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Mente Natural

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A realidade não aponta para utopias

Demônios cercam Buda - Therd oval/Getty Images/iStockphoto
Demônios cercam Buda
Imagem: Therd oval/Getty Images/iStockphoto
Emersom Karma Konchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

30/05/2021 06h00

Tenho escrito bastante sobre coisas mais inspiradoras: consciência animal e vegetal, a visão de sociedades vivendo em simbiose natural, a biosfera Gaia como uma inspiração para uma ética secular. Precisamos ouvir sobre essas coisas para manter um estado de espírito aberto e construtivo. Além do mais, honestamente, caso não haja esse tipo de ênfase positiva, otimista, a maioria rejeita de cara a mensagem.

Em termos da emergência ambiental que nos encontramos, essa é uma forma eficaz de comunicar. Mas também tem suas limitações, como por exemplo pode deixar uma ideia de que a coisa está mais ou menos bem encaminhada, que tudo vai se resolver naturalmente sem muito esforço de cada um — nada mais distante da realidade.

Eu mesmo frequentemente experimento essa dissonância. Vivo em uma área bem natural, sem grandes problemas ambientais, e não acompanho de perto o noticiário, além das áreas de meu interesse. Como monge budista, minha rotina é como um retiro de meditação semiaberto. Mas de vez em quando paro para olhar melhor o que está acontecendo e, então, entendo bem porque muitas pessoas preferem virar a cara para as más notícias, principalmente nos dias de hoje. Nossa situação é realmente de chorar.

Alguns exemplos recentes restritos ao meio ambiente: Amazônia prestes a se tornar savana sem soluções realistas no horizonte, violência e abuso sistemáticos contra indígenas, diante da ameaça de racionamento de energia serão abertas usinas de carvão e gás, afrouxamento do licenciamento ambiental...

Há boas notícias aqui e ali, iniciativas isoladas, mas olhando com atenção podemos ver uma sistemática de destruição que vai seguindo imune à qualquer campanha — às vezes penso que o otimismo ingênuo desvia nossa atenção disso. O mais incrível é que isso é aceito como normal! Por exemplo, o fato de políticos abertamente governarem para beneficiar empresas destrutivas. Apesar de, no Brasil, isso ter se tornado um tipo de aberração grotesca, infelizmente não é um problema exclusivo de um político, ou ala ideológica.

Vida como mercadoria

Já passou da hora de reconhecermos a falência do modo como nossas sociedades operam: a lógica do lucro e exploração não se restringe ao balanço das empresas, mas mantém refém a política, destrói nosso ambiente e degenera nossas relações uns com os outros.

No livro "Economia Donut", a economista inglesa Kate Raworth cita alguns experimentos que demonstraram como valores sociais podem ser corroídos pela mercantilização da vida. Por exemplo, em uma experiência numa creche de Haifa, em Israel, foi instituída uma multa para pais que atrasam para buscar os filhos. A expectativa era que isso reduzisse os atrasos, mas no final aumentaram. Muitos pais passaram a ver essa multa como uma "tarifa de atraso", agora legalizado. Assim, deixaram de se preocupar com isso, preferindo pagar pelo "serviço extra".

Em outro experimento, em Bogotá, famílias de baixa renda receberam US$ 15/mês caso o filho adolescente frequentasse 80% das aulas e passasse de ano. Houve uma pequena melhora entre os participantes. Mas o resultado inesperado foi que entre parentes dos participantes, não selecionados para o programa, a taxa de abandono escolar subiu três vezes mais do que o percentual de melhora entre os participantes. Ao criar a ideia de que um estudante deve receber dinheiro para estudar, quem não recebe se sente desestimulado e desiste.

Em outro estudo, dois grupos foram questionados sobre como se comportariam em um cenário de racionamento da água, que precisaria ser dividida com vizinhos. Em um deles, as pessoas foram descritas como "consumidores". Em outro, como "indivíduos". Entre os "consumidores", mais pessoas se declararam indiferentes em relação aos vizinhos, ou seja, o simples fato de as pessoas verem a si mesmas como "consumidoras" as torna menos cooperativas e mais egoístas.

Esses exemplos demonstram como a lógica de mercado — hoje dominante em todos os aspectos de nossas vidas — não é algo neutro, mas que exerce uma influência decisiva em nossos valores.

Zumbis e alienígenas

Quando penso nisso, sempre me lembro de algo que ouvi em alguma palestra: por que filmes de zumbi ou invasão alienígena hoje fazem tanto sucesso? Desde criança, sempre gostei desses filmes. Mas, além das questões mais pessoais, será que sentimos instintivamente a ameaça de uma força estranha? Algo que pode extirpar nossa humanidade e nos transformar em sonâmbulos desfigurados, reduzidos ao canibalismo? Na verdade, nesses filmes, isso não é só uma ameaça, mas uma realidade com que se luta sem expectativa de vitória, restando apenas fugir.

Ou então há uma invasão não humana em todo planeta, com máquinas extremamente avançadas e tecnologias inimagináveis. Mas a motivação é a velha sede de lucro, de recursos naturais, dominação e poder. Explorar, matar e secar tudo. Então, lucrar — não é à toa que a forma dos invasores é sempre a mais abjeta possível.

Um gênero menos simbólico é o das distopias apocalípticas. É incrível como, hoje, filmes ou séries sobre futuros catastróficos e desastre ambiental se tornaram muito mais aterrorizantes. Isso já não parece ser mera ficção e está se aproximando cada vez mais das consequências de nossas ações e inações.

Em termos políticos e sociais, como poderíamos resolver nossas diferenças, ou polarização, na sociedade? É incrível, mas tomadas por medo e raiva, cada vez mais pessoas defendem opiniões que vão na direção do "paredão". É isso o que torna também os filmes sobre distopias fascistas insuportavelmente reais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL