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M.M. Izidoro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como é que dá para ser diferente?

Thiego Balteiro
Imagem: Thiego Balteiro

MM Izidoro

07/05/2022 06h00

Foi assim que começou a mensagem que o grande Ailton Krenak me mandou após o painel de fechamento do evento Rio2C, que aconteceu no Rio de Janeiro na semana passada e onde tive a maior honra da minha vida que foi dividir o palco com ele, o ecólogo Fábio Scarano e o cineasta Marco Altberg para falarmos em "Como Adiar o Fim do Mundo" para uma plateia de algumas milhares de pessoas que produzem e pensam conteúdos para cinema, TV e internet.

Foi um evento muito importante para mim e a melhor foto que representa ele é a que abre este texto, tirada por Thiego Balteiro, da equipe de curadoria do Rio2C, que fez o clique segundos antes de entrarmos no palco.

Essa foto para mim representa tanta coisa, mas principalmente que agora é nossa vez de dar afeto para aqueles que estavam na margem e nas sombras a tanto tempo e que agora merecem o centro do palco e a luz.

Por isso, desde então estou pensando muito sobre essa curta frase de quatro palavras.

"Gratidão por estar desperto".

Por que um dos maiores filósofos brasileiros tem que agradecer alguém por estar desperto?

De qual sono temos de despertar?

Eu não sei se tenho uma resposta concreta para essas perguntas. Eu ainda estou digerindo a experiência em si que foi estar no palco com o Ailton falando para tanta gente.

Mas parando para só olhar o que está acontecendo comigo e o que o Ailton pode ter visto, eu quero propor alguns caminhos.

Nesses meses que eu estive longe da coluna, estive envolvido em diversos projetos e discussões que nunca me imaginei envolvido antes. Alguns você verá e ouvirá o resultado logo. Outros, você já foi impactado por eles, mas nunca saberá que fui eu que fiz. Mas a pergunta que trespassou todos esses processos que eu estive envolvido recentemente é: como que dá para ser diferente?

Nesse exato momento que escrevo essa coluna, temos uma aldeia inteira yanomami desaparecida.

Como é que dá para ser diferente?

Temos políticos nos EUA querendo tirar direitos das mulheres e a soberania sobre seus corpos.

Como é que dá para ser diferente?

Temos um jovem preto sendo morto a cada 23 minutos no Brasil.

Como é que dá para ser diferente?

Tem inflação. Tem crise política. Tem guerra. Tem fome. Tem muita coisa considerada ruim acontecendo.

Como é que dá para ser diferente?

Não importa o que está acontecendo. Seja no mundo inteiro ou seja na nossa vida pessoal. Tudo parece estar em um ponto tão alto de saturação que a única coisa que podemos fazer é querer mudar.

Eu ainda não sei como exatamente a gente consegue mudar de fato as coisas. Talvez nem vamos ver essas mudanças acontecendo. Ou até se virmos, não vamos gostar das coisas que elas trarão.

Se você viu o filme Matrix — o original lá da virada do século — você deve lembrar do personagem Cypher. Ele era aquele branco sem cabelos que entrega a turma do Neo e do Morpheus para o Agente Smith em troca de voltar para dentro da Matrix. A cena dele traindo seus colegas se passa em um restaurante. Ele corta um suculento pedaço de carne enquanto fala algo mais ou menos assim para o vilão na sua frente: "Eu sei que esse bife não é de verdade. Mas eu tô nem aí, e não quero estar mais acordado porque a mentira é muito mais saborosa que a verdade".

O problema de despertar é esse. É que chega um hora que para onde você olha, tudo está acontecendo e você tem de fazer escolhas difíceis e nada confortáveis.

É saber que ter uma peça de ouro para se enfeitar é ter uma peça que custou vidas indígenas e a destruição da floresta.

É saber que comer um pedaço de carne é patrocinar a destruição da Amazônia.

É saber que cada vez que você usa aquele carro que você suou uma vida inteira para quitar, você está sufocando o planeta inteiro.

Não é justo. Não é legal. Mas como é que dá para ser diferente?

Cada vez mais estou vendo que a única coisa que a gente pode mudar mesmo é nossa própria história. São as ações que a gente toma, as palavras que a gente fala, as pessoas que a gente anda, as histórias que a gente conta.

Faz muitos anos que estamos contando a mesma história entre a gente, e ela não funciona mais. E se quisermos mudar, vamos ter de começar a contar uma história nova. Vamos precisar contar essa história coletivamente, mas vamos aceitá-la e propagá-la individualmente.

Existem muitas histórias que podemos contar no lugar da história que está aí hoje. Milhares de povos, etnias, culturas do passado, do presente e até do futuro. Não importa qual vai tomar o lugar dessa que estamos contando agora.

Mas se for para ser diferente mesmo, temos de contar uma história que leva em consideração todo mundo. Não só os bichos homens, mas todo e qualquer ser da criação. Da gota d'água até o elefante. Do grão de areia até o universo. De você até eu. Uma empatia radical com o todo, em saber que a grande tecnologia que irá mudar tudo não é a das máquinas, mas é o amor (e não o amor romântico ocidental, mas o amor na sua maneira mais pura. Mas vamos deixar para falar disso em outra coluna, que o amor merece atenção).

Até chegarmos lá nessa nossa nova temporada, temos um caminho para percorrer enquanto indivíduos e sociedades. Mas se tem uma coisa que o filósofo Belchior canta, é que "o novo sempre vem".

Enquanto a gente não chega lá, eu volto aqui para a coluna para eu mesmo tentar colocar em palavras todo esse redemoinho de ideias e sentimentos que me passa por dentro quando estou pensando esses conceitos cabeçudíssimos ou quando só estou preocupado em continuar vivo com as pessoas e seres que amo nesse começo de terceira década do século XXI.

E se tem uma coisa que faz eu voltar sempre para cá, essa coisa é você que está lendo essas palavras nesse exato momento. Por que talvez você tenha clicado nesse texto porque me conhece. Porque me segue nas redes sociais. Porque viu minha carinha na home do UOL e se interessou em saber o que eu falo. Porque alguma coisa lhe disse para clicar nesse link, mesmo você não sabendo o por quê. E se você fez isso, é por que alguma coisa ai não está fazendo mais sentido e você tá querendo pensar diferente, mesmo que isso te machuque e você venha me xingar nos comentários do post depois. Mas uma semente foi plantada aí dentro. Uma semente que a cada texto que você ler, cada música que você ouvir, cada abraço e beijo que você der, cada sorriso que você fizer existir, vai fazer essa mudinha crescer cada vez mais. E quando a gente menos esperar, vai estar uma árvore gigante aí dentro conectada pela raiz com todos nós e crescendo cada vez mais rumo ao firmamento.

É um passo de cada vez que faz a caminhada. É uma letra de cada vez que forma a palavra. É uma estrela de cada vez que forma uma constelação.

Se eu posso te pedir uma coisa hoje, é que depois que ler esse texto, esquece um pouco do mundo lá fora e vá fazer algo que faz seu mundo de dentro se encher de amor.

Abrace seu filho. Beije seu parceiro. Passeie com seu cachorro. Ande entre as árvores. Ajude um estranho. Leia um livro. Vá morar na Suécia. Não importa.

A gente não vai mudar o mundo de fora hoje, mas podemos fazer os nossos de dentro serem um pouquinho melhor, pois se você está aqui, você deve já estar nesse caminho e faço das palavras do mestre da floresta as minhas quando lhe digo:

"Gratidão por estar desperto".