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Você soube da Brunna Valin?

Aline Rodrigues

Aline Rodrigues

Mulher cis, moradora do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, jornalista co-fundadora da produtora independente de jornalismo de quebrada Periferia em Movimento, educomunicadora e intérprete de Libras. Representa a produtora na comissão organizadora do Prêmio Vladimir Herzog e no Fórum Permanente de Debate e Reflexão Sobre o Sistema Penitenciário e Carcerário.

10/06/2020 04h00

Na última segunda-feira já era noite quando recebi de um amigo uma arte do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo com a nota de pesar do falecimento de Brunna Valin. Fui direto no Google para buscar mais informações, ainda meio sem acreditar, pois tinha e sigo tendo um grande afeto por ela. Mas foi gigante a minha surpresa. Quase do mesmo tamanho da profunda reflexão que estou até agora. Vi uma matéria minha, publicada em 2014, sobre quem era a Brunna Valin. Até aí, sempre fiquei feliz por ver textos meus e do jornalismo que faço pela Periferia em Movimento, mas a questão é que a matéria estava na primeira página de resultados da minha busca feita com nome e sobrenome só: "Brunna Valin".

Como pode uma matéria de 2014 estar na primeira página de resultados do Google, sendo Brunna uma pessoa tão presente e importante em diferentes lutas? Porque não se falou mais sobre Brunna em todo esse período?

Para quem não sabe, Brunna é muito reconhecida nas lutas da população LGBTQI+, mas também por atuar pela melhor qualidade de vida de pessoas que vivem com HIV/Aids e na prevenção também. Ela era integrante do Comitê Consultivo para Políticas de Prevenção para Mulheres Transexuais e Travestis do Programa Municipal de DST/Aids e fazia parte do grupo de articuladoras de prevenção no município, era diretora do Fórum das ONG/Aids do Estado de São Paulo, colaborava no Grupo Pela Vidda/SP e era orientadora socioeducativa no Centro de Referência da Diversidade (CRD), onde eu a conheci e pude voltar em outras conversas que fizemos. Falamos também por algumas vezes pelas redes sociais. Mas como ela mesma me disse em 2014 e seguiu dizendo em diferentes oportunidades que teve de entrevistas e em seu próprio perfil no Facebook, não queria ser lembrada apenas por sua militância ou por ser uma mulher trans ou por viver com HIV, mas por ser Brunna simplesmente.

Nesta primeira entrevista que fiz com ela e que durou umas duas horas de prosa, ela me contou de uma vontade que tinha, inclusive, que era ser entrevistada como dona de casa, para dizer o que achava do aumento do preço dos alimentos, ela deu como exemplo. E desejava o mesmo para outras mulheres transexuais como ela. Que pudessem ser fontes em matérias e reportagens que falasse de assuntos do cotidiano em geral e não só quando tinha de pano de fundo do conteúdo, o ser uma pessoa trans.

Eu, como jornalista, aprendi muito com Brunna Valin sobre a importância da representatividade nas mídias e agora ao procurar mais sobre seu falecimento vejo que ainda temos uma longa caminhada pela frente para garantirmos a equidade nas representações

Vi que antes da Periferia em Movimento, produtora independente de jornalismo de quebrada a qual faço parte e onde publiquei a matéria de 2014, tinham principalmente sites relacionados a militância de Brunna noticiando: aids.gov.br, agenciaaids.com.br, guiagaysaopaulo.com.br e paradasp.org.br. Houve outra mídia que noticiou seu obituário, mas infelizmente quem escreveu o texto não aprendeu com Brunna que não é respeitoso citar o nome dado no primeiro registro, ao nascer. Menos respeitoso ainda é dar mais evidência a esse nome do que a trajetória de Brunna, falar sobre ela depois que se fortaleceu a ponto de reconhecer quem sempre foi.

Há seis anos, até semana passada, acompanhei seus passos e pude falar mais de uma vez para ela que nossa conversa lá atrás me atravessou em vários sentidos, e quero contar muito mais dela para além do que eu já tinha publicado e estou publicando agora.

Brunna fez com que sua luta, antes só pessoal, se tornasse força para uma luta coletiva por direitos, respeito, acolhimento, reconhecimento da existência, visibilidade

Até a segunda quinzena de maio, ela estava animada postando vídeos sobre a aula de confecção de máscaras que desenvolveria como oficineira de moda, costura e customização do CRD. Antes, Brunna já tinha feito várias máscaras para doação no local de trabalho, dando também sua contribuição neste momento de pandemia que estamos.

Ela deixou várias outras contribuições onde atuou, com sua militância, e também em seu ciclo de amizades. Agradeço publicamente Brunna Valin por sua existência e resistência que fortaleceu outras tantas. Guardarei com carinho os momentos que pudemos conversar. Você também me fortaleceu. Muito afeto por você! Saibam de Brunna Valin.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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