PUBLICIDADE
Topo

M.M. Izidoro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quando o inimaginável aconteceu

A casa do colunista M.M. Izidoro após incêndio - Arquivo pessoal
A casa do colunista M.M. Izidoro após incêndio Imagem: Arquivo pessoal

M.M. Izidoro

17/07/2021 06h00

A coluna de hoje era para ser a continuação da minha coluna sobre ser um bom ancestral.

A ideia era falar sobre a crise de imaginação que estamos vivendo no mundo hoje. Eu ainda vou fazer essa coluna. Mas não hoje. Mas mesmo eu não escrevendo sobre a crise, ainda quero falar sobre imaginação.

Tem algumas coisas que a gente nunca imagina que possa acontecer com a gente. Estar no meio de um desastre natural. Conhecer o nosso ídolo mais famoso. Estar em um acidente aéreo e automobilístico. A lista pode ser enorme e muita gente só vivencia isso através de filmes e reportagens. Ainda bem.

Mas não comigo. Quando eu fui concebido, alguma entidade olhou pra mim e falou, "esse aí vai ter de experienciar tudo na pele. Mas vamos estar com ele por todo o caminho."

E foi assim que já passei por desastres naturais, conheci meus ídolos mais famosos, estive em um acidente automobilístico e quase estive em um acidente aéreo.

Mas ainda assim tem coisas que eu nunca imaginei viver na pele, e uma delas era a de praticamente perder tudo que eu tinha.

Mas como a entidade falou que eu ia viver tudo na pele, semana retrasada isso mudou e praticamente perdi tudo que eu tinha.

Era de madrugada e eu já dormia. Meu pai assistia alguma série na televisão e sentiu um cheiro de queimado. Chamou minha mãe que tricotava e eles descobriram que um quarto no fundo da casa estava começando a pegar fogo. Era justo o quartinho onde a gente guardava todas as doações que a gente arrecada todo mês para os projetos sociais que a gente apoia. Tinha roupa, tinha comida, tinha até cabelo para fazer peruca para mulheres com câncer. Tudo inflamável. Tudo pegando fogo. Meu pai corre e me acorda. Acorda minha irmã. Desespero. Os vizinhos acordam. Eu lembro de tudo que já havia visto em treinamentos de primeiros socorros e filmes de bombeiros.

Agora era a hora que todos os anos de meditação tinham me preparado. Eu tinha de agir e não podia me desesperar porque o fogo não ia deixar eu errar duas vezes. A família sai correndo de casa. A fumaça começa a tomar conta. Liga pro bombeiro. Enquanto o bombeiro não chegava, eu chego perto do fogo. "Ele não pode espalhar pela casa. Ele não vai espalhar pela casa". Empurra móvel. Arranca cortina. Inala fumaça. Busca uma, duas mangueiras. Mais pessoas aparecem para ajudar. Vai molhando tudo onde o fogo pode se alastrar. Molha porta. Molha chão. Joga água. Meu pai está preso em um quarto no segundo andar da casa. A vizinha coloca uma escada para ele sair. Ele inalou muita fumaça. Eu estou com o braço e o joelho fora do lugar. Minha mãe está desligando gás e luz para a tragédia não ser maior. Aparece um caminhão pipa. Ele é ligado e o fogo começa a diminuir. O fogo está quase extinguido quando os bombeiros chegam.

A casa ainda está de pé. A parte de trás está toda negra e o resto da casa está cheio de fuligem. Vai dar um trabalhão de limpar. Mas essa não é a hora de pensar nisso. Meu pai tem de ser internado. Eu tenho de ser internado. Minha irmã e minha mãe ficam cuidando da casa. Alguém tem de ir com a gente pra um hospital maior. Minha mãe vai. Ela acaba também tendo de fazer os exames. 14 horas tomando oxigênio para limpar o pulmão e as vias aéreas. Não temos casa para voltar. Vamos dormir num hotel e ver o que fazemos. Acordamos e eu não consigo andar. Mas temos de ver a destruição de perto. A limpeza já está acontecendo. Mas a cada cômodo que a gente entra percebemos que as nossas roupas estão com cheiro que não vai sair ou manchadas. Nossos móveis estão inchados e descolando com o calor. As paredes estão rachando. Alguns eletrodomésticos não ligam mais. A limpeza vai continuar, mas nesse momento a gente tem a certeza que perdemos quase tudo.

Apesar de tudo isso, eu estou grato pelo o que aconteceu.

Sim, não é legal ter um incêndio acontecendo de madrugada na sua casa, ter de ficar internado com praticamente toda a sua família e perder tudo de material que você tinha.

Mas eu digo que a gente perdeu quase tudo porque duas coisas lindas acontecem desse evento.

A primeira, e óbvia, é que estamos vivos. E se apenas um tivesse morrido nesse acidente, não teríamos mais nada hoje.

A segunda, e a que está me tocando mais, é que toda a teoria de que temos de ter uma comunidade forte em volta da gente se concretizou.

Já durante o incêndio, nossos vizinhos e empregados do condomínio em que moramos foram muito prestativos e acolhedores em nos ajudar e nos salvar. Nas últimas semanas, se formou uma rede gigante de pessoas que doaram tempo, roupas, dinheiro, móveis e mais uma porção de coisas para a gente se reconstruir.

Mas o que eles mais nos deram foi afeto. Foi força para continuar. Foi amor.

No momento que parecia que a gente não tinha mais nada, a gente na verdade tinha tudo e para sempre vou ser grato para cada uma dessas pessoas.

E quando eu disse que eu queria escrever essa coluna sobre imaginação é por que eu tenho um exercício para você que está lendo.

Leia de novo o relato do que aconteceu comigo e minha família e pense quem poderia ajudar você. Você tem uma rede de apoio? Você constrói uma? Ou até se você seria a rede de apoio de alguém que tivesse na nossa situação?

Esse nosso incêndio foi algo real que só foi resolvido por que muita gente se mobilizou para isso. Família, amigos, vizinhos, bombeiros, enfermeiros, médicos, donos de lavanderia e serviços de limpeza, seguranças e até desconhecidos que ficaram tocados ao saber da nossa situação e quiseram nos acalentar de algum jeito.

E é nesse microcosmos de afeto e ajuda que eu estou vivendo e muito tocado, pois eu acredito que é essa coletividade que temos de usar para resolver todos os nossos problemas. Sejam os micro, como alguém com fome. Sejam os medianos, como perder sua casa num incêndio. Sejam os giga, como a mudança climática.

É só junto que a gente vai mudar.

A gente pode ter perdido tudo de posse que a gente tinha, mas esse processo todo nos está fazendo ver que a gente tem algo muito maior que é o carinho e o amor de muita gente. E isso não tem preço e quase tá valendo a pena toda a dor de cabeça de começar uma vida de novo.

Mas eu quero saber de você. Você está plantando uma rede forte em volta de ti para quando o inimaginável acontecer com você ou com alguém que você ama?

Por que se você não tiver, eu falo com propriedade, que você deveria começar agora que vai valer muito a pena.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL