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Cansei de ser incrível!

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Marina Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

01/08/2020 04h00

Hoje quero falar sobre um tema que me interessa bastante: relacionamentos. Recentes experiências me inspiraram a falar o que preciso hoje.

Há alguns meses, questionei o fato de o amor ser relegado a um papel de fetiche ou de curiosidade, ou mesmo negado, entre as pessoas LGBTI+, e em especial às pessoas trans. E estamos sempre nesse círculo vicioso de falsidade nas relações afetivas.

Especificamente em se tratando de abordagens de homens cis a mulheres trans (lembrando sempre que pessoas cis são aquelas que se conformam com o gênero que lhe foi designado no nascimento, enquanto que pessoas trans não se sentem à vontade com ele), tenho visto apenas duas reações comuns: a primeira é a de fervorosa rejeição, com a troca de absurdos e palavras vergonhosas que machucam quem ouve; a segunda é a daquela pessoas que diz não se importar, finge interesse, mas na verdade só vê a mulher como um objeto para satisfazer sua "curiosidade", a usa e, depois que consegue o que quer, a joga fora. Pura chacota!

Existe um meio-termo, menos comum, mas não menos problemático: a pessoa cis trata a pessoa trans como incrível, apenas como pretexto para colocá-la em seu lugar: o da indisponibilidade de desejo. A mulher trans sempre será a pessoa incrível, a pessoa legal, a amiga; mas nunca a pessoa dos sonhos de um homem cis. Eu, particularmente, já me cansei de ser considerada incrível. Não preciso que outra pessoa aponte as minhas qualidades, porque já as conheço. O que me dói é esse uso das qualidades para justificar que a atitude do outro não é igualmente preconceituosa e ridícula.

Há pessoas complicadas e há pessoas apenas malandras. Em outro texto apontei que precisamos entender que tipo de relacionamentos nós queremos. A sinceridade nas relações evita que uma das partes se iluda ou fique esperando algo que aquela relação não pode oferecer.

Lembro de um debate recente entre algumas colegas sobre conversas em fóruns de homens cis que procuram programas com travestis, e muito me intrigou que um homem fazia um guia de como enganar uma travesti para conseguir sexo de forma gratuita: basicamente fingir que estava interessado, aproveitando-se dessa carência das mulheres trans. O nojo que este tópico me deu foi tão grande que só me pergunto quando os homens (especialmente os cis) se tornaram pessoas tão lamentáveis a esse ponto.

Entre os cacos que vamos recolhendo de tantas ilusões partidas, só posso esperar que aquelas pessoas que ainda têm um pouco de vergonha na cara possam se tocar de que não vale manipular sentimentos de outras pessoas e muito menos enganá-las porque se está passando por um momento complicado. E que as intenções devem ser plenamente acordadas e discutidas para evitar desilusões e confrontos.