PUBLICIDADE
Topo

Mente Natural

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um ideal de compaixão para a regeneração

PeopleImages/iStock
Imagem: PeopleImages/iStock
Emersom Karma Kontchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

28/11/2021 06h00

Nestes tempos de colapso socioambiental, precisamos não apenas de cada vez mais pessoas dispostas a se engajarem ativamente na cura de nossa civilização terminal, mas também de uma cultura regenerativa como base para a possível transformação. Um modelo de engajamento bastante popular no oriente hoje está cada vez mais difundido pelo mundo: o ideal bodisatva, que basicamente se refere a um altruísmo ou compaixão universal que olha e cuida de todos seres sem distinção.

Como monge, sempre evito fazer propaganda espiritual. Não estou sugerindo que as pessoas se tornem budistas. Pelo contrário: como sempre enfatiza o Dalai Lama, ninguém precisa se converter e é muito melhor cada um continuar com o sistema de crença ou descrença de sua cultura.

No entanto, acredito que, mesmo em um contexto laico, o ideal bodisatva possa ser uma boa referência para quem se preocupa com o rumo autodestrutivo de nossas sociedades, trazendo ao mesmo tempo uma dimensão ética individual que se alinha com nossa identidade natural maior que esquecemos: no final, o que somos é a própria vida.

Neste contexto, o significado de compaixão é um pouco mais amplo do que no uso comum da palavra. Não há senso de superioridade, então não tem nada a ver com pena ou piedade, mas sim é a capacidade de nos reconhecermos em outros seres e agirmos, já que temos as mesmas aspirações básicas: buscamos prosperar e ter conforto e evitamos a todo custo sofrimento e morte. Nesse ponto, todas as formas ou expressões de vida se igualam.

E o reconhecimento dessa igualdade atua como antídoto para os enganos supremacistas por trás de toda exploração e dano. Por exemplo, convicções como essas:

  • "meu bem-estar é mais importante do que o das outras pessoas, então não há problema em causar sofrimento em nome da minha felicidade";
  • "minha etnia ou cultura é superior à sua";
  • "o ser humano é a espécie suprema, então podemos explorar tudo à nossa volta";
  • "minhas opiniões e crenças valem mais do que o restante, então quem discorda de mim sofre de ignorância e não deve ser considerado."

Em oposição a essas ideias, a compaixão neutraliza esse egoísmo carcinogênico que está nos matando. Ao contrário do que se acredita, ela é uma qualidade que pode ser cultivada, treinada e aperfeiçoada. Não é algo que ou temos ou não. Qualquer pessoa que deseje florescer nessa direção, pode ter mais compaixão e abertura de consciência.

Um dos enganos bem enraizados em nossa cultura competitiva é a de que solidariedade ou altruísmo são para pessoas religiosas ou espiritualizadas. Na verdade, cooperação, ajuda mútua e simbiose estão na base da própria natureza. Sem isso, basicamente não existiria vida neste planeta.

Então, esse ideal de compaixão universal se alinha também com a visão da ecologia profunda: cuidamos da natureza não pensando em quanto podemos lucrar com ela, mas sim porque somos a natureza. Aonde terminaria, por exemplo, a estratégia de mercado hoje de cobrar pela conservação ambiental, como um produto a ser vendido? Acabaria no mesmo tipo de colapso predatório que já estamos vendo, causado exatamente por essa mentalidade.

Interdependência

O ideal bodisatva de compaixão imparcial parte do princípio de que a identidade individual é uma realidade relativa ou mera aparência. Temos sim nossa individualidade e ela não precisa ser descartada. Mas há uma realidade maior da qual somos meras expressões. Neste contexto laico que estou adaptando, essa realidade é a própria biosfera do planeta. Tudo que vive se entrelaça em processos interdependentes. A vida é toda essa teia, da qual não temos como nos separar. Nossa grande ilusão como humanos é imaginar que estaríamos além disso e, assim, poderíamos destruir à vontade.

Como diz o biólogo Andreas Weber, em "Biology of Wonder":

— Cada espécie que perdemos hoje é a perda permanente de uma forma de expressão de um cosmos vivo.

Somos esse cosmos. Assim, há amor pela vida devido ao reconhecimento de nossa identidade. Consequentemente, quanto mais cuidado e compaixão tivermos com tudo, mais óbvia fica a natureza da realidade e de nós mesmos, aparecendo por trás do véu de ilusão da separação e fixação egoísta.

Em diversas tradições espirituais, a revelação que esse amor maior traz é o estado almejado de união com o absoluto. Mas não é preciso acreditar em nada sobrenatural para termos um gostinho disso. Na verdade, todos vivenciamos isso aqui e ali em maior ou menor grau, só não sabemos reconhecer. Não é por acaso que perseguimos tanto emoções amorosas, união com a natureza, êxtases coletivos... A própria origem da palavra êxtase se refere a "sair de si", ou seja, transcender o pequeno casulo de nosso egoísmo.

Assim, a disseminação de culturas ou ideais que incentivem o cultivo tanto do altruísmo universal quanto da visão de mundo que penetra a interdependência de toda a vida e a natureza da realidade é uma etapa crucial para um possível amadurecimento de nossa civilização, deixando para trás este atual estágio de cega autodestruição.

Sugestões de leitura

Seguem algumas dicas de livros para quem tiver interesse pelo ideal bodisatva:

  • Ecodarma - David Loy: o autor, que é filósofo e professor de meditação, descreve os insights budistas, como o ideal bodisatva, que podem nos ajudar a reverter o colapso ambiental.
  • Esperança Ativa - Joanna Macy: nesse livro, a grande bodisatva estadunidense introduz seu Trabalho Que Reconecta, que virou uma referência mundial em movimentos socioambientais.
  • Engajamento na Ação Bodisatva - Shantideva: apesar da densa camada cultural do budismo indiano do século 8, essa escritura detalha o cultivo da compaixão e sabedoria como disciplina espiritual (transparência: eu sou o tradutor desta edição).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL