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Lia Assumpção

O dia em que o pause e o play viraram o mesmo botão

A tecnologia deve ser usada com parcimônia, crítica e responsabilidade - IStock
A tecnologia deve ser usada com parcimônia, crítica e responsabilidade Imagem: IStock
Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

15/11/2020 04h00

Meu irmão me perguntou outro dia quando eu deixaria meus filhos terem celular. Digamos que ele antecipou um assunto que eu sei que vai bater na minha porta daqui uns 2 anos, quando meu filho fizer doze ou treze anos. Fiquei com vontade de responder "nunca" (risos), mas minha resposta foi "o mais tarde possível". Ele debochou um pouco de mim e disse que com isso eu estaria privando eles de uma parte grande da vida social deles.

Tempo para pensar.

Lembrei da frase do pediatra deles que me guia a respeito da política de telas: primeiro eles entendem que existe mundo real, depois eles podem passar a entender que existe mundo virtual. Tem aí uma hierarquia que eu tento seguir e que também tem relação direta com a maneira como fui educada assim como a época em que fui educada. Mas, eis que meu irmão, de novo, me deixou sem resposta: as tecnologias e internet fazem parte da vida de todos nós de um jeito que não acontecia quando você era criança.

Tempo para pensar 2.

Lembrei de um amigo que tem uma teoria que é a seguinte: todo mundo uma hora perde o salto da tecnologia. Quando você perde ele, é que nem perder um degrau de escada, fica mais difícil de chegar no seguinte e mais fácil de perder os que vem depois dele, fazendo com que uma hora, crie um espaço tão grande que não é mais possível subir a escada. No caso do pai dele, foi na hora em que o botão de play passou a ser mesmo do stop. Aquilo modificou a lógica de uso dos aparelhos de som, que antes tinham um botão pra cada coisa: um coloca a música para tocar, o outro faz ela parar. Esse mesmo botão depois abarcou o liga e desliga, estendendo-se para outros equipamentos e modificando a lógica como usamos os aparelhos. Se num primeiro momento isso foi uma novidade, depois passou a ser o dado de onde se parte para qualquer coisa que segue sendo modificada. No caso da tecnologia, se você desiste desses saltos quando ainda falta bastante para você viver, pode colocar o moletom e ficar em casa que a vida vai se complicar e você não vai mais conseguir subir a escada. Na verdade, a teoria dele é que mesmo que você não entenda direito, tem que seguir. Tem que se forçar a assimilar que o play e o pause agora moram juntos; tem que fazer parte da rede social mesmo que você não entenda muito bem porquê. Não pode deixar distanciar muito do que você entende, se não a tecnologia te abandona ali. De modo geral, costumo pensar que tudo pode com moderação. Isso serve para doces e televisão, e também servirá para o celular, mas fiquei pensando se esse meu pensamento meio analógico meio digital seria o ponto em que eu vou ficar pra trás; se seria o meu botão de play/pause.

Todos assistimos saltos tecnológicos o tempo todo, faz parte do tempo passar, não? Não foi diferente comigo: o disquete preto e mole do computador com letras verdes na tela preta foi uma alegria quando apareceu lá em casa junto com a impressora que tinha aquele picote de bolinhas nas laterais; mas fiquei aliviada quando chegou a tela de tubo com tela branca e cores! Quando morei fora, me comunicava por cartas que demoravam uma vida pra chegar mas, vez ou outra eu mandava um e-mail (e eu pagava por hora para usar um computador num lugar cheio de computadores conectados na internet, ouvindo o barulho da conexão discada. Agora ficou nostálgico, hein?).

Ele me disse que as gerações dos meus filhos nasceram imersas na tecnologia e na internet, que eu devia pensar nisso.

Pensei no meu avô de 98 anos que viu a copa de 50 e que demorou um não sei quanto de dias para ir do interior de São Paulo para o Rio de Janeiro praticamente de charrete. Pensei nas diferenças entre gerações e nessa estranha sensação de ver como era e como será.

Eis que a conversa terminou com o pensamento de que vai chegar uma hora que pessoas como eu, que testemunharam a chegada da internet não existirão mais (tenho uma amiga que sempre diz que ela trabalha com internet, desde que a internet era tudo mato). Fiquei pensando em lugares que frequento desde criança e que não tinham internet até o mês passado (sempre adorei a impossibilidade de usar o telefone por um período maior de tempo). Pensei nesses lugares um pouco como eu e fiquei imaginando se eles todos sumirão um dia também. Fiquei pensando na dor e na delícia de quando a cobertura 5G chegar e tudo estiver coberto e conectado.

Um dos meus mentores diz que as inovações tecnológicas modificam todo o aparato tecnológico vigente em períodos cada vez mais curtos, reconfigurando o universo de possibilidades e de expectativas "tornando-o cada vez mais imprevisível, irresistível e incompreensível. Numa sociedade marcada pela velocidade (de transformações e de troca de informações), a questão que se coloca diz respeito às consequências que estas transformações acarretam na sociedade. "A crítica, portanto, é o modo de a sociedade dialogar com as inovações, ponderando sobre seu impacto, avaliando seus efeitos e perscrutando seus desdobramentos".

De uma certa maneira, o que ele está querendo dizer é que devemos usar a tecnologia com parcimônia, crítica e responsabilidade; um pouco na mesma linha da televisão e dos doces ali em cima. E isso também quer dizer que temos que sempre ter em vista os degraus; tanto os que já subimos, assim como os que ainda subiremos. E talvez essa escada não seja assim tão linear e possamos escolher as direções a tomar.

Ainda que a conversa tenha sido frutífera, sigo no propósito de demorar um tanto para integrar o celular na vida deles, correndo o risco de adiar (não privar) eles dessa vida social virtual, o que pode ser bom ou ruim. Digamos que isso talvez aconteça antes do que eu gostaria e depois do que eles gostariam. Isso porque, apesar de entender que vivemos em um presente tecnológico/virtual muito forte, acho que faz parte eles entenderem também de onde vem. Faz parte do que eles são, serem filhos de pais que viveram uma parte da vida sem computador, sem celular e sem internet (pensando hoje é inimaginável, quase triste, não?). Assim como, se um dia ele tiver filhos, eles nascerão nessa cobertura total, o que fará dele um pai que viveu num tempo em que não tinha 5G e que tinha pais que viveram num tempo em que não tinha nem internet. Vida que segue.