uma das participantes do BBB 21 - Reprodução Globoplay
Karol Conká é uma das participantes do BBB 21 Imagem: Reprodução Globoplay
Keit Lima

Keit Lima

Keit é mulher preta, gorda, periférica, nordestina e ativista na luta pela equidade racial, de gênero e de classe. Liderança na periferia da Brasilândia, São Paulo. Atua na Educafro, Marcha das Mulheres Negras, Mulheres Negras Decidem e Grupo Mulheres do Brasil.

10/02/2021 04h00

Nos últimos dias muito tem se falado sobre militância ou ser militante. As minhas principais questões são os estereótipos e visões equivocadas que estão sendo associados a essa palavra. Mas afinal, o que é ser militante?

Um militante necessariamente compõe organizações e desenvolve ações que transformam a sociedade. Lideranças de movimentos sociais são aquelas e aqueles que constroem e dão coerência ao movimento por meio de suas ações e contribuições.

No lugar de entretenimento bobo, mas necessário para esses tempos de pandemia, perdas e incertezas, o Big Brother Brasil está contribuindo para reforçar a imagem estereotipada de que os militantes são pessoas intolerantes, invasivas, agressivas e até cruéis. O que acontece na edição atual do BBB não é militância, é lacração, arrogância, vaidade, personificação de lutas e distorção e esvaziamento de pautas tão caras para o movimento negro.

É uma grande irresponsabilidade esvaziar uma palavra com tanto significado, que carrega a história dos nossos ancestrais e que reafirma que os nossos passos vêm de longe porque muitas pessoas fizeram de suas vidas exemplos de luta e de resistência e que com isso abriram caminhos. No momento, estamos nos deparando com graves retrocessos políticos, sociais e econômicos e os militantes de diferentes grupos sociais seguem lutando pela defesa dos direitos ameaçados.

Não se pode confundir as personalidades e individualidades das pessoas negras no BBB com quem realmente está organizado, articulado, compondo movimento social e construindo alternativas para todo tipo de opressão e desigualdade contra os nossos.

No país de Marielle Franco, Margarida Maria Alves, Vera Lúcia Santos, Dorothy Stang, Paulo Paulino Guajajara, militantes são perseguidos e assassinados. O Brasil é um dos países mais perigosos do mundo para defensores de direitos humanos e ambientais. Somos o quarto país que mais mata ativistas de Direitos Humanos (dado do relatório anual divulgado pela organização Frontline Defenders, que compila denúncias globais dos ataques contra ativistas 2019) e o terceiro país que mais mata defensores do meio ambiente no mundo (dado do relatório anual da ONG Global Witness 2019). O Brasil ocupa essa posição no topo do ranking há pelo menos cinco anos. Aqui muitos de nós "tombam" de verdade.

Ter milhares de seguidores, compor músicas, escrever livros, sair em capa de revista, dar entrevistas, não faz de ninguém militante ou liderança. Artistas e influencers que expressam (de forma legítima) sua consciência social e racial são formadores de opinião, mas não são militantes.

Entender as dinâmicas e perversidades do racismo, classicismo e machismo não faz de ninguém militante. Militância é estar comprometido com uma determinada causa, de forma consciente e ativa na teoria e na prática. É uma organização para a transformação do mundo. É olho a olho. É construção. É junto. É escuta. É comprometimento. É coletividade.

Ser militante é uma escolha. É um projeto de vida. E digo e reafirmo: Sem as mulheres negras militantes que vieram antes de mim e as que estão caminhando comigo, eu nada seria.

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