PUBLICIDADE
Topo

M.M. Izidoro

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Ludacris: "Se você não pode cuidar de si mesmo, não pode cuidar de ninguém"

M.M. Izidoro durante entrevista com Ludacris - Reprodução
M.M. Izidoro durante entrevista com Ludacris Imagem: Reprodução

20/11/2021 06h00

Eu havia dito que a coluna passada seria a minha última coluna do ano, mas quando a Netflix me chamou para bater um papo com o Chris "Ludacris" Bridges, o criador de "O Mundo de Karma", a nova série animada do serviço que é inspirada pela vida da sua filha mais velha, eu tive de arregaçar minha metafórica manga de colunista de Ecoa e aqui estamos de novo.

Uma das razões que eu quis bater esse papo com ele é que, assistindo ao "O Mundo de Karma", me lembrei muito dos livros infantis do Emicida, outro rapper pai de menina, e fiquei muito interessado em saber como um homem preto rapper americano e uma das estrelas do Velozes e Furiosos, uma das maiores franquias do mundo do cinema, se interessou em criar uma série infantil sobre uma menina cantora.

Esse movimento do Ludacris, do Emicida e de diversos outros rappers que estão produzindo não só para o seu público cativo, mas também estão interessados na criação de um ecossistema forte para que a comunidade se veja e fortaleça desde a primeira infância até os mais velhos, é algo que acho muito poderoso, e "O Mundo de Karma" vem aí mostrar que é um movimento que está sendo abraçado também por grandes veículos como a Netflix e aqui pelo UOL com o Ecoa.

O bate-papo foi ótimo e super descontraído e, se você tem crianças pequenas pretas, brancas ou de qualquer outra etnia, eu recomendo que você leia a entrevista e já aperte o play em "O Mundo de Karma" — os episódios estão todos disponíveis.

M.M. Izidoro - Então, Chris, em primeiro lugar, obrigado por ter tempo para conversar comigo aqui. Eu estava assistindo ontem à noite "O Mundo de Karma" e simplesmente adorei. A primeira pergunta que queria fazer é, você começou sua carreira como rapper, que é um meio predominantemente masculino, e você também é uma das estrelas da franquia Velozes e Furiosos, que também tem muita testosterona. Ao mesmo tempo, você é pai de quatro meninas e é o criador do "Mundo de Karma". O que estar perto de tantas mulheres te ensinou sobre se conectar com o seu lado feminino?

Chris "Ludacris" Bridges - Acho que a forma de responder a essa pergunta na sua vida é sobre equilíbrio, certo? Então eu tenho muita testosterona, como você disse, e eu sou "pai de menina" e amo minhas filhas. Elas me equilibram. E que maneira melhor do que fazer uma série de TV que tenha equilíbrio? Uma série que seja para todas as meninas e todos os meninos e lhes ensine lições de vida, que seja muito emocionante e tenha muita música, que é a linguagem universal do amor. Além de nos vermos representados na tela da TV de maneira bem diversa. Como você disse, eu aprendi muito sobre isso na franquia Velozes e Furiosos, porque ali há muita diversidade. Acho que todas essas coisas estão incorporadas a esta série que está na Netflix agora. Que, aliás, está tendo uma ótima audiência no Brasil. É por isso que eu queria fazer esta entrevista, para agradecer a vocês pessoalmente por apoiarem "O Mundo de Karma" na Netflix. Isso significa o mundo pra mim.

Sendo um homem preto e tendo irmãs pretas em uma família preta no Brasil, significa muito para mim nos ver ali na TV. Ver gente que fala como a gente fala, uma menina que tem o cabelo como o da minha irmã. Sendo também um cineasta, eu sei como é difícil fazer algo assim. E eu estou muito feliz por você ter conseguido fazer isso.

Obrigado.

Ao mesmo tempo, ser uma pessoa preta, principalmente uma menina preta, vem com muitas noções preconcebidas de que como você tem de se vestir, como você tem de se portar e até coisas banais como seu nome — como você mostra no episódio sobre o nome diferente da Karma. O que eu realmente gosto na sua série é que todo o elenco de personagens é diferente. Você tem pessoas mais velhas latinas. Você tem a garota branca que toca bateria. Foi importante para você ter esta mensagem para capacitar as crianças a serem o que elas são e abraçar sua singularidade?

Sim, muitas das situações na série são baseadas em situações da vida real que minha filha realmente passou. É exatamente por isso que eu sabia que seria um sucesso, porque todas as crianças passam praticamente pelas mesmas coisas. E é por isso que era importante contar essas histórias sobre o nome dela, como seu nome é único e como ela foi provocada por causa dele. Ou o episódio sobre seu cabelo que acontece com muitos de nós. Portanto, essas são histórias interessantes que precisam ser contadas e agora elas são.

