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M.M. Izidoro

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Nossa crise de imaginação vai nos matar

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

M.M. Izidoro

31/07/2021 06h00

Tem um ditado que diz que o contrário da guerra não é a paz, mas a criação.

Eu acho - junto com mais algumas cabeças mais inteligentes que a minha - que um dos grandes problemas dos últimos séculos é que estamos vivendo uma crise de imaginação profunda. Uma crise de imaginação em que, apesar de nunca termos parado de criar, estamos presos nas mesma ideias e reforçando as mesmas narrativas calcadas na destruição.

Mas como criar quando temos a sensação de tudo está em guerra, de que tudo está ruim?

Historicamente, isso é verdade. Segundo um estudo de 2003, nos últimos 3400 anos, a humanidade só teve 268 anos de paz. Você consegue compreender isso? Apenas 8% dos últimos 3400 anos não tiveram nenhum tipo de conflito que matou mais de mil pessoas.

E mesmo assim, a criatividade perseverou e a gente criou da Monalisa até o foguete. Das pirâmides até os contos Ioruba.

O problema é que com a revolução industrial, as guerras e a destruição aceleraram de maneira violenta e opressora que parece que estamos num looping infinito da mesma narrativa que no fim é uma história sobre consumir e destruir tudo e todos.

Seja o super herói, o soldado de guerra, o hobbit com o pé peludo ou o jedi com o sabre de luz, a narrativa é sempre a mesma. Seja ele branco, preto, amarelo, homem ou mulher. A história é recontada cada vez de um jeito e pode parecer diferente, mas ela acaba sendo sempre igual. É quase sempre uma história de alguém que tem uma missão e em algum momento essa missão vira "mocinho contra bandido" e a resolução do problema vem de alguma forma bélica e violenta que não está nem aí para as vidas e coisas à sua volta.

E é a mesma coisa com a gente.

A gente não tem parado para pensar se a história que a gente está vivendo é a história que a gente quer viver.

Nascer, crescer, estudar, trabalhar, casar, procriar, "vencer na vida" e morrer.

Ter o diploma, ter o carro, ter a casa, ter o celular, ter o tênis, ter a roupa, ter o anel de casamento, ter o filho na melhor escola para ele poder ter tudo isso e arcar com um jazigo bem bonito no melhor cemitério da cidade para você.

Estamos reproduzindo uma história que nem é nossa. É uma história que foi inventada por alguém e há anos a gente não contesta. A gente só aceita e finge ser esse personagem dessas sequências infinitas dessas séries de filme de guerra.

Um dos problemas disso eu acho que vem da própria ficção e da ideia de utopia e distopia.

Desde que a gente começou a contar histórias, a gente percebeu que para a história funcionar era necessário colocar o herói da história em situações e lugares limítrofes. Lugares muito bons e lugares muito ruins.

Assim temos o Paraíso e o Inferno na bíblia judaico-cristã. Temos as partes nobres das cidades e as partes pobres nos dramas vitorianos. As cidades flutuantes com tudo do bom e do melhor e terra devastada e sem nada nas ficções científicas. Estamos sempre trabalhando nessa dualidade de distopia e utopia.

O problema é que a distopia e a utopia acabam sendo a mesma coisa.

No que a distopia é um lugar criado a partir de um sonho colonialista de uma casta superior de humanos e sua tecnologia que acaba explorando as pessoas, seres e lugares à sua volta, criando assim um lugar muito ruim de se viver para quem não está nesse grupo. Essa falta de recursos faz com que as pessoas não tenham energia e força para mudar e, se você quiser, o sonho acaba sendo fazer parte dessa casta superior para reproduzir tudo isso.

Mas se você estiver vivendo dentro da utopia colonial desse lugar onde não te falta nada e tudo está a mil maravilhas e você nem precisa pensar nos lugares ruins, para que você vai querer mudar, não é?

Assim sendo, tanto a distopia quanto a utopia estão nesse lugar parado. Nesse lugar de não mudança, de estagnação.

