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M.M. Izidoro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Você está colonizando o futuro

M.M. Izidoro: Você está colonizando o futuro! - Youtube/Reprodução
M.M. Izidoro: Você está colonizando o futuro! Imagem: Youtube/Reprodução

M.M. Izidoro

26/06/2021 06h00

Hoje, dia 26/06 - o dia que é publicada essa coluna - também é o dia que celebro meu aniversário.

Todo ano, nessa época, eu tento olhar para trás e ver o que eu posso fazer para melhorar meu próximo ano que está para começar. E mesmo com pandemia, falta de vacina e certas pessoas no poder, essa reflexão me levou para lugares muito bonitos e importantes.

Pela primeira vez na vida, eu tenho uma resposta para a pergunta, "o que você faz da vida?" e isso me bateu de um jeito tão forte, que mais do que escrever a coluna, eu acabei fazendo um vídeo dela.

Se você não quiser ver o vídeo, tudo bem. A coluna tradicional está logo embaixo dele.

E se você gostou, assina lá o canal, que estou interessado em explorar mais esse assunto em vídeos por lá.

Mas se você quiser só me dar parabéns, pode me mandar mensagem nas redes sociais no @mmizidoro, que eu vou adorar! (Se você quiser me xingar, continua só postando aqui nos comentários da coluna, que esse nosso acordo tá ótimo assim!)

Tem uma música de uma banda indie americana que diz, "Hey Hey é o fim do mundo de novo!" e eu acho não acho que eles estão errados.

Eu sou M.M. Izidoro e to aqui por que eu quero entender um pouco mais sobre por que o mundo está acabando.

Uma civilização existe em média por um pouco mais de 300 anos. Se a nossa começou na revolução industrial ali no século XVIII, estamos agora no começo do fim dela.

E como qualquer fim, a coisa pode ficar muito doida e até a gente formar uma civilização nova, a crise vai ser profunda.

Mas como um dia disse Milton Friedman, "apenas uma crise - real ou imaginada - produz mudanças reais".

E são nessas mudanças que temos de focar.

Muito provavelmente, vamos sobreviver de algum jeito a esse apocalipse que estamos vivendo agora. Historicamente, apocalipses são eventos que dá para sobreviver.

Vendo os apocalipses do passado, quase sempre as ruínas das cidades antigas ficam em espaços desertos. E isso não é por acaso. Essas cidades consumiram a terra em volta dela até não sobrar nada.

Mesmo estudando essas ruinas de todos os jeitos possíveis, nós não aprendemos nada e estamos fazendo isso de novo em uma escala global.

Eu não tenho medo do apocalipse, por que ele é inevitável.

Daqui bilhões de anos, a Terra vai ser engolida pelo Sol e nada mais vai sobreviver aqui.

Nossa missão não é evitar o fim do planeta, por que ele vai acontecer de um jeito ou de outro. E se ele vai acontecer, para que se preocupar. Nossa missão é de cuidar dele e adiar o quanto der nossa passagem por aqui.

Temos de pensar em adiar o nosso fim do mundo, como diria o Ailton Krenak.

Por que tudo sempre acaba.

Talvez a única maneira da gente começar a levar a sério esse nosso compromisso, seja nós nos vermos como bons ancestrais.

Quando a gente pensa em ancestrais, a gente normalmente pensa em velhos sábios de cabelos brancos dizendo coisas profundas.

Eu já estou ficando velho e tenho meus cabelos e barba branca. Mas tanto eu, quanto você já somos ancestrais e só não nos assumimos ainda. Todos nós somos ancestrais dos que vão vir, assim como todos que vieram são nossos ancestrais.

E não estou falando só dos humanos.

Os dinossauros que morreram, viraram o petróleo que move nosso mundo.

As abelhas, pássaros e outros seres polinizam as plantas e formaram as florestas que estamos queimando.

Os mares que deram origem a toda vida que conhecemos hoje.

Eles também são nossos ancestrais. Mas ainda não estamos prontos para essa conversa.

Então vamos focar apenas nos humanos.

Se a gente pensar que hoje temos quase 8 bilhões de pessoas vivas e que nos últimos 50 mil anos, 100 bilhões de pessoas já viveram.

Se mantivermos o crescimento populacional de forma estável, teremos quase 8 trilhões de pessoas nascendo nos próximos 50 mil anos.

E assim como os dinossauros viraram o combustível que move nossos carros, ou o plástico que molda nossos brinquedos e alimentam nossa economia milhões de anos depois de mortos, o que fazemos hoje vai influenciar a vida de 8000% mais humanos do que já viveram ou estão vivos.

Temos uma responsabilidade com muita, mas muuuuita mais gente.

Mas nós humanos somos muito ruins em pensar em números e coisas grandes.

A gente não consegue projetar direito muito o passado e muito menos o futuro.

A gente ainda tem a cabeça dos nossos ancestrais que moravam nas florestas em que tudo que importa é o agora. Pensar no que vamos caçar de noite para comer de manhã.

Focar 100% no agora.

E olha que eu até concordo com eles que esse é um pensamento ótimo. Trabalho muito esse "estar no presente" na terapia e nas minhas práticas de meditação.

O problema é que essa tirania do agora junto com o sistema que estamos vivendo hoje, esse pensamento está nos fazendo colonizadores do futuro.

Isso mesmo, tanto eu, quanto você somos iguaizinhos aos bandeirantes portugueses ou qualquer grande navegador europeu que invadiram as terras do sul e consumiram os recursos naturais delas até não existir mais nada.

Ai, a terra que eles colonizaram ficam destruídas, mas na terra natal dos colonizadores tá tudo bem e todos tão felizes e empanturrados finalmente comendo algo que tem sabor depois de roubar as especiarias e culturas todas.

Nós estamos fazendo a mesma coisa, mas ao invés de fazermos na dimensão espacial, estamos fazendo na dimensão do tempo, consumindo e esgotando o recurso de quem ainda vai vir.

Nós estamos consumindo tanto hoje, que não vai sobrar nada pro amanhã.

É como naqueles filmes de viagem no tempo, onde alguém volta do futuro para nos avisar que uma grande guerra está acontecendo por causa de invasores de outros planetas e temos de fazer alguma coisa já.

Só que nós somos os invasores, que de vez estarmos vindo de outro planeta, estamos vindo de outro tempo.

Tudo que fazemos hoje está acabando com nosso sistema natural.

Nosso sistema de produção de massa de comida está devastando as terras férteis das florestas e acabando com a biodiversidade que foi o que fez aquelas terras serem férteis em primeiro lugar.

Nosso sistema de trabalho, que consome nossa energia e nossos corpos em troca de dinheiro, para que possamos consumir coisas que a gente nem precisa.

Até o fato de você estar ouvindo essa história está gastando energia não renovável, além dos nossos computadores e celulares existirem por que tem terras e populações inteiras sendo exploradas para tirar os metais de dentro da Terra que precisamos para produção dos chips e afins.

Tudo é mercadoria. A terra, a água, o ar e a vida.

A maior sacada do capitalismo é que ele proporcionalmente fábrica pobreza, para gerar carências.

Carências de coisas que a gente não precisa. De produtos e vontades novas. De cargos e diplomas.

Mas eu acho que há muito mais carência de conexões e afetos.

Pois se estamos preocupados sempre em ter e produzir, não temos tempo e energia para ser e existir.

Todos nós vamos viver na pele o começo da crise climática e se a gente acha que a crise do coronavírus está ruim... respira fundo que a próxima crise do clima deve ser muito pior.

Mas a gente tem como mudar, a gente só não está vendo como... ainda!

Talvez nosso maior problema agora seja que estamos passando por uma crise enorme de imaginação no mundo.