Você estava dizendo que a série foi inspirada pela Karma, sua filha mais velha. Ela, ou qualquer uma de suas outras filhas, teve alguma contribuição criativa na série?

Com certeza, cara. Elas são minha inspiração. Tenho trabalhado nesta série por muito, muito tempo. Então elas me ajudam porque não só estou baseando as histórias nas suas vidas, mas elas viam a animação e me diziam de que cores gostaram em certas roupas. Como elas queriam que fosse o design de outras coisas. Portanto, é um programa voltado para a família, e é exatamente disso que se trata. Não há nada melhor do que fazer negócios com sua própria família e seus filhos, certo?

Cena do desenho animado "O Mundo de Karma" - Divulgação/Netflix - Divulgação/Netflix
Cena do desenho animado "O Mundo de Karma"
Imagem: Divulgação/Netflix

Isso é incrível. E o que você faz na sua própria casa para continuar espalhando a mensagem para elas?

Eu as deixo assistir o "Mundo de Karma" repetidamente! (risos) Porque a série está tendo muito sucesso nos Estados Unidos também. Mas no Brasil, vocês estão nos surpreendendo com o quanto estão amando a série. Estou muito orgulhoso e grato.

Sim, há um ditado que diz que empatia é uma coisa local. Sabe, você meio que só consegue ter empatia com as coisas com que você se identifica. E ser preto e ser da periferia, acho que é uma coisa que o brasileiro conhece muito bem, sabe?

É isso ai! Quer dizer, que coisa incrível é eu ter feito o quinto filme do Velozes e Furiosos no Brasil e agora eu tenho um programa que, você sabe, está se tornando o número um no Brasil. Isso é simplesmente uma coisa linda.

E nos vermos e sentirmos que era de verdade. Por que você acha que isso mudou? E parece que você está se esforçando para mudar mais isso, certo?

Eu criei esta série exatamente por essa razão. Eu ouço muitos pais dizerem, "eu gostaria de ter tido esse programa quando eu era criança, mas estou feliz que ele existe agora", porque nós não nos vemos o suficiente. Sabe o que quero dizer? E faz com que as crianças se sintam confiantes em relação a si mesmas quando são capazes de se ver retratadas de uma forma bonita e positiva. E eu já estou vendo isso com crianças ao redor do mundo.

Eu acho isso tão bonito. Você é a voz do pai da Karma na série. Quais são as diferenças entre o pai da Karma fictício e o da vida real?

Ambos são muito bobos e são muito divertidos. Portanto, não há muita diferença. Só que a animação é um pouco maior do que eu. Ele tem uma barriguinha, vamos deixar assim...

Você tem feito muito para mudar a forma como nos vemos, tanto com a sua carreira musical e com a Ludacris Foundation, sua fundação para apoiar jovens americanos, mas agora também com a série "O Mundo de Karma". Geralmente para um homem preto, é muito difícil cuidarmos de nós mesmos, pensarmos maneiras de falar abertamente sobre nossos sentimentos e coisas do tipo. Você faz alguma coisa para cuidar da pessoa Chris Bridges?

Eu cuido de mim mesmo fazendo exercícios, comendo de forma saudável, para ter um corpo e uma mente fortes para continuar criando e fazendo coisas que eu quero ver, que minhas filhas querem ver, que todo mundo queira ver. Eu acho que é extremamente importante cuidar de si mesmo, porque se você não pode cuidar de si mesmo, não podemos cuidar de mais ninguém. Especialmente se você é um homem de família, primeiro precisa cuidar de você.

Como já falamos, você tem quatro filhas, mas só a Karma tem uma série. A gente deve esperar um Universo Cinematográfico das Meninas Bridges?

Sim, elas estão todas bravas por não terem uma série com o nome delas! Então, vou ter de trabalhar duro, cara. Temos que tornar essa primeira série número um no Brasil para que eu possa então fazer mais shows e batizá-los com o nome das outras meninas.

Antes de terminarmos, tem uma pergunta que está me matando e eu preciso saber! O que você dá de presente de Natal para sua filha depois de ter dado uma série da Netflix pra ela?

Essa é uma boa pergunta. Eu tenho que sair para inventar algum tipo de boneca do Mundo de Karma ou algo assim. Eu realmente não sei, mas preciso descobrir. Se você pensar em alguma coisa, me avise. Preciso de umas ideias.

Estava pensando nisso. Deve ser difícil!

Exatamente. É muito difícil. Eu tenho que dar para as outras as séries delas! Aí está.

Para terminar, qual é a mensagem que você quer que fique com as pessoas depois de elas assistirem ao "Mundo de Karma"?

Quero que as crianças percebam que nunca são jovens demais para mudar o mundo para melhor, que elas têm mais poder do que imaginam. Só quero que isso ressoe em todo o mundo. É tudo sobre amor. Comemore as semelhanças uns dos outros e celebre as diferenças uns dos outros ao redor do mundo. É isso que eu quero ver.