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O lixo é um problema de design, mas não só

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

18/10/2020 04h00

Se você parar pra pensar, tudo — ou quase tudo — que nos rodeia, foi desenhado. Tem uma passagem de um livro em que o cidadão descreve o começo do dia de outro cidadão: a pessoa acorda, levanta da cama, escova os dentes e senta-se para tomar um café com leite. Todos os itens listados na ação foram, necessariamente, desenhadas: cama, pia, escova de dentes, cadeira, mesa garrafa térmica e xícara; eventualmente, até a toalha que a pessoa usou para secar a boca depois de escovar os dentes, a toalha de mesa em que a xícara foi apoiada ou a colher usada para misturar o café com leite, também foram desenhadas. Isso sem falar nas embalagens da pasta de dentes ou do leite que foi colocado no café.

Mas fato é que os objetos são desenhados por designers, mas não só por designers. E designers muitas vezes trabalham em empresas ou para empresas.

Do começo: designer é sim uma pessoa que desenha coisas (de maneira bem geral, hein?). Cursei desenho industrial que, como o próprio nome diz, tem o desenho com foco na produção industrial. Tive colegas que queriam desenhar carros; outros que queriam desenhar panelas, móveis, logos e revistas… Tinha de tudo. Eu mesma desenhei uma vitrola, como contei na primeira coluna que escrevi aqui, exatamente um ano atrás. Tem uma discussão a respeito da tradução da palavra design, muitas vezes traduzida como desenho. Na língua original, porém, ela tem uma caráter mais amplo de projeto, em que o desenho é uma das partes.

E na verdade, essa é mesmo a raiz dessa profissão. Ele começou a existir quando estabeleceu-se um processo produtivo de um objeto, ou seja, que não fosse uma pessoa só que fizesse o objeto todo (estamos falando de um tempo remoto, em que não tinha internet, nem avião, nem plástico e nem o conceito de sustentabilidade, tá?). De acordo com o Adrian Forty, esse desmembramento do processo produtivo, que é a origem do design, começou a ser aplicado em potes de cerâmica. Se antes cada artesão fazia seu pote do começo ao fim, em algum momento, teve alguém que virou, digamos, o empresário dos potes. Alguém que entendeu que seria mais produtivo e lucrativo vender potes por meio de um catálogo ao invés de levá-los em sua charrete de casa em casa. A coisa é que para o pote de cerâmica ser igualzinho (ou muito parecido) ao do catálogo, não daria para ele ser feito por um artesão só porque cada artesão tem um jeito todo seu de fazer o pote. A solução para garantir uma semelhança ao catálogo foi estabelecer etapas de produção: um molda, outro finaliza, outro queima, outro pinta. Isso tudo de acordo com parâmetros específicos de cada etapa e sim, um desenho — o mesmo do catálogo. Teoricamente, o encarregado de estabelecer essas etapas todas para garantir a semelhança com o catálogo, originou a profissão que conhecemos hoje como design.

O design passou a ser associado à estética — e não mais à função ou sistema — ali na década de 40, quando a obsolescência programada ganhou corpo e o pessoal descobriu que a cara das coisas podia influenciar consumidores em suas compras (obsolescência programada, lembrando: nome difícil para algo corriqueiro nos nossos hábitos de consumo; trocar produtos ao invés de consertá-los pela impossibilidade ou alto custo do reparo. Celular? Computador? Alguém?). Tem um autor que fala que nessa época, passamos de um design voltado para o produto para outro voltado para o consumo. Claro que isso não acontece isoladamente, está contextualizado ou acompanha uma mudança na sociedade: se antes éramos consumidores, passamos a ser consumistas. Então, para agradar o cliente — mas não necessariamente satisfazer necessidades reais — desenha-se de determinado jeito. Uma das ideias da obsolescência programada é despertar desejos nos consumidores que antes não estavam ali e renová-los de modo a garantir um consumo repetitivo.

Então, voltando: objetos são desenhados por designers, mas não só por designers. Em grandes indústrias, o design é hoje um dos muitos departamentos pelos quais um produto passa para ser desenvolvido. Engenharia, logística, marketing, financeiro são alguns que me vem em mente no momento em que penso, por exemplo, em uma embalagem de refrigerante. O designer talvez pense em várias etapas, mas não está nunca sozinho. Para pensar no desenho de garrafas, por exemplo, ele tem que conversar com o pessoal da fábrica (talvez alguns engenheiros); no rótulo, ou em como ela vai ficar na gôndola do mercado, segue diretrizes do pessoal do marketing; como ela vai ser empilhada para o transporte, talvez ele tenha que falar com o pessoal da logística que pensa no peso do material usado; muitas vezes, existe um departamento de sustentabilidade dentro das empresa, que também colabora na escolha de materiais e estratégias… E isso tudo em algum momento também vai passar pelo pessoal dos custos…

Enfim, é uma operação complexa e do que converso por aí, o design muitas vezes está lá no final da cadeia, não no começo ou no durante. Ao invés de participar de todos os processos ou pensar nesse sistema todo, muitas vezes incumbido fica no fim dele, somente de "dar uma cara" para produtos. Então, como o lixo pode ser um problema de design, se o design apita muito pouco no que diz respeito a processos produtivos?

O lixo poderia até ser um problema de design, se o design tivesse esse poder de decidir coisas… Minha versão para a frase do título poderia ser: o lixo é um problema de projeto. Porque quando um projeto é desenvolvido considerando TODA a cadeia da vida deste produto, incluindo a produção, comercialização, descarte e reutilização/reciclagem, ele não vira lixo. Na verdade, ele não vira lixo, se a premissa que guia esse projeto for de sustentabilidade (aquela real); e isso quer dizer que TODOS os departamentos (engenharia, logística, marketing, financeiro) deverão trabalhar nessa direção e estar comprometidos com questões de sustentabilidade (aquela verdadeira, não a que é um nome bonito que atualmente ajuda a vender produtos).

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PS: Falei de alguns livros aqui hoje e adoro a evolução dos seus nomes; eles ilustram essa contextualização do design com o momento atual. Escrevo eles aqui nesse adendo (deixando de fora uns tantos que falam de economia circular, mas que não tem essa ligação de títulos), caso alguém queira se aventurar: Design para negócios (1947); 2. Design para o mundo real (1971); 3. Design para a sociedade (1993); 4. Tem ainda um - o único brasileiro — que apesar de não ter citado hoje aqui, dialoga com eles num contexto mais contemporâneo: Design para o mundo complexo (2012).

Se um dia o design ajudou a vender produtos, pode hoje ajudar a não gerar lixo, isso é verdade (mas não fará isso sozinho, fato). E se o design acompanha as mudanças na sociedade, deve agora se adequar às necessidades de lidar com questões de lixo e desenhar produtos dentro da ideia de economia circular. Mas para isso, ele precisa resgatar sua vocação sistêmica e interdisciplinar e ter espaço dentro das empresas para fazer as pontes necessárias para que as diversas áreas que desenvolvem projetos trabalhem juntas para melhorar sistemas e encontrar soluções.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.