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O Deus do Fogo: Por que o Brasil não está em chamas?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Anderson França

Anderson França

Anderson França é ativista, escritor e colunista, radicado em Lisboa

21/11/2020 04h00

Você entra no Carrefour Express da República, em São Paulo, com uma lata de querosene e um isqueiro.

Duas coisas podem acontecer.

A primeira, você pode ser abordado por um segurança do Carrefour.

O Quinto Cavaleiro do Apocalipse é um segurança do Carrefour. Fico pensando se Hitler tivesse contratado seguranças do Carrefour em vez de nazistas, ele talvez governasse a Alemanha até hoje.

Se você for abordado por um segurança do Carrefour, esteja preparado para que ele seja a última pessoa com quem você vai falar. Ele pode simplesmente te retirar do mercado, ou pode matar você. E vai fazer isso, se você for preto.

Se isso acontecer, e provavelmente vai, olhe em volta.

Observe quantas pessoas vão olhar pra você com medo, e quantas vão olhar pra ele com medo.

Talvez, é apenas uma suposição para fins da nossa discussão, as pessoas se sintam aliviadas por um segurança impor autoridade sobre você.

E isso explica a diferença entre nós e os franceses.

A diferença não é a língua. Não é o vício em baguete. A diferença é que os franceses, por qualquer coisa, vão lá e tacam fogo em tudo.

Um dia desses, assisti no noticiário uma cena muito diferente das exibidas no seriado "Emily in Paris", na Netflix. Milhares de jovens incendiavam, quebravam e espalhavam o caos nas ruas da cidade, meta de vida de dez entre dez blogueiras de moda.

Ao olhar pra Minneapolis, vi algumas das cenas mais impactantes, desde Los Angeles, 1992. Que inclusive, também tem documentário na Netflix. Não é um merchan da Netflix. Beleza e caos geram os melhores filmes. E se juntos, ganham prêmios.

As pessoas saem pras ruas, com a percepção de que é um direito protestar. Os excessos no protesto podem ocorrer. Mas a mensagem precisa ser dada. A semelhança entre França e Estados Unidos? Ambos são referências diplomáticas e políticas da democracia ocidental.

O que significa que, até pra protestar, você precisa de um Estado que aceite tudo que um protesto implique, mesmo que alguns sejam presos.

Porque o fogo precisa de oxigênio para existir. E oxigênio, pra protesto, são direitos. E direitos são garantidos em democracias.

Não é assim no Hemisfério Sul.

Toda a América Latina e África são marcadas por anos de força bruta da colonização, depois por governos autoritários, ditaduras, mudanças nas regras do jogo, gente "sumida", gente "suicidada", governos militares, golpes de estado, morte. No Brasil, além disso, a violência sistemática do Estado com suas forças de segurança nas periferias e favelas. O povo mais povo, o povo negro, nordestino e brancos pobres, não fazem a menor ideia do que significa protestar. E se protestam, não sabem o que significa voltar pra casa em segurança. Porque no morro, a bala não é de borracha.

Ditaduras e desequilíbrios democráticos como os que acontecem aqui, não acontecem nos Estados Unidos ou França. Aliás, a França só começou porque os franceses tacaram fogo e guilhotina no castelo do rei. Então democracia, e tacar fogo, andam juntos lá.

Já que estamos falando tanto de Netflix, vai outra. Em um dos episódios novos de The Crown, ouvimos a canção patriótica dos ingleses: "Rule, Britannia, ...britons never, never will be slaves", cantada nas ruas de Londres quando os ingleses venceram os argentinos na Guerra das Malvinas.

Muitas pessoas reclamam que no Brasil nós ainda não fomos incendiar as ruas. Nós não temos garantias que vamos voltar pra casa. Não confiamos no Estado, como parceiro do povo, em suas demandas. Mas como Boechat dizia, "o Estado é contra o brasileiro". Nós vemos, diariamente, a brutalidade policial. A reação desproporcional e o uso da força para silenciar mentes e corpos indignados. As ameaças de morte, os assassinatos das nossas referências. Num país onde nem a delegada nem o vice-presidente assumem que o crime foi baseado numa estrutura racialmente injusta e opressora.

O fogo é uma força. O fogo que queremos atear, esse fogo é um deus. Mas um deus como o fogo depende de duas coisas: um seguidor do fogo, e o oxigênio pro fogo existir.

Estamos todos acuados, não acovardados. Deve ser um sinal de que estamos sequestrados em nosso próprio país, o fato de não termos força de atear fogo às ruas. França e Estados Unidos podem refletir sobre isso. Que lá, faz-se o fogo, aqui, o povo se tranca em casa, olha pro chão, muda de calçada. O povo brasileiro não é covarde. Só está sequestrado.

E isso explica uma segunda coisa que poderia acontecer no Carrefour Express, se fôssemos livres: ao entrar com uma lata e um isqueiro, o povo ia contigo, quebrava tudo, e ainda botava pra correr o segurança.

Mas essa segunda coisa, nessa cena, não vai acontecer.

Por que não temos coragem ou vontade? Não. Porque somos prisioneiros numa falsa democracia.

Entre a incerteza da luta e a garantia da vida, voltamos pra casa, pra chorar abafado, sozinhos, por nem ter o direito de botar pra fora tudo o que sentimos. Por isso quando o Flamengo marca um gol, gritamos tanto. Não é só pelo gol. Tem várias dores saindo ali.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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