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M.M. Izidoro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que a gente cisma em ser o que a gente não é?

O líder yanomami Davi Kopenawa - MM Izidoro
O líder yanomami Davi Kopenawa Imagem: MM Izidoro

M.M. Izidoro

21/05/2022 06h00

Algumas semanas atrás eu estava na cobertura de um famoso prédio da região central da capital paulista ao lado do líder yanomami Davi Kopenawa quando ele vira para mim apontando para os prédios que nos cercavam e fala: "Eu não entendo vocês brancos. Vocês moram um em cima do outro igual os morcegos. Mas morcego é morcego e homem é homem. Por que vocês cismam em ser o que vocês não são?". Ele saiu andando para ver o resto da paisagem, mas minha mente ficou ali presa naquele momento até hoje.

Se você conversou comigo desde que essa conversa aconteceu, eu provavelmente te contei essa história por que o fim dessa pergunta do Davi tá ressoando na minha cabeça desde então, "por que vocês cismam em ser o que vocês não são?"

Eu acho que essa frase me atravessou de uma maneira tão forte por que eu mesmo ando me questionando o que é que sou, e consequentemente, o que nós somos.

Será que somos mesmo seres tocados pelo divino para termos consciência das coisas e dominarmos o planeta com nossa sabedoria? Será que somos engrenagens na eterna máquina da produtividade do mercado? Ou será que somos só um aglomerado de células que por coincidência se organizou num formato de gente sem nenhum propósito específico?

Eu realmente não sei. E acho que ninguém realmente sabe. Mas acho que tem algumas pessoas e seres que estão mais perto dessa resposta do que outros, e com certeza nós seres da cidade e do capital não somos essas pessoas.

Uma coisa que anda me incomodando muito nesse momento em que estamos vivendo é a urgência das necessidades desnecessárias.

Temos de produzir valor urgentemente. Temos de consumir produtos urgentemente. Temos de faturar dinheiros urgentemente. Temos de seguir cegamente líderes urgentemente. Temos de postar a última trend das redes sociais urgentemente. Temos de fazer qualquer coisa urgentemente.

E nas últimas semanas, toda vez que alguém me diz que tem de fazer alguma coisa urgente, as palavras do Davi Kopenawa ecoam na minha cabeça: "Por que vocês cismam em ser o que vocês não são?"

Cada vez mais a gente está muito distante do que a gente é. Do que a gente realmente precisa. Do que realmente importa.

Por que a gente trabalha um monte para dar condições melhores para aqueles que amamos se o ato de trabalhar nos deixa longe e cansados para vivermos com aqueles que amamos?

Por que a gente foca em riquezas físicas e materiais quando o que vamos nos lembrar depois é dos sentimentos e das coisas imateriais?

Por que a gente pira tanto no futuro, quando o presente é tá aqui agora e tamo destruindo ele de pouquinho em pouquinho?

Por que a gente afasta quem a gente ama? Por que a gente suja o que nos alimenta? Por que a gente mata o sistema que nos deixa vivo?

"Por que vocês cismam em ser o que vocês não são?"

Conhecendo gente nova hoje em dia ou até conversando com pessoas que já conheço, quando pergunto sobre elas, elas me respondem sobre seus cargos, seus trabalhos, seus estudos. Coisas que elas estão, não coisas que ela são.

O meu maior medo de hoje em dia não é uma guerra atômica, uma nova pandemia ou o fim do mundo. Mas sim a gente ficar preso numa história comunal que não faz sentido. É a gente achar que o sentido da vida é a produção e destruir a nós e o planeta por causa disso.

Mas assim como sentido da árvore é ser árvore. O nosso é ser gente.

Gente não precisa fazer praticamente nada do que a gente acha que precisa. A vida não precisa de praticamente nada do que a gente acha importante. A vida não precisa de cargos de três letras no cartão de visitas. Não precisa de noites em claro para agradar o chefe. Não precisa bater a meta em 25% no fim do trimestre. Não precisa da casa na praia.

A vida só precisa que estejamos vivos.

E talvez esse é o problema. A coisa é tão simples. Tão direta. Que fica confuso. "Não pode ser só isso", a gente pensa. Mas o que eu me pergunto é se a formiga se pergunta se ser formiga é só isso e sonha em ser um elefante. Ou se uma pedra se pergunta se é só isso ser pedra e sonha em ser um rio. Se o tempo sonha em ser som. Se a luz sonha em ser árvore.

Talvez, sim. Mas hoje, eu chuto que não.

Essas imagens podem parecer absurdas, mas é exatamente o que fazemos diariamente. Sonhamos em ser o que não somos e ter o que não precisamos. Isso vem da história que estamos nos contando a tempos para aceitarmos sermos o que não somos, fazermos o que não precisamos e destruirmos o que amamos.

O momento agora é de mudar essa história. Contar uma mais empática com a gente mesmo, onde a gente aceita que a gente é isso aqui e tá tudo certo.

Que a história que estamos contando hoje pra gente mesmo não está nos dando tempo e recursos pra se quer nos perguntar, "Por que vocês cismam em ser o que vocês não são?"