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Quanta mudança cabe em uma doação?

Nina Valentini é presidente do Movimento Arredondar  - Na Lata
Nina Valentini é presidente do Movimento Arredondar Imagem: Na Lata

Nina Valentini*

03/12/2019 09h57

Quando eu tinha 14 anos, fiz uma daquelas viagens que ficam marcadas na memória para sempre. Conheci pela primeira vez o trabalho de um empreendedor social. Lá no norte de Minas Gerais, vi uma cidade que enfrentava muitas dificuldades se transformando, graças a um projeto gratuito voltado para a educação de crianças e jovens com base nos saberes populares. Naquele momento, a vontade de participar de algo parecido, me envolver mais, me impediu de fazer questionamentos importantes: como eles conseguiam oferecer aquela estrutura? Como pagavam os educadores? De onde vinha o dinheiro que possibilitava tudo aquilo acontecer?

Mais tarde, todas essas perguntas voltaram à tona. Trabalhando no terceiro setor, descobri um universo de organizações sociais e ambientais (ou o que conhecemos como ONGs) desenvolvendo trabalhos incríveis em diversas áreas. Percebi duas coisas em comum entre elas: primeiro, a vontade de fazer a diferença, com paixão, com dedicação, com comprometimento; e depois, a dificuldade para conseguir recursos suficientes para se sustentarem.

Muitas iniciativas como a que eu conheci no norte de Minas Gerais só sobrevivem, em grande parte, por causa da cultura de doação. É através de recursos doados que essas organizações conseguem comprar material para as aulas, pagar contas de energia elétrica do local onde funcionam, ajudar o deslocamento das pessoas atendidas, custear o salário das pessoas que trabalham todos os dias para manter as portas abertas à comunidade.

A doação representa mais do que um ato de solidariedade. Quando pessoas e empresas doam, abraçam a vontade de mudar realidades. Quando doam, consciente ou inconscientemente, elas decidem ser corresponsáveis pela mudança que desejam para o país, apoiando o desenvolvimento de comunidades, ajudando a promover oportunidades e formação, ampliando programas de assistência a grupos em vulnerabilidade.

As organizações sociais estão tentando resolver problemas graves e urgentes no Brasil. Elas cobram de governos e empresas condutas mais responsáveis, fiscalizam e propõem políticas públicas, criam soluções inovadoras para os problemas locais, trabalham por melhorias, garantias de direitos e igualdade de oportunidades. Por isso, doar é também garantir a existência de uma sociedade civil articulada, presente e democrática. Doar é também um ato político.

O Brasil é um país solidário. A cada dez pessoas, sete já fizeram alguma doação nos últimos 12 meses. Mas doar ainda não é um hábito recorrente. Quando comparado com outros países, o Índice Global de Solidariedade (WGI - World Giving Index) realizado pelo CAF - Charities Aid Foundation mostra que o hábito de contribuição dos brasileiros tem diminuído. O país que ocupou a 76º posição em 2016, apareceu em 2018 no 122º lugar de um ranking com 146 países, sendo o que menos contribui na América Latina.

Mas por que as pessoas não doam mais? Segundo essa mesma pesquisa, 57% declaram que doariam mais se tivessem mais dinheiro e 46% doariam mais se soubesse com certeza como o dinheiro é gasto. O que mostra que as pessoas querem doar. E podem não conhecer os meios para tornar essa experiência possível. Muita gente quer se envolver com projetos sociais, mas não sabe como começar, onde obter informações sobre as ONGs e sobre o que elas fazem, ou como acompanhar os resultados.

A boa notícia é que existem diversas Iniciativas que tornam a doação acessível e próxima das pessoas. O Movimento Arredondar é uma delas. Surgiu em 2011 com uma proposta de transformar o troco (e os centavinhos que faltam no final das compras) em microdoações de até R$ 1 real, de forma simples e direta. O comprovante da doação apresenta o site onde é possível conhecer todas as organizações apoiadas e acompanhar como esses recursos são distribuídos. De centavo em centavo, mobilizamos 19 milhões de atos de doação, arrecadando 4 milhões de reais que foram distribuídos para mais de 50 organizações sociais. Este é só um exemplo das muitas formas de apoiar e fortalecer as organizações. Existem muitas outras, como sites de crowdfunding, plataformas de doação recorrente, entre outros.

Hoje, dia 3 de dezembro, o Brasil é um dos 55 países do mundo que adotaram o Dia de Doar para estimular mais generosidade, mais atitudes de apoio aos trabalhos que geram impacto social. Nesse dia tão inspirador, eu quero deixar um convite especial: descubra uma causa que você se identifique, conheça de perto o trabalho de uma ONG, permita-se conectar e fazer parte desse potente movimento de transformação. E depois, colabore. Doe dinheiro, doe objetos que não usa mais, doe tempo para uma experiência como passar o dia em um lar de idosos, doe experiência como voluntário.

Por último, compartilhe sua experiência com amigos, familiares - vamos trazer o tema da doação e da transformação que queremos para a mesa do almoço, pro cafezinho, e pro bate papo com o colega de trabalho. Juntos, conseguiremos construir um caminho de mais igualdade, justiça e solidariedade.

Nina Valentini é presidente do Movimento Arredondar, a primeira iniciativa brasileira focada em microdoações por meio do varejo para organizações sociais. É graduada em administração pública e interessada na temática de mobilização de pessoas para causas. Nina teve diferentes experiências na área social antes do Arredondar - trabalhando na ponta com projetos de impacto, como voluntária desde os 14 anos e, mais tarde, com geração de renda (Aliança Empreendedora), consultoria estratégica e mobilização de recursos. É também co-produtora do documentário "Um Novo Capitalismo", que mostra a emergência dos negócios sociais pelo mundo. Em 2016, ganhou o prêmio Empreendedora Social de Futuro da Folha de S.Paulo. Em 2017, junto com o fundador do Arredondar, Ari Weinfeld, ganhou o prêmio Trip Transformadores.

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