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O direito de consertar

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

30/08/2020 04h00

Era uma vez uma maçã. A maçã era a marca de um computador. Esse computador era fabricado por uma empresa de garagem que um dia virou uma grande empresa, líder de mercado, porque um moço que trabalhava lá, depois de muito pesquisar e inventar, teve uma ideia brilhante: fazer com que trambolhentos telefones celulares transformassem-se em pequenos objetos lindos e brilhantes que além de fazer ligações, dariam conta de ser também uma câmera, um mini computador com acesso à internet e e-mails; fosse uma calculadora, uma fita métrica e mais uma porção de coisas que daria conta de preencher boa parte deste espaço aqui.

A mudança que o telefone celular trouxe foi revolucionária e fez com que ficássemos todos nós, um pouco reféns desses aparelhinhos (em tempo de quarentena, diria inclusive que seria possível retirarmos o "um pouco" da frase).

O celular é o campeão de trocas na categoria obsolescência programada (aquele nome difícil para a prática de trocar produtos ao invés de consertá-los por impossibilidade ou alto custo). Em média, as pessoas ficam com ele 2 anos, depois trocam em busca de uma melhora na câmera, um espaço maior de armazenamento, uma nova cor, um novo modelo. Juntinho do celular, entre os vencedores na categoria obsolescência programada, estão os computadores.

A Apple (maçã em inglês) tem muitos casos com a obsolescência programada. Eles já sofreram processos por ficar comprovado que a os modelos antigos de celular ficam lentos ao longo do tempo ou que a bateria é realmente feita para durar pouco. Um dos primeiros produtos de sucesso deles, o ipod (tocador de música), teve até arte em sua homenagem! Em 2003, um consumidor indignado, aplicou uma frase por cima dos cartazes do produto por toda a cidade de Nova Iorque revelando que a bateria do ipod durava apenas 18 meses. Disse arte porque os cartazes do ipod eram bonitos, tinham uma espécie de silhuetas de pessoas pintadas em cores escuras dançando num fundo, também escuro, com seu ipod bem branco destacado; e ele aplicou por cima das imagens, numa letra bem bonita e também branca, a informação de que essa felicidade toda não duraria para sempre. Da maneira como o ipod era feito, tudo coladinho e soldadinho, a única possibilidade quando a bateria pifasse, era trocar todo o equipamento. Apesar da história ser antiga, até hoje problemas desse tipo acontecem com produtos dessa marca (mas não é uma exclusividade deles; isso acontece com todos os campeões de obsolescência programada, independentemente de sua marca). Vale dizer que produtos com mais de 5 anos de vida, na Apple, figuram na categoria vintage (velho em francês). E eu te pergunto: você comprou um telefone ou um computador caro, 5 anos é pouco, não é não?

Mas eis que do outro lado do ringue, surgiu uma empresa chamada iFixit, que numa tradução livre seria "eu conserto isso" para romper esse circulo vicioso do compra-usa-descarta. Na home de abertura do site deles lê-se uma espécie de lema: "guias de reparo para tudo, escrito por todos". Ao longo do site, encontram-se outras frases do tipo (além de um manifesto), das quais destaco uma que responde a última pergunta do parágrafo anterior: "você comprou, você deve possuí-lo. Ponto. Vamos recuperar nosso direito de usar, modificar e reparar como quisermos. Defenda seu direito de consertar."

Esse "i" na frente, seria o sujeito "eu" (em inglês), e "fix it", conserto. O "i" é também uma provocação com os nomes dos produtos da Apple, que levam sempre "i" na frente: ipod; iphone; iMac. Com essa classificação dos produtos como vintage, após 5 anos de uso a Apple (ou as empresas de maneira geral) se isentam da obrigação de consertá-los, o que manifesta também seu pouco interesse em fazê-lo. Então meu amigo, depois dos 5 anos, a coisa é com você. Não tem mais peça, não tem mais conserto, vire-se. Ou tem, mas custa caro e a chance de você preferir comprar um novo é altíssima. E a ideia é meio essa mesmo. Mas aí é que entra a coisa maravilhosa dessa empresa. Ela vende peças e ferramentas para te ajudar na missão de consertar seus equipamentos e mantê-los com você além desses 5 anos. Então, se a Apple faz um parafuso cuja cabeça não é allen ou phillips (formatos padrão), mas é específica pra aquele computador e não tem chave no mercado, iFixit vai lá e faz uma pra você poder abri-lo consertá-lo. E você compra todo um kit com o que precisa para reparar seu equipamento, podendo também assistir um tutorial no Youtube com todas as informações necessárias para usar as ferramentas compradas. Eles também disponibilizam no site uma tabela em que classificam celulares e computadores por sua reparabilidade; ou seja, eles dão notas para a "consertabilidade" dos aparelhos pra te ajudar na hora da compra.

Esse site e marca são americanos, mas ilustram a lógica da obsolescência programada, como as soluções que vão surgindo para quem não concorda com ela. E sempre que eu me deparo com essas coisas, me pergunto se não seria mais simples (e honesto), as coisas já serem fabricadas com o intuito de serem reparadas ou atualizadas. Todo mundo sabe que temos saltos grandes de tecnologia, e isso é lindo! Mas será mesmo que não é possível criarmos soluções para as atualizações dos equipamentos? Será mesmo que não dá pra pensar na bateria como algo que possa ser recarregado ou substituído? Ok, ingenuidade da minha parte talvez, afinal, ganha-se mais vendendo mais coisas todo o tempo, não é mesmo? Mas será mesmo que ganha-se mais? Ou só não se contabiliza o que pagamos todos nós de outras maneiras? Por que pago eu e você, mas o dono da Apple também, afinal vivemos todos sob a mesma camada de ozônio (ou sem ela), não?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.