Acabamos sempre presos entre dois lados como pobre e rico, mocinho e bandido, bom e mal, certo e errado, trabalhador e vagabundo, direita e esquerda e ficamos fazendo um bate e volta entre um e outro. E assim ficamos parados em duas opções e sem energia para pensar em uma terceira, quarta, quinta ou quantas mais opções precisarem.

E tal qual Eva - ou o ET Bilu - a gente só consegue sair dessa estagnação buscando o conhecimento.

E esse conhecimento vem do caminho do meio de que tudo sempre muda e temos de mudar sempre.

É o conhecimento que o Morpheus dá para o Neo que faz ele se libertar da Matrix. Ou a própria maçã que Eva morde que faz eles saírem do paraíso e derem origem à raça humana (que não coincidentemente já começa com um guerra entre os filhos de Adão e Eva e um acaba assassinando o outro.)

Você normalmente não sai de casa com a mesma roupa quando faz sol, chuva, frio ou calor. Você se adapta às condições e muda conforme elas pedem. Você não deixa de fazer uma curva na estrada depois de quilômetros dela estando reta por que você se acostumou com ela assim, você vira a o carro para não bater.

Mas no dia a dia, a gente está repetindo a mesma estagnação em um nível global.

A gente é o capitão do Titanic não querendo mudar a rota depois que alguém gritou "Iceberg!".

Vivemos uma estagnação baseada no consumo e destruição de tudo e de todos. Estamos consumindo nossos corpos e mentes, os corpos e as mentes de todos os outros seres, só porque temos de bater a meta da produção no fim do mês.

Ao tentar mudar isso, a gente muda o gênero e a raça da personagem principal, mas a história continua a mesma. É como se a gente tivesse um Super Homem branco, depois um preto, depois uma mulher, depois um gay ou um com deficiência física. Mas sempre o Super Homem com a missão de destruir os inimigos a qualquer custo.

Na corrida frenética da civilização, a gente acaba fazendo igual. Não importa se é branco, preto, mulher, trans, indígena. Você tem de consumir e você tem de produzir. Você tem de ter um emprego. Você tem de destruir.

A coisa é que essa história de destruição não funciona mais e, ao trazer essas pessoas que estavam na periferia para o centro do palco, talvez a gente acelere o processo de destruição do todo em vez de pensar como fomentar a criação e a mudança, pois esses corpos novos vão continuar uma história antiga e aniquiladora.

Nós não temos mais tempo de voltar atrás em muitas questões que nasceram desse problema.

Já estamos começando a sentir na pele os problemas da crise climática como a crise energética que vai acontecer no Brasil, as ondas de calor no Canadá e de frio extremo na América do Sul, as enchentes na Europa, a falta de comida e água potável no mundo todo, o genocídio de espécies e biomas inteiros. Tudo isso vai gerar fome, vai gerar morte, vai gerar incerteza, vai gerar mais refugiados e vai gerar mais guerra.

Tudo por que a gente não mudou nossa história coletiva. Mas vamos ser obrigados a mudá-la de qualquer jeito a partir de agora.

Com isso, temos de começar esse processo e para isso temos de ouvir o todo e perceber que a gente faz parte de uma história muito maior. É uma história que para ser contada a gente precisa praticar a empatia radical para com toda a criação, pois todos os seres e moléculas dela tem seu papel nessa grande dança cósmica que vivemos e a gente não é nem de longe os protagonistas dessa história.

Temos de imaginar não só futuros melhores em outros planetas, mas presentes melhores aqui na Terra.

Temos de imaginar uma existência equilibrada com o todo e não só sustentável.

Temos de imaginar uma vida de abundância com tudo que a Terra pode nos dar e não uma vida de acúmulo com tudo que tiramos dela.

Temos de imaginar.

Eu já estou tentando fazer isso e esse texto é um convite para você fazer o mesmo e por isso eu te pergunto, qual vai ser a sua nova história?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL