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M.M. Izidoro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Os trens pro futuro

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

M.M. Izidoro

22/05/2021 06h00

Eu ando pensando muito na invenção do futuro.

Não apenas em o que fazer para ter um futuro melhor, mas por que a ideia de futuro existe.

Não faz muito tempo, os ingleses resolveram padronizar o tempo. Durante séculos, a gente não tinha uma ideia mais ampla das horas. Se o sol estava no céu, era dia. Se tudo estivesse escuro e desse para ver a lua, era de noite. De dia, a gente trabalha. De noite, a gente dorme. Era bem simples.

Algumas cidades e civilizações tentavam ter uma ideia mais exata do tempo com relógios de sol. Assim, quando o sol fosse dando sua volta na Terra, ele iria fazendo sombra no relógio e dava para ter uma ideia em que parte do dia a gente estava. Se a sombra estivesse mais para o oeste, o sol estava nascendo, pois ele sempre nasce do leste. Se não tivesse sombra, ele estava bem em cima do relógio, e no meio do céu, e era meio-dia. Sombra pro leste, o sol estava no oeste e se pondo. E assim, até os relógios mecânicos eram ajustados em relação aos relógios solares.

O problema é que, como a Terra é redonda, cada cidade fica em um localidade diferente, e assim, o meio do céu é diferente para todas elas. Então, cidades na mesma região, podiam estar com minutos de diferença entre elas.

Aí inventaram o trem, e com ele, o futuro.

Quando o trem começou a ficar popular, ali no meio dos anos 1800, essa coisa de cada cidade ter um tempo diferente começou a ser um problema. Cada lugar tinha uma hora e aí o trem acabava estando uma hora adiantado, outra hora atrasado e se tem uma coisa que o trem tem sempre de estar é no horário.

Assim, a Inglaterra inventou o modelo de padronização do tempo que a gente usa até hoje e assim os trens pararam de se atrasar, pois através do país todo, o horário era uniforme e você sabia quando o trem iria chegar e sair da sua estação.

E assim, quando a gente controlou o tempo, a gente começou a tentar dominá-lo e moldá-lo.

Começamos a esperar que tempo fosse o trilho que levasse nossos trens para os lugares certos, na hora certa.

Tinha a estação de brincar, a estação de estudar não muito sério, a estação de estudar mais sério, a estação de ter uma carreira, a estação de casar e ter filhos, a estação de parcelar um apartamento em 30 anos, a estação de mostrar para os seus filhos as estações que as vidas deles iriam ter de parar e quando você e a sociedade esperava que eles iriam chegar lá.

Assim como esperamos o trem para Greenwich sair às 11 horas e 41 minutos da estação central de Londres e chegar às 11 horas e 57 minutos, também esperamos que nossas vidas cheguem nas estações que nos são esperadas na hora certa. Tem de entrar na faculdade com 18 anos. Tem de arranjar um emprego quando se formar com 22. Tem de estar casado, com filhos e um cargo bom na firma aos 35. Tem de postar 5 vezes por dia para ter engajamento. Tem de fazer 40 minutos de cardio para perder a barriga. Tem de tomar 4 litros de água em 24 horas. Tem de ter produtividade recorde neste trimestre. Tem de fazer os acionistas felizes. Tem de virar a noite para acabar o relatório. Tem de fazer. Tem de produzir. Tem de consumir. Tem.

E, assim, a gente foca no que temos de atingir, na hora que temos de estar lá e não na coisa em si.

A gente mira no ganho futuro, mas quando a gente chegar lá, ele vai ser nosso presente.

O futuro não existe, então por que a gente pira tanto nele? Por que a gente faz esse planejamento para aproveitar um tempo que nunca vai vir?
Nesses tempos em que estamos em casa, uma das maiores reclamações que eu ouço é que a pandemia "acabou com meus planos". Essa dor de ter a expectativa quebrada, deve estar ligada com o mesmo sofrimento que a gente tem de perder o avião e assim chegamos 5 horas antes no aeroporto.

A gente faz planos para viver uma vida futura e esquecemos que agora é a única coisa que dá para a gente viver de verdade.

A gente faz planos de viver uma vida, que talvez nem seja a vida que a gente queira viver de verdade. Ficamos putos quando essa vida que não queremos não acontece do jeito que a gente imaginava que ia ser, quando dentro da gente, a gente não queria que acontecesse de verdade.

Temos de fazer a poupança, o investimento financeiro, os planos de expansão da nossa marca ou construção da nossa família. Mas também temos de estar presentes e viver o hoje, de ter uma graninha separada para pedir aquele delivery espontâneo ou comprar algo que a gente quer agora. De desistir quando um plano não está funcionando. Trocar de parceiro amoroso quando não dá mais certo. Trocar de emprego perto da promoção quando seu chefe é um abusador.

Por que se essas coisas não estiverem funcionando, quando seu futuro virar seu presente, ele vai ser um presente muito pior que seu passado é agora.

Mais do que trens e máquinas, a gente é bicho. A gente é natureza. A gente é ciclo.

Nossa biologia e nossa cabeça não foram desenvolvidas para pensar tão longe, porque o longe não chegava nunca.

Talvez, muitos dos nossos problemas venham da falta de perspectiva de presente, não de futuro. Quando a gente perceber que dá para ser agora e não só amanhã, talvez a coisa fique mais fácil.

Mas isso só vamos saber quando chegarmos nesse presente possível, até lá, deixa eu correr aqui que meu trem está saindo em 15 minutos e se eu perder esse o próximo só amanhã de manhã.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL