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Não podemos abrir mão de bons professores

Priscila Cruz - Todos Pela Educação
Priscila Cruz Imagem: Todos Pela Educação

Priscila Cruz

Presidente-executiva e cofundadora do Todos Pela Educação

06/11/2019 04h00

Nos anos 1990 eu participava de um projeto de voluntariado de reforço escolar no Jardim Varginha, zona sul de São Paulo, ajudando crianças com a matemática. Era procurada por alunos com defasagens acumuladas ao longo de vários anos. Quase sem que eu percebesse, entrou na roda de aula um menino. Ele se sentou, olhou para os lados, olhou pra mim e disse: "Tia, eu não nasci pra isso, nunca vou aprender matemática" e foi embora, sem que eu soubesse seu nome, a escola onde estudava ou onde morava. Fiquei paralisada com a situação, e o menino saiu da minha vista. Mas não da minha vida: ficou instalado onde nasceu a indignação: como permitimos que crianças brasileiras acreditem que aprender é para alguns, mas não para todos... Não para elas?

Não são normais os baixos índices de aprendizagem e não deveríamos nos acostumar a eles. Quando deixamos de nos indignar com a injustiça e com a desigualdade, perdemos a motivação de lutar, de perseguir as soluções.

E há muito ainda a ser feito para além de garantir o acesso à escola. O descaso com a qualidade da Educação precisa ser combatido com a implementação de uma agenda urgente de mudanças - no centro da qual devem estar as políticas de formação e valorização da carreira docente.

Não porque os professores são os responsáveis por tudo, mas porque eles têm um papel fundamental que não pode ser substituído por nenhuma pirotecnia: são o principal garantidor da aprendizagem e precisam ser reconhecidos e tratados como tal.

As políticas docentes mais urgentes podem ser organizadas nas seguintes dimensões: atratividade, formação inicial (no ensino superior), formação em serviço (nas escolas), carreira e condições de trabalho. Infelizmente, e com consequências muito ruins para cada pessoa e para o país, estamos muito mal em todas elas - o que explica grande parte do nosso fracasso educacional.

A profissão é pouco atrativa para a maioria dos alunos de melhor desempenho no Ensino Médio, que têm em outras áreas melhores perspectivas de satisfação profissional; a formação inicial tem currículos que não respondem aos desafios da sala de aula, com baixa carga prática; a progressão na carreira é desatrelada do desenvolvimento profissional, deixando de impulsionar a melhora e reconhecer as competências dos professores para ensinar e o impacto na aprendizagem dos alunos; as condições de trabalho são insatisfatórias, afastam profissionais da sala de aula e geram até o adoecimento dos que permanecem.

Estamos fazendo tudo ao contrário. Enquanto governo e sociedade, por reconhecer que o contexto é desfavorável aos professores, não cobramos melhores resultados. Estamos abrindo mão dos ótimos professores que estão em serviço e de ter ótimos professores entrando nas escolas por não levarmos a sério a carreira docente e cometermos o erro, ano após ano, de nivelar muito baixo nossos esforços e expectativas em relação aos principais profissionais do país. Isso custa muito caro ao Brasil - custa o nosso futuro como nação e o de milhares de crianças e jovens. Inverter essa lógica é urgente: acertar as políticas públicas de apoio à melhor docência e cobrar mais resultados.

Um exemplo de como o País tem banalizado a formação docente é o aumento desproporcional da Educação a distância nos cursos de Pedagogia e Licenciatura. Segundo levantamento do Todos Pela Educação, o total de ingressantes nesses cursos na modalidade EAD vem aumentando consideravelmente desde 2017 e já ultrapassa o número de alunos em cursos presenciais. Atualmente, são 64% os ingressantes nesse formato, percentual que era de 34% em 2010. Nas graduações de outras áreas, essa parcela é bem menor: 27%.

Só na rede privada, que é, em geral, responsável por formar 70% dos professores, o crescimento da EAD foi de 215%. Além disso, esse aumento foi impulsionado pelo próprio governo: o percentual de financiamentos do Programa Universidade para Todos (ProUni) concedidos para ingressantes desses cursos aumentou 368% entre 2013 e 2018. Atualmente, 67% dos financiamentos via ProUni para ingressantes em cursos voltados à docência são na modalidade EAD.

Sem uma base curricular robusta que dê parâmetros mais tangíveis para avaliação dos cursos e com uma regulação insatisfatória sobre o que está sendo ofertado, a expansão dos cursos de Pedagogia e Licenciatura na modalidade EAD parece um trem desgovernado.

Logo, a formação docente, que deveria estar entre as de maior rigor, tem sido posta cada vez mais à margem de critérios de excelência e qualidade. De cada dez ingressantes em cursos de formação docente via ProUni, quatro estão em cursos considerados de baixa qualidade, com notas 1 a 3 no Conceito Preliminar de Curso (CPC), indicador do MEC que busca ranquear entre notas 1 a 5 os cursos de Ensino Superior.

A literatura educacional e as experiências de sucesso observadas em países com bons indicadores no PISA mostram a importância de uma formação docente alicerçada não só em bons conhecimentos teóricos, mas também na prática de sala de aula - fator que é apontado por diversas pesquisas nacionais como a principal falha nos cursos atuais. E essa expressiva expansão da EAD na formação docente aprofunda esse desafio e não vai na direção de solucioná-lo.

Esses dados deveriam, portanto, subsidiar uma discussão séria a respeito do profissional que esperamos que nossos professores sejam, e do modelo de formação que o País tem adotado. Fica evidente a necessidade de que o Governo Federal revise as políticas de formação docente no Ensino Superior brasileiro, de forma a garantir que ele prepare melhor os professores para a sala de aula.

Se o Ministério da Educação quiser honrar o compromisso com a Educação Básica, a estratégia mais potente que está em suas mãos é a regulação mais rigorosa dos cursos de pedagogia e licenciaturas, ancorada em parâmetros mais altos de qualidade e de articulação com a prática docente, o contrário de declarações recentes do Ministro Abraham Weintraub. O maior desafio do MEC é parar esse trem desgovernado e mudar a sua direção, urgentemente.

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