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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A lida de escrever semanalmente (e ser lida)

Rawpixel/Domínio público
Imagem: Rawpixel/Domínio público
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

25/05/2022 06h00

Ser colunista me pegou de surpresa no meio do caminho. Sempre trabalhei com as palavras, escrevo poesia desde os meus 14 anos, hoje sou compositora e roteirista, porém em minha trajetória enquanto artista nunca havia me imaginado sendo colunista antes da possibilidade simplesmente aparecer. Meus poemas - por muito tempo guardados apenas para mim e poucos confidentes - eram meu refúgio. Meus roteiros e músicas foram se tornando meus outros meios de comunicação pela arte que não só meu corpo enquanto atriz e cantora. Agora, já há um ano convivo com o desafio de escrever semanalmente, me comunicar com milhares de pessoas por aqui e pesquisar, dentro e fora de mim, tudo aquilo que me soa importante compartilhar.

Ser colunista semanal é completamente diferente de compor um álbum musical ou um roteiro de um filme autoral, em que o tempo dessa elaboração corresponde ao ritmo da produção, mas muito — se não mais — ao ritmo da elaboração da vivência, do processo criativo em suas minúcias, construindo pedaço a pedaço em consonância com as experiências da vida e os aprendizados de estudos para os mesmos. Na lida da escrita semana a semana existe um tempo fixo, delimitado a ser cumprido, e isto gera em mim uma pergunta profunda e atenta a cada sete dias: O que está me atravessando hoje que é possível e importante de ser comunicado, de ser compartilhado publicamente?

Nunca tive o intuito em minha coluna de construir certezas. Na busca de ensaiar em meus textos aquilo que leio do mundo — assim como bem me ensinaram os palcos de teatro — mergulhei neste último ano na autoproposta de revelar não somente as minhas opiniões sobre os fatos, muito elaboradas pela minha experiência de vida, mas de colocá-las em xeque, me perguntar se são tão rígidas e tecer aqui com vocês as perguntas que me inquietam, mais do que as respostas que encontrei até o momento. A cada semana eu sabia que poderia repensar o que disse, reelaborar e talvez retornar ao assunto no futuro de outra forma, com outras perspectivas, visando construir um processo da experiência e da transformação, até porque de que me adianta querer comunicar o que penso, percebo, sinto para talvez transformá-los se eu não estiver aberta para ser afetada também?

Quantas dificuldades me encontraram nessa trajetória... por exemplo, quando escrevi "Meu filho(a) é trans. E agora?", uma das colunas mais difíceis para mim até o momento. Ainda não tinha conseguido reestabelecer uma relação saudável com meus próprios pais, e no intuito de informar me percebi escrevendo também para eles, buscando essa via de diálogo, e se ele ainda não me era possível, como poderia ser com outros pais e outras mães? Hoje nos encontramos num momento ótimo, talvez também influenciado por esta encruzilhada, mas o fato é que em um ano de escritas nesta coluna muito da minha — a vertebral — se transformou.

É tão lindo e ao mesmo tempo assustador observar este caminho. Lindo pelos frutos, pelos crescimentos que assisto em mim e nos retornos que recebo de vocês que me leem. Assustador porque somente eu sei onde me contorce sentar toda semana atrás de meu computador para pensar em vocês, em mim e buscar essa conversa quase sempre unilateral. Por vezes alguns comentários de ódio que surgem, outras vezes desinteresses de compreender o que está posto por esta travesti que vos fala, mas também muitos frutos que daqui nascem. Frutos em ideia, em entendimento, em reflexão sobre si e sobre o mundo. E mesmo aqueles que repetidamente insistem em destilar o ódio percebo que continuam me lendo e peço: continuem mesmo! Talvez em algum momento alguma destas palavras adentre a vida de vocês com um pouco de poesia, de beleza ou de potência de vida.

Se escrevo é porque estou viva, e se continuo me propondo é porque quero que cada vez mais permaneçamos aqui, de pé, atentas e abertas para as transformações do mundo que nos rodeia. Não é simples se deparar com opiniões que divergem da nossa — ou da que aprendemos ser a nossa — mas que exercício saudável é este. Vocês me soletram e eu me revelo, vocês se revelam e eu elaboro, eu elaboro e vocês se penetram. E nessa simbiose, à distância e por uma tela de computador ou celular, vamos nos conhecendo um pouco mais, seja vocês a mim, seja eu a vocês, seja nós todes ao mundo.

Às vezes não flui fácil, às vezes empaca, às vezes vem feito enxurrada, mas quem disse que seria simples? De toda forma agradeço aos que continuam me acompanhando e aos que chegam a cada dia, pois vocês são o motor que mantém essa escritora atenta e aplicada em seus conteúdos, para não lhes entregar nada raso, para não ser leviana, para não me deixar esvaziar de intenção em nenhum momento que vivo.

Ser lida é estar exposta para vocês constantemente. Cada palavra escolhida por mim e transformada pelas percepções de vocês é um labirinto. Mas não seria esse o grande desafio das relações humanas? É praticamente impossível ser compreendida em todos os detalhes, dado que a experiência de cada interlocutor é única e distinta, porém me resta o afinco de ser justa ao meu palavrar, às minhas intenções, para criar o mínimo possível de fumaça entre nós, para que minha voz seja o mais nítida possível, mesmo tentando falar em meio ao caos da rotina, da cidade, do excesso de informações que a internet nos entrega.

Talvez sejam até utópicos meus objetivos, mas se não fossem eu nem mesmo escreveria. Seriam apenas palavras rasas e mecânicas em busca de um salário que me cai bem. E para mim não é sobre isso — não apenas. Se sonho, quero que sonhem também, se sangro, quero que vejam, e se penso, quero que reflitam em seus cantos sobre cada detalhe, para que de alguma forma essa prática não seja mecânica, assim como também não seja a caminhada de vocês.