Eu vou falar sobre isso mais a fundo em um próximo vídeo, mas o problema é que como qualquer outro produto capitalista, estamos consumindo em exaustão a mesma história de maneira diferente.

Nesse túnel cheio de tecnologia e super-heróis, a gente tá cego para as luzes que tá brilhando lá no fim dele. Ou em prestar atenção no que está acontecendo nos túneis paralelos a esse. Que eles existem e estão vivendo com a gente.

As únicas soluções que estamos achando é de trazer pessoas de fora do sistema para bem no meio dele. Para eles se tornarem "alguém na vida" ao ter acesso ao mesmo consumo e sistema que está destruindo todos nós.

E isso é por que a gente tem na nossa natureza o senso de comunidade e de ajudar ao próximo. Mas a gente não está vendo outra narrativa e opção a não ser essa que estamos vivendo agora.

A gente está preso na dicotomia mocinho e bandido. Bom e mau. Rico e pobre. Produtivo e improdutivo. Lucro ou prejuízo. Crédito ou débito.

E praticamente todas essas lutas, que são extremamente importantes de ter no sistema que vivemos, às vezes só mudam os personagens principais da história e não propõe uma narrativa nova.

E assim, ficamos sem solução para a crise hídrica ou o desmatamento da Amazônia, por que a gente também quer consumir e ter o que a gente nunca teve e achar uma outra solução para isso tudo dá uma trabalhão.

Muitas das soluções que vamos precisar para passar desse momento, já existem. Mas elas não são sexys e mainstreams, porque quem está aplicando elas, não é o Elon Musk ou o Jeff Bezos, mas os povos indígenas e as pessoas periféricas aos grandes centros.

Esses grupos ficam à margem da nossa "sociedade", mas sempre que dá, a "sociedade" vai lá e engole eles.

Houve um momento no universo que nós éramos tudo uma coisa só. Não só as pessoas eram um povo, só. Mas tudo que existia estava condensado em um único ponto. Todos os elementos, forças, dimensões e tempos.

Tudo tão juntinho que um dia tudo isso explodiu e deu origem ao universo. Tudo que iria existir, que existe e que vai existir, já existia naquele momento do Big Bang.

Todos nós, de um jeito ou de outro, estávamos ali e estaremos até o universo contrair e formar esse ponto com tudo de novo e explodir novamente.

Para muitos povos, esse ato de criação mostra que tudo que foi criado é conectado e senciente - ou seja, é capaz de sentir - e por isso merece respeito.

Nós não estamos respeitando nem nós mesmos, imagina todo o resto.

A falta de conexão e de afeto não é com a gente. É com o todo. É com o que chamamos de natureza, de universo ou como você queira chamar. A gente estava conectado no começo e vamos estar conectados no final. Nada se perde no universo, tudo se transforma.

Então o que eu quero é começar a pensar maneiras menos destrutivas de sermos a gente.

Por isso que meu maior desejo hoje é de ser um bom ancestral.

Nós somos a continuação das memórias de tudo que veio antes da gente e seremos mais um elo nessa cadeia para tudo que virá.

Mas não podemos fechar o olho para a crise que estamos vivendo em todos os lugares.

A crise climática, a crise sanitária, a crise política, a crise financeira. E acima de tudo, a crise de imaginação do que é ser um humano na terceira década do século XXI para frente.

Uma das razões por que eu estou escrevendo esse texto aqui, é por que eu quero registrar que finalmente descobri o que eu quero fazer pro resto da minha vida.

Muitas vezes me perguntam o que eu faço e finalmente eu tenho uma resposta.

Eu quero ser um bom ancestral.

Mas eu não vou fazer isso sozinho. Nem você vai. Assim como qualquer problema grande, só vamos sair dessa se um número suficiente da gente tiver a coragem de mudar essa história que estamos vivendo para uma mais inclusiva para com toda a criação.

Ai vai que daqui alguns séculos, essa galera possa olhar para traz e concordar que foi uma boa ideia sermos bons ancestrais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL