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Mente Natural

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Devemos aceitar nossa catastrófica condição?

Vista área da cidade alemã Erftstadt-Blessem, uma das mais afetadas pelas chuvas e inundações que atingem a Alemanha - REUTERS/Rhein-Erft-Kreis
Vista área da cidade alemã Erftstadt-Blessem, uma das mais afetadas pelas chuvas e inundações que atingem a Alemanha Imagem: REUTERS/Rhein-Erft-Kreis
Emersom Karma Konchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

18/07/2021 06h00

Depois de umas férias desta coluna para um período mais retirado, ao atualizar-me com as notícias, não tive o luxo de constatar que "nada mudou, é a mesma coisa de sempre". Mudou para pior. Infelizmente, sobre o ambiente onde vivemos, parece não haver trégua em nossa guerra contra a natureza.

Mas um padrão permanece constante: alguma esperança de melhora, há bons sinais aqui e ali, mas então, olhando melhor, vem a realidade deprimente. Depois de um tempo, algum bom sinal surge de novo, e o ciclo se repete.

Então, ando pensando bastante em como conciliar a aceitação sobre nossa catastrófica condição com uma atitude ainda construtiva. Sempre apreciei muito o pensamento do cientista inglês James Lovelock, conhecido pela hipótese de Gaia, o conceito da biosfera terrestre como um organismo autorregulado. Mas confesso uma aversão instantânea a um de seus livros mais recentes, "A Rough Ride to The Future" (2014). Após décadas dedicado aos alertas sobre os perigos da sistemática destruição do clima da Terra e sua biodiversidade, ele parece ter desistido.

Sua tese básica agora é que o que quer que façamos com o meio ambiente, isso ainda seria algo "natural", pois somos seres da natureza. E seguiremos nos adaptando conforme as condições. Por exemplo, cupins que vivem em áreas extremamente quentes constroem colônias climatizadas e evitam sair para o exterior. Algo parecido está ocorrendo no calor escaldante de Cingapura: em condomínios termicamente isolados, que são verdadeiras cidades, é possível evitar o mundo exterior. Esse seria o futuro da humanidade.

Eu não desejo esse tipo de vida para ninguém. No entanto, a ideia de que a destruição de nosso ambiente e de nós mesmospor mais trágica que seja — de certa forma faz parte de nosso aprendizado como espécie pode ter algum sentido cruel, já que estamos entre os recém-chegados no planeta. Talvez sejamos como um bebê que ainda está na fase de engolir plástico e colocar garfo na tomada, o que por si só é bastante preocupante, não?

Em tese, sim. Por exemplo, uma nova pesquisa do Ibope identificou que a maioria dos brasileiros (80%) diz estar muito preocupada com as mudanças climáticas e que elas são causadas por atividades humanas. Mas por que na prática isso não se reflete nas notícias que consumimos? Uma história contada no lindo documentário "Planetary" (2015) ilustra bem esse ponto: ainda nos anos 80, o cosmologista Brian Swimme atendeu uma conferência científica alertando para o fato de que havíamos entrado na sexta extinção em massa do planeta. Ele ficou tão angustiado que não conseguiu dormir. No dia seguinte, ao abrir o jornal New York Times, a notícia estava ali: em um canto da página 26. "Então, isso significa que nós humanos encontramos 25 páginas de notícias mais importantes do que a eliminação da vida no planeta Terra!", comentou.

Mais de três décadas depois, infelizmente, pouca coisa mudou. Eu sou bombardeado por notícias de desastres ambientais apenas porque configurei minha bolha de internet assim. Mas é só abrir um canal de notícias gerais, em qualquer mídia, e constatar: o colapso autoinfligido da civilização humana não está sendo noticiado — a não ser nos "cantos de páginas".

O hemisfério Norte vive novamente mais um consecutivo verão recorde em calor. A Amazônia agora, em vez de retirar carbono da atmosfera, está poluindo, devido ao desmatamento (em 2020, foram derrubadas 24 árvores por segundo no Brasil). Em meio a tudo isso, vamos aumentar as emissões de gases de aquecimento com a privatização da Eletrobrás. Nos EUA, apesar do discurso de Biden, já foram aprovadas 2.100 novas perfurações para exploração de petróleo e gás. Um novo relatório do painel do clima da ONU alerta que o teto de aquecimento de 1.5°C para este século pode ser ultrapassado nos próximos cinco anos.

É tão difícil ver para onde caminhamos? Na verdade, já chegamos no destino faz um tempo. Não é um problema para o futuro.

Até aqui onde vivo — uma área extremamente privilegiada em áreas naturais não estou imune à degradação: escuto o estrondo dos incêndios nas montanhas e preciso conviver com a fumaça tóxica de um ferro velho que queima plástico e pneus durante a noite. Imagine então para as comunidades excluídas, que há décadas precisam viver entre resíduos tóxicos, lixo e esgoto a céu aberto, inundações, migração forçada em massa...

Talvez a grande questão seja: qual é o ponto-limite de degeneração necessário para acordarmos como espécie? Para alguns, já passamos dele há muito tempo. Mas enquanto não houver um reconhecimento parecido nas sociedades como um todo, não passaremos dessa fase infantil de ficar enfiando o dedo na tomada.

A visão catastrofista sobre o meio ambiente, de que não restaria mais muito a fazer, não só é paralisante, mas também deprime e angustia. sim muito o que fazer, e os movimentos e pessoas envolvidas hoje nisso brilham de inspiração. No entanto, levando em conta causas sistêmicas como a doutrina do crescimento econômico infinito, a dominação das elites, a política comprada, o silêncio da mídia, a desinformação orquestrada, etc, manter o otimismo é um desafio constante.

Um movimento que vem crescendo pelo mundo é o da Adaptação Profunda (Deep Adaptation),sobre a necessidade de começarmos a nos preparar não apenas para o pior que está por vir, mas que já chegou. Há quem classifique essa visão como catastrofista, mas diante dos fatos e de nossa inacreditável inação, em muitos momentos isso realmente parece o mais sensato. No entanto, começar a pensar sobre nosso "abrigo de cupim" não exclui a mobilização contra nossa autodestruição, e não nos mexermos realmente não é uma opção.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL