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Lia Assumpção

Prevenir é melhor do que remediar

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

08/11/2020 04h00

Tem uma coleção de livros de uma editora que já fechou e que se baseou no tamanho da folha gráfica para definir o tamanho dos livros. Folha gráfica é jargão para falar da folha de papel virgem, que você compra da empresa que produz papel. Pois é, ela tem lá um formato que você sabe quando compra e pode ver se o que você quer fazer (um livro por exemplo) cabe naquele formato ou não. A outra opção é você partir desse tamanho para definir o tamanho do seu livro. Foi o que aconteceu nesse projeto.

Quando você compra sulfite no mercado, ele tem aquele formato retangular chamado A4. Então, digamos, se você decidir que vai fazer um projeto e que vai ser quadrado, para aquele retângulo virar quadrado, tem ali um barrado que vai pro lixo. E no mundo do consumo consciente, a gente quer evitar ao máximo qualquer geração de lixo, não é mesmo? No mundo do design, é possível seguir a mesma lógica e, se você for parar para pensar, isso pode ser aplicado em tudo no que diz respeito à produção de coisas.

Se você é marceneiro, por exemplo, e vai fabricar duas mesas que seu cliente te encomendou. Uma placa de compensado tem aproximadamente 2,20 x 1,60m, e ele te pediu duas mesas medindo 1,20 x 1,60m. Se a placa fosse cortada exatamente na metade ela daria duas mesas de 1,10 x 1,60m; são 10 cm de diferença que vão fazer com que você tenha que comprar 2 placas em vez de uma para a produção das mesas. Tudo bem que se você usa esse material com frequência, ainda sobra bastante coisa para futuros projetos, mas vai que você conheceu o espaço onde as mesas serão colocadas e percebeu que esses 10 cm não farão tanta diferença assim? Nesse caso, vale uma conversa e possível readequação do projeto, afinal, o valor final das mesas vai acabar sendo mais barato por conta da economia de material, não?

Tudo bem, talvez eu tenha me envolvido demais com os problemas de matemática das lições do meu filho do fundamental 1 esses dias porque ficou parecendo um problema de matemática, não? Tudo bem também que é uma situação hipotética e na vida real existem outras variáveis além da medida. Mas o que quis dizer com o exemplo é que dá para a ideia de economia de materiais estar presente em todas as partes do processo produtivo, seja ele em grande escala ou em escala reduzida.

É um pouco que nem a meia colher de feijão que às vezes sobra na minha casa e que me faz enlouquecer: ela não é suficiente para fazer um feijão para uma família de quatro e ela não faria a menor diferença se a gente tivesse cozinhado junto com a última leva de feijão da semana passada e que poderia ter tipo porções um pouco menores ou maiores congeladas.

No caso dos livros ou do exemplo do marceneiro, a ordem dos fatores altera levemente o produto e significativamente os seus resíduos. Isso quer dizer que o livro vai ser sempre o livro, não importa se ele vai ter 11 cm ou 12 cm de largura (está bom, altera a cara dele, mas ele não deixa de ser um livro), assim como a mesa vai ser sempre a mesa, mesmo que tenha 10 cm menos. Mas pensar na matéria-prima enquanto se pensa no produto impacta diretamente o resíduo gerado.

É que nem o meu feijão, não muda muito a porção ser um pouquinho menor ou maior, mas aqueles grãozinhos sem par, são um pouco que nem esses toquinhos de madeira que sobrariam da mesa ou as resmas de papel que sobrariam do livro: desnecessários.

Tudo bem também que você sempre pode juntar o feijão que sobrou com um novo que virá, assim como você pode também usar os restos de madeira em novos projetos mas a ideia aqui um pouco é parecida com o ditado: prevenir é melhor do que remediar. Quanto mais conseguirmos prevenir a geração de resíduos, menos teremos que lidar com eles por aí. Por isso a importância de pensar sistemicamente. Seja na geração de resíduos (ou a não geração), ou em seu manejo. Em outras palavras, se forem ocorrer sobras, o interessante seria termos já pensado uma destinação para elas. Se pudermos não ter sobras, tanto melhor.

Essa mesma lógica pode ser aplicada no consumo e poderia se enquadrar na primeira pergunta a ser feita se você quer praticar um consumo mais consciente: por que comprar? Ou quanto comprar? Porque se corre o risco de sua compra toda, ou parte dela, sobrar e (ou) virar lixo, evite.