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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pink money e a cooptação da luta LGBTQIA+ no mês de junho

Getty Images/iStockphoto/Arte/UOL
Imagem: Getty Images/iStockphoto/Arte/UOL
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

07/07/2021 06h00

Mês de junho finalizado, mas nos cabe avaliar se foi "com sucesso" assistindo como está se dando e como se dará a atuação das marcas e grandes empresas que se posicionaram a favor da diversidade - no "mês do orgulho" - que adotaram a bandeira colorida em seus perfis de redes sociais e propagandas de televisão durante os próximos meses. Ou será que apenas em junho de 2022 que veremos esse apoio acontecer novamente?

É sabido que todos os anos no mês de junho marcas de variados seguimentos resolvem se posicionar em prol da luta das pessoas LGBTQIA+, e isso é de extremo valor - simbólico e monetário - para nós que vivemos uma constante exclusão do mercado de trabalho e temos nossos direitos básicos negados na sociedade, principalmente as pessoas trans e não-brancas pertencentes à essa população.

Poder assistir à publicidades na grande mídia com pessoas LGBTQIAP+, além de uma atitude importante para a naturalização das nossas vivências - nos levando até a casa de famílias do Brasil inteiro com um olhar que positiva nossas existências - é o cumprimento da dignidade de retratar a sociedade em sua pluralidade, nada além disso. Retratar a diversidade de gênero e orientação sexual, mais do que uma luta política, é retratar o mundo em sua realidade. O problema é que, geralmente, assistimos às grandes empresas tomando essa iniciativa apenas durante um único mês do ano: o mês de junho, vulgo "mês do orgulho".

Passa o mês e tudo volta a ser como era antes. As bandeiras coloridas desaparecem, as contratações de profissionais LGBTQIAP+ diminuem drasticamente e toda a festa em cima das nossas vidas torna a ser a luta diária pelas nossas existências - mas aí, de julho à maio, por nossa própria conta e risco.

Já conhecemos há tempos o famoso "Pink Money", termo usado para nomear o lucro que empresas majoritariamente cisgêneras e heterossexuais arrecadam por "apoiar" a nossa luta. A cada dia que passa tem se tornado mais relevante que as marcas se posicionem em relação às questões raciais, de gênero, de classe. As pessoas têm passado a escolher quais produtos comprar não apenas pela qualidade da mercadoria, mas pelo posicionamento da empresa e pelas ações sociais e ambientais que ela apoia e se alia. Porém, como o capitalismo é excepcional em transformar vidas em dinheiro, diversas vezes essa aliança se dá apenas no marketing e pouco, ou quase nunca, na ação.

Não vou dizer que não existem marcas que de fato contribuem com as nossas lutas e existências recorrentemente, mas a proporção em relação às que apenas lucram com esse discurso é muito pequena. Várias dessas empresas - as adeptas do Pink Money - nem mesmo contratam profissionais LGBTQIA+ fora do mês do orgulho ou, se contratam, muito raramente é para assumirem cargos importantes e de decisão dentro das mesmas, sendo mantidas em funções subservientes e/ou de estágio.
Aí vocês me perguntam: mas as empresas devem contratar só porque essas pessoas são LGBTQIA+? Não deveriam contratar pela capacidade técnica de assumir determinado cargo? Para isso temos que observar alguns pontos importantes:
Em primeiro lugar, sim, vocês têm toda razão, e nós temos diversas pessoas dissidentes sexuais e/ou desobedientes de gênero completamente capazes de assumir vagas de todo e qualquer tipo na nossa sociedade. Nesse caso, a não contratação acaba se dando única e exclusivamente por não serem heterossexuais, não serem cisgêneras e assim por diante.

Em segundo lugar, olhando para a realidade das pessoas trans principalmente - dado que é a população mais marginalizada na nossa sociedade - temos um índice de abandono parental altíssimo na faixa dos treze ou catorze anos (nesses casos vale ressaltar que o Estado não costuma punir esses pais pelo abandono de incapaz, que é crime. Mais uma camada da transfobia institucional). Também é muito grande o índice de evasão escolar nessa idade por conta da transfobia, que culmina em constante violência física e psicológica por parte de alunes e profissionais da rede de ensino. Sendo assim - e vou parar por aqui nos dados, porque são muitos mais - a necessidade de apoio, estrutura e capacitação técnica é um ponto extremamente necessário a ser discutido também.

No mundo capitalista é muito raro vermos empresas dispostas a capacitar profissionais, dado que isso gera gasto, porém, em relação ao lucro investido por elas em ações e fundos, isso poderia ser realizado sem causar prejuízo algum, dado que nesses casos é comum utilizarem apenas o lucro líquido desse dinheiro investido para ações sociais ou de outras demandas.

