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E se minha mãe estivesse viva nessa eleição?

Hanna Pereira

Hanna Pereira

É empreendedora, mobilizadora social, ativista política, consultora de campanhas eleitorais de baixo custo e facilitadora de grupos. Em 2016, com 26 anos, foi a mais jovem porta-voz de um partido político na Baixada Santista, litoral de São Paulo. Atualmente coordena o movimento suprapartidário Elas Na Política apoiando mulheres da região e do país no desenvolvimento de um planejamento de campanha que as permita competir com menos desigualdade. Além do universo político, facilita grupos de meditação, atua com terapias holísticas e fomenta o empreendedorismo feminino.

20/09/2020 04h00

Eu tinha 7 anos de idade quando foi regulamentada a cota de 30% de gênero na formação das chapas eleitorais por meio da Lei das Eleições 9504/1997.

Eu já sabia ler e escrever quando começaram a pensar que mais mulheres deveriam concorrer às eleições, mas não discernia por qual razão minha mãe não podia sair de casa para trabalhar, e escondia do meu pai suas pequenas revendas de chapeado — adereços folheados a prata ou ouro.

Moro na cidade de São Vicente, aquela que recebeu a primeira Câmara Municipal das Américas, inaugurada em 1532, onde somente "homens de bem", brancos e com posses podiam se colocar à disposição para representar a sociedade no parlamento. Nós, mulheres, sequer podíamos escolher quem seriam os eleitos.

Como vocês sabem, a partir do século 19, grandes movimentos de mulheres surgiram pelo mundo, e junto com várias lutas da classe operária, conduziram a garantia e a ampliação de importantes direitos sociais, econômicos e políticos. Um deles foi o direito da mulher poder votar e ser votada. Essa conquista histórica aconteceu em 1932, promulgada pelo governo Getúlio Vargas, após anos de enfrentamento, mas ainda não era para todas as mulheres. Mesmo assim, conseguimos. Agora, perceba o vácuo temporal de gênero na história política do nosso país. Foram 400 anos de participação negada, que significam 16 gerações de uma família, até que somente as mulheres casadas pudessem colocar seu voto na urna.

Nos últimos anos, a cota de gênero permitiu que fossemos mais procuradas para concorrer nas eleições. Quando isso aconteceu, levando em consideração a pirâmide de poder existente dentro de uma chapa, as primeiras posições que passamos a ocupar foram as últimas das torres, lugar designado aos - antigos - candidatos laranjas. Em média, até 2008, as candidaturas fraudulentas eram majoritariamente compostas por postulantes masculinos. Os partidos começaram a ser cobrados pela execução da lei e, num passe de mágica, as mulheres se tornaram as lanterninhas no ranking eleitoral.

Foram 16 gerações, culturas morreram e nasceram nesse período, e a arquitetura social continua disfarçando o cumprimento da lei.

Digo isto, pois, por mais que tenham sido ampliadas as regras eleitorais ou que já tenhamos precedentes para derrubar uma chapa inteira caso se constate o uso de candidatura laranja, ainda não é o suficiente para superar nosso olhar viciado em não ver mulheres em posições de poder, culturalmente consideradas masculinas. As pessoas que negociam os partidos, as posições dos conselhos que definem a distribuição da verba de campanha me parece que ainda são originários das caravelas de Martim Afonso de Souza.

Não tem como seguir em frente sem olhar para trás. Sem realmente ofertar uma reparação de danos que seja digna aos 52% da população que ficaram de fora das decisões políticas.

Estamos há sete dias do início do período obrigatório de campanha das eleições 2020 e o que mais vejo são instituições partidárias correndo para apresentar algum tipo de "formação" para suas pré-candidatas ou evento motivacional. Atividades que muitas vezes são custeadas com o humilhante 5% de verba do fundo partidário reservado a elas. No entanto, ações como estas, em plena pré-campanha, terão baixo retorno na vida política da maioria ali envolvida. Sabemos que alguns partidos caminham na margem da lei, ofertando o básico com recurso pífio. Outros, nem o básico entregam. Se aproveitam da falta de conhecimento político da sociedade para inserir candidatas, que não farão campanha, na chapa usando argumentos apelativos a emoção para que esta mulher se sinta "necessária" e se considere uma candidata. Na prática, é o rabo da chapa que lhe aguarda.

A mesma insegurança social, emocional e econômica que afastou minha mãe do mercado de trabalho por muito tempo, pois sua prioridade deveria ser cuidar das crianças, reverbera neste ano eleitoral. O fato dela ter conseguido terminar o segundo grau do ensino médio junto comigo, em 2007, não foi suficiente para ela alcançar espaços e oportunidades indispensáveis para se tornar cantora ou escritora como sonhava.

Assim como ela, as corajosas candidatas, em sua maioria de primeira ou segunda viagem, não estarão disputando com igualdade recebendo apenas um curso de formação básico, uma porção de adesivo e panfletos. São marcas de 400 anos de violência política situações como muitas não se sentirem capaz de representar uma cidade, não sentirem segurança de expor seu rosto na rede social ou falar para uma pessoa na rua que seu currículo e história são suficientes para sentar naquela cadeira. Qual curso repara a opressão que nos chega pelo olhar de cobrança das lideranças políticas - de carreira - que nos enxerga como aventureiras, para a concorrência com aquelas equipes bem pagas, e você de casa em casa, sozinha, tendo apenas o bom e velho santinho na mão? Pode se tornar uma linda história de superação depois de três ou quatro eleições. Todavia, romantizar essa labuta é fomentar o "status quo" que choraminga dizendo que mulher não gosta de política, mas se nega a olhar para trás.

A expectativa para 2020 é ter quase o triplo de candidatas nos municípios, impulsionadas pela mudança nas regras eleitorais, visto que cada sigla deverá compor chapa pura no proporcional. Mas também é esperado que mais mulheres sejam eleitas. E isso só se dará pela resistência feminina que vem ocorrendo, principalmente a partir de 2015, quando o mundo assistiu ao crescimento de pautas femininas sendo questionadas, discutidas e obtendo voz nas redes sociais. Com esse levante, ganhamos visibilidade e nos fizemos ouvidas. Diversas organizações e movimentos sociais hastearam a bandeira do "vote em mulheres" com afinco por cada canto deste país em 2018. De acordo com pesquisa desenvolvida em 2019 pelo movimento Elas Na Política, do qual faço parte, 97% das entrevistadas acredita que as pautas poderiam ser melhor avaliadas caso houvesse mais mulheres dentro dos governos.

Por conta da erupção social para que haja mais diversidade de gênero nos governos, os mesmos que negam sua responsabilidade em potencializar o avivamento feminino na política sabem o que seu público aguarda para esta eleição. Salvo exceção de cidades menos influenciadas pelas redes sociais, repare que os partidos políticos que realmente entrarem para disputar a cadeira mais importante de uma cidade terão uma mulher como candidata ou vice-candidata. Não precisa de muito raciocínio para fechar essa conta, e estes entendem bem de pesquisa de mercado para fazer o uso adequado do cenário eleitoral. Irão aproveitar a nossa onda para surfar com a estrutura que o sistema lhes oferece de bom grado há décadas.

Se passaram 23 anos e hoje percebo as condições que foram impostas para minha mãe. Por outro lado, ainda não vejo as instituições jurídicas, partidárias e governamentais garantirem a estrutura indispensável para ultrapassar as margens da cota de 30% nas chapas deste ano. E isso por um motivo que me parece claro: 30% para eles já parece demais. É como um remédio amargo que eles tomam por uma obrigação.

Para esta eleição, começaram mais cedo os assédios, propostas e tentativas de convencimento de possíveis postulantes na esperança de obter o mínimo de 6, 7 ou 8 mulheres e assim cortarem o menor número possível de nomes do gênero predominante - que, lamentavelmente, ainda será por muitos anos masculino.

Faça o teste.

Experimente perguntar para qualquer cidadão mediano, relativamente politizado, sobre a regra das cotas de gênero. Você terá como resposta que os partidos devem destinar ao menos 30% das candidaturas às mulheres, quando na realidade o que se exige é que os 30% sejam reservados a um gênero minoritário. Por inferência lógica, a sociedade ainda enxerga que esses 30% são nossos, pois parece inimaginável uma chapa composta por 70% de candidatas e "só" 30% de candidatos. Tal concepção revela o quanto ainda estamos longe de alcançar a igualdade material e a justa equivalência que deve existir nos espaços de poder e decisão.

Esse processo de composição das chapas partidárias, com equidade de gênero e legitimidade, ficaria mais acessível para todos os lados caso as instituições escolhessem reconhecer o impacto de dor deixado em anos de silenciamento ofertando minimamente educação política e enfrentamento à violência contra mulher a partir das bases da sociedade.

Devemos prosseguir incansavelmente em nossa luta. É improvável que veremos, em nossa geração, a correção de tantas distorções históricas. Mas que isso não nos impeça de acordar todos os dias e trabalhar para que isso aconteça.

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