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Quem tem c* tem gênero?

Marina Mathey é performer e "travesty" - Arquivo Pessoal
Marina Mathey é performer e 'travesty' Imagem: Arquivo Pessoal

Marina Mathey

29/01/2020 04h00

A cisgeneridade precisa se perceber

Hoje não vou repetir mais uma vez qual a posição do Brasil no ranking de mortes de pessoas trans ou de consumo de pornografia com essas corpas presentes. Também não vou falar sobre a baixíssima expectativa de vida dessa população no país. Insisto em não entrar em detalhes sobre o índice altíssimo de evasão (sic) escolar - que me dou o direito de substituir "evasão" por expulsão - ou das casas dos próprios familiares por conta da extrema violência produzida pelas pessoas cisgêneras para com a população transvestigênere pelo simples fato de sermos quem somos.

Não, não vou falar sobre isso mais uma vez. Hoje preciso me ater à cisgeneridade, esse povo tão pouco falado e que tão pouco se conhece. Portanto lhe faço uma pergunta: você sabe o que é uma pessoa cis? Pois se não sabe, provavelmente você é.

Foram as pessoas cisgêneras que nos apontaram o dedo e continuam apontando dizendo "você é trans" - vocês nos nomearam.

Foram as pessoas cisgêneras que fizeram e insistem em fazer pesquisas sobre a população trans para saber (sic.) quem somos, como vivemos e o que nos faz ser assim - diferentes de vocês.

Foram as pessoas cisgêneras - e majoritariamente as brancas - que sem nem mesmo saberem quem são e apenas por portarem a maior parte do capital, dos meios de produção e, portanto, o poder de mando na nossa sociedade capitalista, ousaram nos fetichizar, zoologizar, marginalizar e cultivar a população transvestigênere na miséria e na subserviência.

E se você por acaso está pensando que esse texto tem o intuito de te atacar, de alguma forma, peço que reflita um pouco mais e perceba que não digo nada menos do que o que a realidade apresenta.

Desde antes de ume bebê nascer já existe nos seus progenitores cis uma preocupação compulsiva de descobrir se o feto tem pênis ou vagina, dado que isso supostamente determinaria se elu será homem ou mulher, reduzindo sua identidade de gênero à sua genitália - grande engano.

Essa descoberta delimitaria, então, as cores que lhe são permitidas usar, quais brincadeiras podem jogar, como sua sexualidade deve se manifestar - impostamente heterocentrada - até mesmo como seu futuro profissional se dará, e muito mais. Porém, sinto lhes dizer que esse padrão de fabricação animal não condiz com a totalidade dos corpos e sujeitos da nossa sociedade, e mais, a própria cisgeneridade tem mostrado em suas práticas o quanto ela não sustenta a si própria e não se percebe enquanto construção cultural e política.

Vemos diariamente homens e mulheres cis infelizes e buscando alcançar estereótipos do que se espera de um homem ou de uma mulher na sociedade - corpo ideal, estrutura familiar, subjetividades e até mesmo seus focos de consumo - sem sucesso, mas com uma insistência perigosa para si e para o mundo. Uma cis-ciedade narcísica e tão adoecida em seus conceitos que mesmo quando olha para nós, pessoas trans, busca se ver no espelho, tentando capturar qualquer possibilidade de tornar a nos enquadrar em sua lógica binária - homem/mulher. Mas nós não pertencemos a essa lógica, por mais que esteticamente nos aproximemos de alguma forma.

Dado que as pessoas cis se impõem enquanto norma, tudo que foge a esse padrão está supostamente relacionado a ele, seja pela semelhança ou pela negação. Porém, uma das belezas de ser uma corpa marginalizada é que, por precisar romper com a ideologia de gênero imposta - porque sim, se existe uma ideologia de gênero concretamente em ação e que atua com propósitos de controle comportamental é a ideologia cis-binária, operante há alguns séculos na nossa sociedade - passamos a compreendê-la muito mais do que as próprias pessoas cisgêneras, ainda embriagadas de seus privilégios e portanto longe de conhecerem a si mesmas.

Precisamos, para sermos quem somos, diariamente e sem descanso, perceber como a cisnorma opera no mundo e em nós mesmes para conseguir pouco a pouco compreendermos quem somos de fato, exatamente por conta dessa contaminação cultural que nos assola desde antes do nascimento. E é por esse rompimento que quando nós trans alcançamos espaços de poder, de voz, somos automaticamente deslegitimades, tides como violentes e passamos a ter nossos dizeres considerados como uma imposição, uma ideologia, porque expomos a fragilidade do ser cis e, obviamente, quem não se constrói em terreno sólido tende a cair muito fácil quando o vento sopra.

Nós estamos fazendo nosso trabalho arduamente, cavando espaços onde não tem, estudando o mundo a partir do impossível, e vocês que possuem tantos caminhos abertos vivem a nos procurar para saber melhor "como é ser trans", como se fôssemos alienígenas no planeta dos cis. Que audácia! "Conhece-te a ti mesmo", já disse Sócrates há muitos e muitos anos atrás, porque esse trabalho não poderá ser feito por nós.

Espero que de alguma forma, para que as pessoas cis comecem a parar de se reivindicar enquanto norma, enquanto o normal, e nos apontar como o/a/e outro/outra/outre, anormal, diferente, pesquisem sobre si mesmos, se conheçam, entendam o que é ser cis na sociedade e que vocês, assim como nós, também assumem identidades de gênero, também fazem parte dessa discussão e precisam urgentemente agirem sobre si mesmos. Não precisar se conhecer é um privilégio que só vocês pessoas cis - e brancas - possuem, então trabalhem, mas trabalhem muito, porque essa alienação conveniente é de uma violência absurda, e mais uma vez quem sofre com ela não são vocês, não é mesmo?!

*Marina Mathey é performer e travesty. Transita artisticamente pelas linguagens da dança, música, performance, teatro e cinema, dando vazão a suas inquietações e percepções enquanto ser inadequado no mundo.

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