Por outro lado, existem ONGs que já realizam esses trabalhos de capacitação, construindo de diversas formas a autonomia junto à essas pessoas mais marginalizadas, porém estas instituições precisam de apoio financeiro recorrente para se manterem e darem continuidade nas suas ações.

Enfim, retornando ao Pink Money, é preciso que nos mantenhamos atentes e saibamos muito bem até onde é marketing e quem de fato transborda o lucro, gerando emprego, renda e possibilitando dignidade na vida das pessoas mais excluídas do mercado de trabalho. Em abril desse ano pudemos acompanhar no estado de São Paulo a mobilização de inúmeras empresas contra a PL 504, que proibia publicidades com conteúdos relacionados à diversidade de gênero e de sexualidade direcionadas às crianças e adolescentes. Isso é essencial para a força do nosso movimento, tanto que conseguimos barrar, junto às movimentações internas de nossas deputadas na assembleia legislativa e da população em geral, esse projeto tão pernicioso baseado em puro preconceito. Mas mais uma vez, após essa ação pontual - que, mesmo sendo de cunho político, também gerava visibilidade, ou seja, "moeda social" para as empresas - onde foram parar os apoios recorrentes?

Pudemos assistir nas últimas semanas ao caso do apresentador Sikêra Junior, que por falas homofóbicas em seu programa vem perdendo diversos dos seus patrocinadores. Uma atitude justa e digna dessas empresas, dado que é inaceitável continuarem a monetizar um profissional que utiliza de seu espaço na mídia para disseminar o ódio, porém não podemos esquecer que essa cessão dos apoios também acontece porque as marcas, hoje, que se vinculam à esse tipo de discurso correm grande risco de queda em seu faturamento exatamente pelas medidas da "moeda social" citada acima. Felizmente tem se tornado cada vez mais prejudicial aos negócios apoiar o preconceito, e sabemos bem que certas coisas só mudam quando apertam no bolso.

É de suma importância que nossas vidas não sejam lembradas apenas em um mês do ano. Nós somos quem somos todos os dias de nossas vidas. Pagamos contas, comemos e precisamos sustentar a nós e aos nossos. Simbolicamente é valoroso sim que tenhamos um mês no qual nos dedicamos à cultura e às pautas LGBTQIA+, assim como o mês da consciência negra, o mês da mulher... mas tudo ainda é extremamente insuficiente e, por se pautarem no lucro, tudo se torna superficial.

O tiro sai, muitas vezes, pela culatra. O que deveria ser para apoiar, pela ansiedade do cumprimento da "festividade" - que na verdade é sobre nossa luta, nossas vidas - ignora-se todo o conhecimento e o valor de nossas ações individuais e coletivas. Marcas e empresas tentando inventar o "novo", sendo que esse novo já foi reinventado e hoje já está ultrapassado. E assim, sem obtermos a escuta necessária sobre o que já estamos construindo, sem apoiarem efetivamente o que já está em movimento pelas nossas próprias mãos, acabam cooptando nossas existências para mais uma vez se tornarem protagonistas de uma história que não vos é cabível.

Portanto, não critico aqui as ações existentes, muito menos reclamo das publicidades que nos humanizam, nos valorizam e nos catapultam para uma sociedade mais igualitária e menos preconceituosa e intolerante, mas clamo pala atenção de vocês, sejam consumidores ou donos de grandes empresas. É preciso escutar antes de agir quando não se trata de uma vivência que te perpassa. É preciso observar o que já está acontecendo e apoiar, para que nós sejamos protagonistas das nossas próprias histórias e conquistas. Aliar-se é andar junto, é fomentar, é se responsabilizar por aqueles e aquelas que não vivem uma experiência individual como a sua própria, mas não crer que por estar perto se torna um de nós.

Assim, com cada qual em seu devido lugar de valor, olhando juntos para o que importa - nossas vidas, nossa prosperidade coletiva - conseguiremos talvez avançar com mais força em direção à uma sociedade mais justa. Não é sobre assistencialismo, mas sobre cooperação, sobre olhar para as nossas existências sem um olhar hierárquico, como se fossemos menos importantes. Somos mais marginalizadas, mas nunca fomos menos do que ninguém, pelo contrário, se hoje continuamos vivas e nos organizando é porque somos mais fortes e potentes do que vocês jamais imaginaram. Nós precisamos de vocês, mas podem ter certeza que vocês também precisam de nós para construir seus futuros!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL