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Natureza, pessoas e biodiversidade: precisamos discutir a relação

Planta no Parque Estadual de Terra Ronca, em Goiás - João Medeiros/Flickr
Planta no Parque Estadual de Terra Ronca, em Goiás Imagem: João Medeiros/Flickr
Cristiane Mazzetti e Marina Lacôrte

sobre os colunistas

Cristiane Mazzetti

Gestora ambiental e mestre em meio ambiente e desenvolvimento pela London School of Economics and Political Science (LSE). Profissional e ativista da área ambiental, trabalha com questões relacionadas ao desmatamento e uso do solo, especificamente nas áreas de campanhas, advocacy e engajamento de diversos atores.

Marina Lacôrte

Engenheira agrônoma e mestre em ecologia aplicada. Ativista da área abiental, atualmente é coordenadora da campanha de agricultura e alimentação do Greenpeace.

22/05/2020 16h26

Hoje é celebrado o Dia Internacional da Diversidade Biológica. A data é um "lembrete" instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) para alertar sobre a importância de proteger nossa biodiversidade. Ironicamente, nossos problemas também estão nela quando a perturbamos ou fazemos escolhas erradas.

Existe todo um equilíbrio proporcionado pela interação entre biodiversidade e ambiente que nos traz qualidade de vida. Um ambiente em equilíbrio evita a proliferação de doenças zoonóticas e uma floresta conservada pode levar à cura de doenças através de sua biodiversidade. No entanto, nós colocamos diariamente esse equilíbrio e benefícios em risco. Desmatamento, perda de biodiversidade e pandemias são sintomas graves de que algo está muito errado em relação a forma que vivemos, e são consequência dos nossos sistemas produtivos, alimentar, socioeconômico e por aí vai.

Sim, ao agredir a natureza dessa maneira contribuímos para o aparecimento de novas pandemias como a que estamos vivendo neste triste momento da nossa sociedade. Segundo relatório da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, desde 1940, 30% das doenças de origem zoonóticas que surgiram, aquelas que passam de animais para humanos, tiveram como fator principal a mudança do uso da terra, isso significa que a paisagem foi perturbada e perdeu seu equilíbrio.

Circunstâncias como esta da pandemia levam a um efeito cascata, agravando outros fenômenos decorrentes do nosso modo de viver como a fome, o aquecimento global, as crises econômicas e o aumento ainda maior das desigualdades sociais que já não são pequenas. Absolutamente tudo isto está lastreado no mal uso que damos aos nossos recursos e sua má distribuição. A pandemia do novo coronavírus tem escancarado esse fato diariamente e reforçado a necessidade e a urgência de fazermos melhores escolhas. Escolhas inteligentes e que atendam a toda a humanidade e suas gerações futuras.

A exemplo, no mundo, 820 milhões de pessoas ainda passam fome, enquanto a obesidade e o sobrepeso atingem cerca de 1.9 bilhões de pessoas de acordo com a ONU. Isso é fruto de uma escolha por um modelo alimentar industrial problemático e nocivo e no Brasil não é diferente, aliás, aqui ele reina e, cada vez mais, cresce às custas do meio ambiente e das pessoas.

A forma de produzir do agronegócio avança ostensivamente sobre nossas florestas, viola direitos de povos indígenas, comunidades rurais e tradicionais, concentra terra e renda nas mãos de poucos contribuindo ainda mais para a tão assustadora desigualdade no Brasil, não permite que alimentação saudável seja um direito de todos e utiliza quantidades descomunais de agrotóxicos. Essa utilização exorbitante de pesticidas, inclusive proibidos em outros países por sua conhecida nocividade, reduz a vida do lugar ao máximo, matando diversos polinizadores e impactando a existência da própria floresta, das plantas, ou seja, também das colheitas e do nosso alimento.

Algo que dificulta enormemente o movimento para escolhas melhores e mudanças no nosso caminho é que esse setor é representado e defendido por atores que dominam o cenário político brasileiro. Como uma herança do colonialismo, coronelismo e tantos "ismos" que nos remetem em como o Brasil começou, no formato de capitanias hereditárias. Esses atores atualmente são o governo, e unidos aos seus aliados fazem valer com facilidade muitos dos seus interesses que atendem, porém, apenas uma pequena parcela da população.

Exemplo bem recente desta influência e poder sobre essas escolhas, é a grave tentativa de anistiar a grilagem de terras que incide no congresso. Primeiro por meio da Medida Provisória (910/20) e, agora, com o Projeto de Lei (2633/20), que premia ainda mais o desmatamento e a destruição da biodiversidade. Em meio à uma crise do tamanho como a que vivemos, projetos como estes têm sido impelidos como algo urgente pelo congresso ou pelo próprio executivo. Ou seja, toda essa destruição é garantida e amparada pelo atual governo que a cada dia flexibiliza a legislação e enfraquece suas estruturas de proteção, e também por empresas e setores que se nutrem e se aproveitam dessas falhas, neste caso com a adição de terras públicas, de todos nós, ao mercado.

O resultado desse modelo, somado ao afrouxamento da governança pode ser visto nos números recentes do desmatamento, que só em 2019 aumentou 30% na Amazônia. Em 2020, ao que tudo indica, esse número vai ser ainda maior. Somente entre agosto de 2019 e abril de 2020, dados do governo mostraram um aumento de 99% na área com alertas, em comparação a área registrada para o mesmo período no ano anterior.

Uma biodiversidade forte e protegida só traz benefícios ao planeta e a nós, seres humanos. As florestas são um verdadeiro armazém de matérias primas para remédios. A Amazônia abriga cerca de 40.000 espécies de plantas e é um crime contra a humanidade deixá-la refém de um sistema que a destrói diariamente. Por isso, nesse dia da biodiversidade, vale lembrar que precisamos agir rápido para evitar desequilíbrios e, de fato, buscar as soluções que a natureza nos oferece. Estamos perdendo espécies por conta das ações humanas. Segundo artigo publicado na Science em 2014, a taxa de extinção está mil vezes mais alta do que o natural, e atualmente, 1 milhão de espécies estão em vias de desaparecer, segundo o IPBES (Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade).

Escolhas cruciais se fazem necessárias neste momento. Começando por criar mais áreas protegidas e proteger com veemência as que já existem, e fomentar sistemas produtivos mais harmoniosos com a natureza. Sistemas que são possíveis e já existem, a exemplo da agroecologia e o extrativismo praticado por povos da floresta, que mantém os ecossistemas conservados. Desencorajar a destruição do meio ambiente e modelos produtivos que direta ou indiretamente ameacem as florestas, nossa saúde e nossa sobrevivência. Esses são passos urgentes que precisamos dar em direção a um futuro que seja de fato sustentável.

Cabe agora a sociedade, como um todo, escolher entre o caminho do equilíbrio, das florestas e da biodiversidade, ou o caminho da destruição, das mudanças climáticas e das pandemias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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