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Lia Assumpção

Tudo é finito

A experiência de 71 dias em um veleiro trouxe pra MacArthur, uma noção quase "palpável" de finitude - New York Times
A experiência de 71 dias em um veleiro trouxe pra MacArthur, uma noção quase "palpável" de finitude Imagem: New York Times

Lia Assumpção

20/12/2020 04h00

"O modelo econômico 'extrair, produzir, desperdiçar' da atualidade está atingindo seus limites físicos. A economia circular é uma alternativa atraente que busca redefinir a noção de crescimento, com foco em benefícios para toda a sociedade. Isto envolve dissociar a atividade econômica do consumo de recursos finitos, e eliminar resíduos do sistema por princípio. Apoiada por uma transição para fontes de energia renovável, o modelo circular constrói capital econômico, natural e social. Ele se baseia em três princípios: eliminar resíduos e poluição desde o princípio + manter produtos e materiais em uso + regenerar sistemas naturais"

Tirei esse trecho do site da Fundação Ellen MacArthur, que existe desde 2010 e leva o nome de quem a idealizou: uma moça de cabelo preto bem curto e olhos azuis brilhantes que bateu o recorde da pessoa mais rápida a dar a volta ao mundo em um veleiro. Assisti a palestra online dela algumas vezes e sempre demoro um pouco pra prestar atenção no que ela diz porque fico imaginando o que leva a pessoa a querer bater o recorde de velocidade de dar a volta ao mundo num veleiro. Também ficava sempre imaginando quantos dias isso teria demorado. Ela demorou 71 dias em 2005, mas, em 2016 um outro moço conseguiu fazer em 49 (na ficção, o Julio Verne tinha demorado 80 dias lá no outro século, não é mesmo?).

Escolhi falar dela aqui hoje porque nessa palestra ela conta um pouco o que a fez mudar de rumo na vida (como deu pra ver pelo título e pelo primeiro parágrafo, tem a ver com economia circular). Ela conta que uma das coisas mais importantes para o esporte que ela praticava é o planejamento e para fazê-lo é preciso entender de sistemas muito complexos, como o das correntes marítimas, por exemplo. Outra parte dele consiste em calcular TUDO que você vai precisar pelos 71 dias que estará no barco. Lembrando que o barco é leve para ir rápido (porque ela quer bater o recorde de velocidade), logo, temos pouco espaço. Então calcula aí as coisas pra esse tantinho de espaço e todos esses dias. E se as coisas acabam, elas acabam mesmo, não dá pra parar pra comprar.

Tem uma hora que ela conta de uma tempestade que enfrentou no Oceano Ártico. Enquanto tentava evitar que o barco virasse ela pensou que se algo acontecesse naquele momento, as pessoas mais próximas dela, seriam os tripulantes da Estação Espacial Europeia acima dela (nessa hora eu me distraio me imaginando ali naquele nada gelado, imaginando o que passaria na cabeça dela, imaginando se eu seria capaz disso e pensando porque mesmo eu ainda não li o livro do Amyr Klink). E, como é dito popular, depois da tempestade vem a bonança; depois desse dia de tempestade no barco, um lindo pôr do sol e uma lua iluminando todo aquele branco, fizeram com que ela pensasse que é por isso que estava lá (sim, aparentemente ela também pensa "por que mesmo eu estou aqui?" na hora tensa).

A experiência trouxe pra ela, primordialmente, uma noção quase "palpável" de finitude. Ela conta que no momento em que desceu do barco, transpôs essa ideia para a vida. E não apenas na parte meio piegas — ainda que altamente verdadeira — "aproveite a vida que ela acaba"; mas na parte do mundo mesmo. Digamos que ela teve ali uma epifania ao pensar que, da mesma maneira que se os suprimentos dela acabassem no barco, ela morreria, que no mundo também é assim. As coisas acabam, simples assim.

Num primeiro momento ela decidiu reduzir seu consumo; pensou que se todo mundo fizesse isso seria bom. Num segundo momento ela entendeu que reduzir tudo só iria adiar essa finitude das coisas, mas não resolver o problema. Ela entendeu que um sistema de produção baseado em recursos finitos não pode dar certo, que só uma economia baseada no consumo de recursos — e não no seu esgotamento — é que poderiam funcionar no longo prazo. No mais, tudo seria meio paliativo.

Ela foi estudar pra entender melhor a ideia que veio ali no seu momento epifânico (sei lá se é verdade, mas esse é o nome desses momentos em que parece que entendemos algo magicamente; eles podem passar sem deixar sequelas, ou gerar ideias/coisas; no caso dela, virou uma fundação). Descobriu por exemplo, que muitos materiais, calculando-se sua extração anual, tem já uma estimativa de quando acabarão. Digamos que fica "palpável" aqui também uma expressão que lemos sempre por aí: fontes de energia não renováveis. O carvão, por exemplo, que gera calor e energia é uma fonte de energia não renovável. Ela descobriu que, considerando como a gente consome o carvão hoje e calculando o quanto existe dele no mundo, teremos carvão pra extrair da terra por mais 118 anos (é bonito que ela vai fazendo um paralelo com a vida do bisavô dela, que trabalhou em uma mina de carvão; pensando quantos anos ela tinha nas memórias mais queridas dela com ele? 118 anos, que parece um número enorme, ganham outra dimensão).

E aí tem uns números que ficam mais apertados: nessa mesma lógica quanto tira, quanto tem, temos mais 61 anos de cobre, 29 de prata e 40 de zinco e estanho. Maluco, né? A frase, recursos não renováveis fica "palpável", não? E olha, esses números hoje são menores porque ela pegou eles de uma pesquisa de 2008.

A Fundação desenvolve projetos, relatórios junto com universidades, centros de pesquisa e empresas gerando a informação necessária para migrarmos de uma economia linear para outra circular. Ela começou a fundação partindo de perguntas: Será que a economia circular pode desassociar o crescimento das restrições de recursos? Será que a economia circular consegue reconstruir capital natural? Será que a economia circular consegue substituir o uso atual de fertilizantes químicos?

E parece que a resposta para todas essas perguntas é sim. Precisa de planejamento para banir a palavra lixo do sistema, mas de acordo com ela isso é viável. Na economia circular, TUDO volta para o início da cadeia. Por isso o sistema é tão importante. Tem que pensar em tudo, do começo ao fim. Como a viagem dela de barco.

Ela termina a palestra falando da rapidez com que passamos de um telefone celular trambolhento para um leve e ultra funcional; da rapidez com que a internet entrou, modificou e facilitou em muitas coisas a nossa vida; da diferença de tamanho e de eficiência dos primeiros computadores para os microchips de hoje. Tudo isso pra dizer que antes, talvez não houvesse um plano, mas que agora existe: economia circular. E com toda a tecnologia disponível, tendo o plano, basta colocarmos o barco pra navegar.