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Mente Natural

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O reconhecimento da beleza para regenerar a vida

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Emersom Karma Konchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

21/02/2021 04h00

Como você se relaciona com a natureza? Há alguma interação com o mundo natural que te faz sentir contente por estar viva(o) na Terra? Coisas simples como a serenidade de poder sentar-se na grama sob a árvore, banhar-se na corrente gelada e rejuvenescedora da cachoeira, saborear a fruta já caindo madura no pé... Há momentos em que você se sente acolhido(a) pelo esplendor que é a própria vida?

Fiz-me essas perguntas recentemente ao facilitar um retiro de meditação para ativistas. Havia convidado uma amiga, a Polliana Zocche, para apresentar um sumário do que ela faz no Trabalho Que Reconecta, uma abordagem, da ativista e intelectual estadunidense Joanna Macy, que enfatiza os aspectos internos da conscientização ambiental e ativista.

Então ela apresentou essas questões a todos. Apesar de estar extremamente preocupado com a questão ambiental há alguns anos e de morar em uma área com muito verde, sempre que me faço essas perguntas — esse tipo de exercício também é feito em treinamentos do Extinction Rebellion, movimento que ajudo — chego em respostas meio genéricas, do tipo 'o verde, a natureza é algo muito inspirador', justamente as respostas a serem evitadas nesse exercício.

Como nos conectamos

Mas continuei pensando depois por um tempo e me lembrei de coisas que não trazia conscientemente à memória há décadas. Por exemplo, quando criança (talvez uns 8 ou 9 anos) perto de onde morava havia um pássaro que só aparecia muito de vez em quando, na área em volta de um lago. Tinha que ser uma época do ano específica, no final da tarde e precisava ter caído uma chuva intensa por um curto período.

Como esse pássaro tinha uma cauda alongada, seu voo parecia mais lento e digno. O canto era mais melodioso e tonal que o normal. Minha mãe me disse que se chamava Anú. Nunca procurei saber mais. Para mim, isso bastava.

Eles traziam uma qualidade mágica, como se fossem visitantes de uma terra encantada. Descobri que vinham comer os girinos que nadavam nas poças de água que se formavam na grama e mato em volta da lagoa, depois da chuva. Então eu ia lá também, feliz da vida em meio a esses visitantes raros, e colhia alguns girinos e água turva num copo de plástico.

Deixava o copo numa janela da cozinha e ia conferindo sempre. Após alguns dias ou bem menos, surgiam os membros pequeninos e, então, os soltava na lagoa.

Com os anos, o concreto foi se espalhando e tomando o lugar do verde. O lago foi cercado. Nunca mais vi os Anús. Antes, havia muitos sapos na área, incluindo sapos-boi do tamanho de uma bola de futebol de salão, que morriam esmagados pelos carros, e cujo couro grosso ficava ali estendido, torrado pelo sol no asfalto por várias semanas...

Não demorou para os sapos sumirem também (hoje 70% das espécies de anfíbios estão extintas). A gente cresce, a vida segue e vamos aprendendo outras coisas como sendo importantes. Mas essa é uma daqueles experiências e memórias que, mesmo que a gente não se lembre com frequência, define quem somos.

A natureza não é apenas essa beleza muitas vezes implícita — em que precisamos ligar os pontos — nos movimentos das plantas, céu, animais, terra e água. Está no ar que respiramos, na comida que ingerimos, na temperatura dessa delicada camada de gases que cobre a superfície do globo, finíssima em comparação com o tamanho do planeta.

Está também no sangue correndo em nossas veias, no brilho que ilumina nossos pensamentos, que não é diferente do brilho nos olhos do Anú.

Fim da natureza

Há 30 anos, o ativista estadunidense Bill McKibben escreveu sobre o "fim da natureza", em seu livro de mesmo nome. Como o clima é um aspecto que permeia todo o planeta, definindo as condições de existência de tudo o que vive, ele é como um tipo de 'éter', ou espaço contextual, da vida. Alterando-se o clima, alteram-se todos os padrões da vida. Vale lembrar que "clima" — o padrão atmosférico em longo prazo — não é o mesmo que "tempo", que são as condições da atmosfera em curtos intervalos.

Já no final dos anos 80 havia comprovação científica suficiente para estabelecer que o clima na Terra foi alterado pelo consumo e poluição em massa da civilização humana. Assim, um mundo "natural", intocado, não existe mais já há várias décadas. E a contaminação só se agrava.

Por exemplo, hoje está sendo estudada a onipresença do microplástico na Terra. Ainda não foi encontrado um local ou organismo que esteja livre disso. Está dentro de nossos cérebros, nos órgãos de insetos, na brisa que vem do mar e até nos ventos no topo do Monte Everest. "No oceano, em termos de massa, daqui a 30 anos, vai haver mais plástico acumulado do que seres vivos."

Evitar o sofrimento

Joanna Macy, a idealizadora do Trabalho Que Reconecta, durante seu ativismo nos anos 70 pela conscientização sobre os danos da energia nuclear, se deparou com a apatia do público em geral em relação aos dados alarmantes sobre as doenças detectadas nas proximidades de instalações radioativas, conforme contou Polliana durante a apresentação que mencionei no início.

Essa apatia não é diferente da que sentimos hoje, diante da ameaça da emergência climática e ecológica. Por que ignoramos, preferindo não olhar?

Porque dói. É terrível, além da capacidade que temos de lidar com o horror, já que em nossas sociedades vemos isso diariamente, em diversos outros níveis.

A própria palavra 'apatia', em sua origem, significa 'não sofrer'. É assim que tentamos lidar com essa dor: ignorando sua existência, virando o rosto. Ou seja, de certo modo, estamos todos engajados em fazer algo a respeito, tentando remediar e lidar com a situação, afinal somos todos a própria natureza, não há como escapar disso.

No entanto, apatia não é o método mais eficaz. Com cuidado e autocompaixão podemos acolher essa dor, que não é algo individual. Todos estamos sentindo e sofrendo, incluindo a própria natureza ou a vida maior que nos interpenetra. Acolher e reconhecer é a própria reconexão.

Esse é o primeiro passo para tentarmos interromper nossa automutilação como natureza, e começar o processo de cura e regeneração da biosfera. A motivação para fazer isso já existe, e nossa apatia acaba comprovando isso. Só precisamos de métodos mais construtivos.

Convite

Esta descrição de alguns aspectos do trabalho de reconexão e ação que a Joanna Macy e sua rede de colaboradores promovem vem puramente da minha experiência e pode não refletir exatamente a abordagem. Se quiser saber mais, a própria Joanna vai participar de um encontro online com brasileiras(os) agora em 25 de fevereiro, promovido pelo TQR Brasil. É uma boa oportunidade de saber porque ela é hoje um figura central no movimento socioambiental em todo mundo.

Errata: o texto foi atualizado
Originalmente a coluna tinha informado que no oceano, em termos de massa, já há mais plástico acumulado do que seres vivos. O correto é a previsão de que daqui a 30 anos, vai haver mais plástico acumulado do que seres vivos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL