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Quando estou na política, levo uma coletividade de povos para o poder

24.abr.2019 - Povos indígenas se reúnem em Brasília em defesa de seus direitos - Adriano Machado/Reuters
24.abr.2019 - Povos indígenas se reúnem em Brasília em defesa de seus direitos Imagem: Adriano Machado/Reuters
Chirley Pankará

Chirley Pankará

Educadora, codeputada (PSOL) e liderança indígena do povo Pankará.

09/08/2020 04h00

Devemos fazer uma análise do atual momento - é importante mencionar que em todos esses anos nada foi fácil para a gente nesse país. O desafio vem nos acompanhando desde 1500. Nunca foi fácil, mas agora estamos numa situação de desgoverno.

A nossa luta por demarcação de terras é recorrente. E nos últimos anos tem se tornado mais difícil por conta das próprias palavras de quem governa esse país, que tem prejudicado nós, povos indígenas, que lutamos pela legalização dos nossos territórios, onde a gente mantém saúde e educação específicas, além da memória dos nossos ancestrais.

Por isso, é muito infeliz precisar de um órgão governamental para dizer quais são nossas terras, mesmo sendo os primeiros a estar aqui, sendo os povos originários que já estavam aqui antes da chegada dos colonizadores. Mas não. Temos que estar o tempo inteiro lutando pra manter esse território, e cada dia vai piorando essa situação.

A intenção deles sempre foi ter o povos indígenas como tutelados. Agora que estamos nesses espaços, estamos na política, um lugar cheio de desafio que nunca foi aberto para povos indígenas. Estarmos na política hoje é uma afronta a eles. Já para nós, é a possibilidade de falarmos sobre nós mesmos. É ser a voz que representa tantas outras vozes que diariamente são silenciadas pelo Brasil.

É um espaço de resistência para que possamos garantir a nossa existência. É poder, como indígena, propor o que interessa e faz sentido a nós.

Nós somos povos indígenas de norte a sul desse país. Existe uma diversidade e cada povo passa por situações específicas. Especialmente em relação ao território. Eu sempre falo: para nós o primordial é o território. Eu sempre vou voltar nessas mesmas questões.

Ser uma indígena na política é lidar com os descasos, a negação do direito que conquistamos democraticamente de estar nesses espaços. As pessoas me perguntam: "Como é ser mulher indígena na política?", e eu respondo que é caminhar pelos corredores da Alesp usando um cocar e receber perguntas como: "Por que você está usando isso? É Dia do Índio?" em troca. Às vezes me perguntam se sou "descendente", para distanciar um pouco. Outras pessoas tentam nos deslegitimar. Falam: "Ah, tá com o celular? Deixou de ser indígena!". Como se um celular tirasse o sangue que corre nas nossas veias.

Mas é mais que isso. É não estar só também, mesmo sendo a única mulher indígena codeputada no estado de São Paulo. Isso porque não levo só o eu individual para lá. Eu levo uma coletividade de povos. Eu ouço os povos para que depois eu possa fazer um projeto de lei, por exemplo. Se nos negam direitos, eu vou ter que agir para que os direitos sejam cumpridos.

Tudo para nós é uma construção coletiva, porque esse negócio de trazer soluções já prontas e eu sozinha, na minha subjetividade, achar que vou contemplar uma diversidade não existe. Só em São Paulo, por exemplo, temos mais de 70 aldeias - somos o segundo maior estado com indígenas em contexto urbano.

Faz muito falta ter indígenas ocupando cargos políticos. Mas não vou dizer que ele é o espaço que eu gostaria de estar agora. Para ser sincera, eu me sinto bem de verdade quando estou com meu povo, quando posso bater meu maracá. Queria poder passar os dias no nosso cantinho, olhando as árvores dançar. Eu tô a fim mesmo é de pisar na minha terra. Mas se faz necessário estar na política.

Necessário para que a gente possa fazer as políticas públicas para nós mesmos, por isso é importante vir mais pessoas para contribuir. Eu sei que é difícil pensar que o Estado nos nega tanto, nos oprime tanto, e agora eu estou lá dentro do Estado.

Anteriormente nós já tivemos o deputado federal Mário Juruna (PDT), que foi uma das nossas referências, na década de 80. No Rio de Janeiro hoje nós temos a Joênia Wapixana (Rede) como deputada federal e eu em em São Paulo como codeputada (PSOL). Falo que entrar na política foi necessário porque nós somos a esperança de trabalhos bem feitos juntos a nossos povos. Muitos falam que a gente vai se tornando referência, eu particularmente nem gosto dessa palavra porque dá a impressão que estou a cima de alguém, quando, na verdade, para nós o fundamental é que possamos andar juntos.

A gente não anda atrás nem à frente, andamos ao lado. Somos ensinados a isso.

Minha meta é tentar trazer a nossa luta das comunidades dentro das aldeias e contexto urbano com a efetivação de políticas públicas em defesa dos direitos dos povos indígenas. A luta que se faz dentro da política tem que estar diretamente conectada com a que se faz dentro da nossa coletividade com nossos povos. Na verdade, a política precisa é atender o que se diz dentro de nossas aldeias. Elas são nossas guias.

Eu não sonhei com um tipo de política que quer falar de periferia, sem ouvir periferia, por exemplo. É a mesma coisa com povos indígenas. Eu não vou lá conversar só em período eleitoral. Não é isso. É sentar no chão, ficar junto com as pessoas, entender qual a realidade. Se eu não trouxer essas vozes, se eu não ouvir as pessoas, estar como deputada não me adiantaria nada. Se for para silenciar vozes, esse espaço não me contempla.

E quero dizer que nada disso que trago para o campo político em relação a minha cultura me faz inferior para pensar em política públicas. Pelo contrário, eu só penso em políticas públicas por causa dos ensinamentos que tive e ainda tenho como indígena.

A política precisa consultar os povos indígenas, com as nossas necessidades, ouvir mais velhos, os jovens, as crianças que nos trazem coisas importantíssimas que devem ser consideradas em todos os espaços. Eu falo que tem a ciência comprovada em laboratório que é extremamente necessária, mas a ciência tradicional, a cosmologia indígena também não pode ser minimizada. Uma coisa não está desligada da outra, no meu caso. A Alesp é o corpo burocratizado, mas eu levo pra lá todos esses saberes que precisam ser respeitados, já que somos um país que se diz democrático.

Antigamente não precisávamos disso, era nossa política tradicional de base, mas agora estar nesse campo público se mostra necessário. Tudo por conta da colonização. Não procuramos isso.

Como eu disse, queríamos ficar no nosso canto. Não nos deram essa opção.

E não quero que meus pares desanimem quando falo que a política é lugar difícil. Lembrem-se: nós sempre fomos fortes e resistimos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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