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Mente Natural

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sabedoria acumulada da natureza

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Imagem: iStock
Emersom Karma Konchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

03/10/2021 06h00

Li esses dias que a espécie de pica-pau que inspirou o clássico desenho animado foi declarada oficialmente extinta. Há milhares de outras espécies com o mesmo destino, mas como umas chamam mais a atenção que outras, esse é um bom gancho para contemplarmos o que realmente significa o desaparecimento permanente de uma espécie na Terra, causado por nós.

A morte de uma espécie não é apenas o sumiço de algo bonito de olhar ou interessante para estudar. É jogar fora, em nome de produtos descartáveis e conforto supérfluo, milhões de anos de sabedoria natural. É o chorume da ignorância.

Ainda não temos respostas conclusivas sobre o que é a vida biológica, como ela difere da matéria inanimada, do que se trata a consciência e, consequentemente, quem somos nós e o que é o mundo, o universo ou a realidade. No entanto, destruímos as fontes naturais onde estão armazenadas possíveis respostas não apenas para essas questões, mas para perguntas que ainda nem imaginamos, como por exemplo, como curar determinada doença.

E essa é apenas uma justificativa utilitária, ligada ao nosso próprio bem, sobre porque deveríamos honrar a exuberância natural onde coexistimos. Um argumento mais profundo se refere a respeitar a vida simplesmente porque somos a vida, em vez de só considerarmos quanto poderíamos lucrar com ela. Geralmente, não decepamos nosso próprio corpo, mas fazemos isso com nosso corpo estendido, que é a vida na Terra.

Nossa crueldade com outros seres sencientes — categoria que agora pode incluir até plantas, conforme as últimas descobertas científicas — também multiplica a ignorância sobre a realidade maior e interdependente de nossos corpos e mentes com a teia da vida neste planeta.

Mas a maior tragédia é que tal destruição acontece por nada, ou quase nada: algo muito barato e mesquinho. Por exemplo, por mais controversa que seja o uso de cobaias em laboratório, cientistas se justificam com o suposto bem maior que é conquistado com essas pesquisas. Já o atual ecocídio, como justificar?

— Vamos aumentar o Produto Interno Bruto.

— Será ótimo para as exportações.

— Alimentamos com ração porcos no Oriente.

E depois de respostas como essas vem toda a campanha para nos convencer de que isso — o lucro das corporações — é a melhor coisa que poderia nos acontecer como civilização.

Antigamente, um dos grandes confortos que recebíamos da natureza era saber que, assim como nós vivenciamos certa integração, união ou aprendizado, isso também estaria disponível para outras pessoas, nossos filhos, netas... Queríamos compartilhar, herdar. Isso enchia o coração de confiança e esperança: nem tudo estava perdido, a vida continua em sua sabedoria misteriosa...

Hoje, com a extinção em massa que adentramos, nem isso está garantido. Algo tão comum há algumas décadas quanto um céu estrelado, nos lembrando de que estamos literalmente flutuando no espaço sem fim, já se tornou um privilégio raro para as novas gerações.

O contato próximo com animais não humanos, que podia nos maravilhar com todas as diferentes possibilidades com que a vida experimenta a si mesma, após algumas décadas já ficou restrito a raras excursões naturais. Como se degradará ainda mais a relação humana com a natureza daqui 50 anos? Como isso continuará afetando nossa cultura e mentes?

Algumas pessoas não entendem bem essa preocupação com as gerações futuras, argumentando que só o presente importaria realmente, como se o tempo fosse um abismo realmente existente que nos separa dos seres do futuro. Mas, independente da época, a angústia, privação e dor têm a mesma qualidade de sofrimento. Enxergar com olhos um pouco maiores que nossos casulos temporais é crucial para realmente expandir nosso diminuto círculo de cuidado e responsabilidade.

Já que a atual extinção em massa é uma obra humana, o que está sendo dito é que não se trata da 6ª extinção em massa na Terra, mas sim do 1º grande extermínio. Vale realmente a pena sermos protagonistas de tal massacre? Ou ficarmos indiferentes?

Quanto tempo seria necessário, por exemplo, para um inseto "aprender" a guiar seu percurso noturno usando a faixa de corpos celestes da Via Láctea? É isso o que faz o besouro que rola bolas de estrume.

Ou então o beija-flor, que compensa seu alto gasto de energia durante o dia entrando num estado de hibernação à noite, reduzindo pela metade sua temperatura e ritmo cardíaco.

Ou o superorganismo que são as abelhas, chegando ao ponto de desenvolverem uma linguagem geométrica para comunicar o local de fontes de alimento ou abrigo umas às outras.

É essa sabedoria interligada por centenas de milhões de anos que estamos jogando no lixo, sem nem entendermos completamente do que se trata. Como a evolução de diferentes espécies se interconecta? Isso se refere somente à matéria ou envolve também consciência? Vida e mente são sinônimos?

Por exemplo, ao contemplarmos a "arte" nas penas de um pavão, estamos também em contato direto com a mente histórica das pavoas, cujas preferências estéticas foram determinando um padrão de beleza ao longo das eras, direcionando, assim, a seleção natural dos machos.

Do mesmo modo, o desenho que parece uma cobra nas asas de um tipo de borboleta, nos liga diretamente ao terror na mente de outros animais em relação à esses répteis venenosos.

Vale a pena continuarmos passivos diante da mutilação da teia da vida que é parte essencial de nosso corpo natural?

Sempre me surpreende as histórias sobre altruísmo e inteligência de animais não humanos, pois expandem a perspectiva sobre o que consideramos ser a vida. Uma de minhas favoritas é a do papagaio Alex, que aprendeu o significado de diversas palavras e conversava com a cientista que o treinou no mesmo nível de um bebê aprendendo a falar. O escritor de ficção científica Ted Chiang imaginou o que Alex nos diria no conto "O Grande Silêncio", que termina assim:

"Minha espécie possivelmente não estará aqui por muito mais tempo; é mais provável que nós morramos antes do nosso tempo e nos juntemos ao Grande Silêncio. Mas, antes de partir, nós estamos enviando uma mensagem à humanidade. ... A mensagem é esta:

'Fique bem. Eu te amo.' "

Antes de morrer, Alex realmente disse essas duas últimas frases.

Havia também a gorila Koko, que foi ensinada a conversar com humanos através de sinais. Ela gostava de gatos, e costumava até dar nomes para eles. Antes de uma conferência ambiental, ela mandou essa mensagem para os humanos:

"Eu sou gorila. Sou flores, animais. Sou natureza. Humanos, Koko ama. Terra, Koko ama. Mas humanos estúpidos. Estúpidos. Koko lamenta. Koko chora. Tempo corre! Consertem Terra. Ajudem Terra. Rápido! Protejam natureza. Natureza vê vocês. Obrigado."

Nos assustamos e sofremos muito com a morte, pois ela traz a antes inconcebível ausência permanente de quem amamos. Mas, em geral, parece que não tememos tanto a morte da natureza, ou boa parte dela. Será que é porque não amamos? Para aprender a realmente amá-la, vamos precisar entender melhor quem ela é, aonde está e quem realmente somos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL