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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Homens

Veado na pintura de Sharkey (1909) em alta resolução por George Wesley Bellows - Original do Museu de Arte de Cleveland. Digital aumentado por rawpixel (domínio público)
Veado na pintura de Sharkey (1909) em alta resolução por George Wesley Bellows Imagem: Original do Museu de Arte de Cleveland. Digital aumentado por rawpixel (domínio público)
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

18/05/2022 06h00

Homens
Incomunicáveis
Implausíveis
Tão injustificáveis, inflexíveis
Em superficialidades indiscutíveis
Irredutíveis
Imutáveis
Mas quais homens?
Será que tão generalizáveis?
Qualquer um?
Desprezíveis?
Se fálicos, talvez sejam hábeis
Perceptíveis hábitos desamáveis
Mas e se transicionados, antes ditos femininos?
Aqueles uterinos que de tão maleáveis
Se perceberam masculinos
Mesmo estes, tão mutáveis,
Seriam também capazes
De recorrer ao mesmo destino?
Duvido deste cálculo
Tão distinto
Pois destinos calculáveis são aqueles dos meninos
mimados e engessados em seus falos
Resumidos aos seus caralhos
Suas faltas de tino.
Estes outros
Transmasculinos
Que recuperam seus passados
Seus tempos de girino
Onde muitos, violentados por um jugo feminino
Hoje prezam seus passos
Com vozes em desafino
- desatinos de processos hormonais -
Que geram filhos
Tios
Pais, avós e primos
Escolhendo outro nome
Retificando seus destinos
E não só geram, mas gestam
Meninas, menines, meninos
Dentro de seus corpos transmasculin(d)os.
Então como aproximá-los.
Tornar a palavra HOMEM
Tão podre de passado
Em algo mais delicado
Sem transferir este fardo para os homens uterinos?
Que continuam apagados
Silenciados
E agora punidos
Pelos males que os outros homens continuam produzindo
Sendo tão mal colocados como os próprios violadores
Estupradores
Desalmados
Violentos como os de falo, que só falam com os de seu lado
E estes outros meninos
Que do outro lado, buscam curar este ruído
Ainda mal escutados
Maltratados
Mesmo por aquelas mulheres que antes refletiam falso seu duplo
Semelhança na performance, mas estas cisgêneras
Afiadas em discursos também duros, improfundos
Radmemes que rascunham seus ódios sem mira
Que por mais corretas em alguns fundos
Fundamentos oriundos da história
Ainda falta memória e futuro
Para que olhem para os homens
Sem rascunhar seus escuros
Seus espaços menos visíveis
E não tornem risíveis seus próprios valores
Ou odiosos seus escudos
E angariem nos outros modos
Nos outros homens do mundo
Aquilo que o fálico não tem
Sabendo de onde vem todo o ódio
De quem outro dia era o oposto
E agora tão aproximado
De sua imagem e semelhança.
Toda essa discrepância
Essa desavença
De homem
- mas não de algoz -
Possa tornar feroz
O grito ao que ainda fere
E estes que também feridos
Que gritam, mas agora com barba
Sejam também abraçados
Para não afogarem na praia
De uma comparação cis e rasa
Por traços de Deposteron.