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Noah Scheffel

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Existe espaço para o autismo no mercado de trabalho?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Noah Scheffel

Noah é homem trans, mãe de uma filha, e pai de outra. É fundador do EducaTRANSforma, maior agente nacional de capacitação gratuita e de consultoria em empregabilidade para pessoas transgênero em tecnologia. Iniciou carreira na área de TI muito jovem e atuou por mais de 15 anos como coordenador de tecnologia, buscando inovação por meio da diversidade e desenvolvendo produtos e serviços representativos para a sociedade, criados por todas as pessoas. Atualmente é head de diversidade e inclusão em uma empresa de investimentos. Trabalha diariamente para fomentar o senso de pertencimento de todos os recortes sociais e suas interseccionalidades. Mas foi em casa que ganhou seu maior prêmio ao ouvir da filha de 7 anos: "Mãe, tenho muito orgulho de ti por causa de quem tu é pro mundo."

04/04/2022 06h00

Dia 2 de abril é o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, e o mês todo é considerado como marco de reflexão sobre as discriminações e preconceitos que pessoas com este diagnóstico precisam enfrentar o ano inteiro.

Conforme dados do CDC (Center of Diseases Control and Prevention), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, existe 1 caso de autismo a cada 110 pessoas. Com essa proporção, a estimativa é que o nosso país possua cerca de 2 milhões de autistas.

Com quantos destes 2 milhões você trabalha?

As barreiras para a entrada de pessoas autistas no mercado de trabalho são muitas. Começa no preconceito do estereótipo reforçado por anos de como é ou deixa de ser uma pessoa com tal diagnóstico, e termina já na tentativa de inclusão de cada uma destas pessoas em processos seletivos extremamente excludentes.

Sejamos realistas: os processos robotizados de recrutamento e seleção têm sido ótimos para que exista agilidade na contratação de profissionais. Porém, de quais profissionais estamos falando aqui? Quando falamos em pessoas neuroatípicas, como pessoas autistas, TDAH ou disléxicas, não estamos considerando a acessibilidade necessária que torne o processo inclusivo.

Diferentemente do autismo, algumas destas condições não são consideradas deficiência, portanto não há sequer uma política pública de inclusão de pessoas neuroatípicas no geral que faça com que as organizações precisem adequar seus processos. E se formos considerar todas essas condições, de quantos milhões de pessoas será que estamos falando, que ficam de fora do mercado de trabalho por conta do preconceito?

A diferença da forma de pensar e raciocinar das pessoas autistas, disléxicas, ou TDAH não se encaixa nesses testes automatizados que se tornaram prática na grande maioria dos processos seletivos - não porque as pessoas não são capazes, mas sim porque tais processos foram desenvolvidos considerando apenas as formas de pensar e raciocinar de pessoas típicas. Ou seja, aquelas que não possuem nenhuma dessas condições que mencionei.

Por isso digo que a oportunidade de inclusão de pessoas autistas no mercado de trabalho já terminou antes de começar. Esses testes buscam por "competências" a partir de conceitos muito limitados do que é a comunicação, do que é a socialização, do que é uma boa linha de raciocínio. E formas que pensem diferente das delimitações desses conceitos são excluídas automaticamente das oportunidades.

Existem diferentes formas de trabalho em equipe, diferentes formas de raciocínio, diferentes formas de comunicação. Mas a sociedade espera de todas as pessoas que nessas competências exista um padrão. E esse é o padrão de pessoas que não são autistas, que não são disléxicas, e que não são TDAH. Porém as pessoas que estão fora deste padrão possuem essas e tantas outras competências, demonstradas de outras formas, ou que, de outra maneira, também as tornam aptas e capazes para o trabalho.

Quando montamos um processo seletivo com a ausência de qualquer marcador social, as particularidades que esse marcador carrega passa a ser o fator excludente para as pessoas que fazem parte dele. Isso acontece justamente porque não estamos trazendo todas as pessoas para repensar como os processos seletivos podem ser acessíveis a todas elas, e sim contratando ferramentas que partem de um pressuposto de que existe uma única maneira correta de demonstrar ou exercer qualquer competência necessária para um trabalho bem executado. Os processos seletivos são desenhados por e para pessoas típicas. E as ferramentas que são usadas para agilizar o processo de contratação também.

Um processo seletivo inclusivo para pessoas neuroatípicas jamais deveria se utilizar desses balizadores ferramentais que foram pensados apenas no funcionamento do cérebro de uma pessoa não autista, de uma pessoa não disléxica, ou de uma pessoa não TDAH. Mas você já viu atualmente um processo assim?

A tecnologia tem um poder muito grande de potencializar a diversidade, mas ela está sendo usada de forma contrária a isso. Está sendo usada pensando apenas em agilizar os processos para as empresas. Qualquer tecnologia ou processo implementado sem que se considere as diferenças e se busque por acessibilidade só trará para o mercado de trabalho mais do mesmo.

Enquanto tentamos acelerar os negócios, automatizando e robotizando os processos, estamos esquecendo que somos humanos.