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Lia Assumpção

Qual a melhor embalagem?

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

01/11/2020 04h00

Uma amiga designer estava desenhando embalagens descartáveis e me fez essa pergunta. Tenho dificuldade com perguntas grandes em que tenho que eleger apenas uma resposta (quando eu era criança, tinha uma brincadeira que quando você ganhava tinha que responder "o que você quer do mundo?"; acho que eu perdia de propósito para não ter que respondê-la). Acho também que a palavra descartável me bloqueou na resposta. Tendo a pensar que, uma vez que é descartável, vai ser difícil ser sustentável.

Dá pra não ter embalagem? Foi a primeira pergunta que me veio em mente. E diante da negativa da resposta, começamos a misturar as informações dela com as minhas em busca de uma boa solução. Como "o que você quer do mundo" é uma brincadeira de criança e respostas únicas muitas vezes são ilusórias, chegamos em alguns caminhos para a pergunta inicial:

a) o ideal seria que a pessoa que vai vender comida em embalagem descartável se responsabilizasse por elas no descarte e garantisse que elas fossem efetivamente recicladas. Ela poderia receber as embalagens de volta ou articular alguma parceria com empresas que reciclam ou pessoas que fazem a destinação correta do lixo reciclável. Nesse caso, o melhor material seria um que tivesse um alto índice de reciclabilidade, como papel e alumínio, por exemplo.

b) caso a opção (a) seja inviável, o melhor então seria que as embalagens tivessem uma vida útil mais longa; uma ideia talvez fosse usar um material — até o plástico — com uma lógica de reutilização. Nesse caso, talvez o vidro fosse também uma opção interessante, mas um plástico mais resistente que vira um armazenador de comidas muito bom na sua casa, também é uma coisa boa a se pensar. Se pensarmos que eles vão parar no lixão em algum momento, o vidro ainda é uma opção melhor, pois acaba sendo menos danoso para o solo.

c) uma opção também seria separar o valor da embalagem do alimento que vem ali dentro. Ela poderia inclusive criar uma espécie de fidelidade do cliente que compra sempre ali e leva de volta as embalagens. Isso pode ser revertido em créditos para futuras compras ou em dinheiro mesmo. Tendo também a opção de a embalagem ser linda e útil e o cliente querer ficar com ela. Nesse caso, é como se ele tivesse a chance de comprar a embalagem linda e útil por um preço mais baixo do que encontraria no mercado, afinal a pessoa que está vendendo a comida, deveria comprar por um valor de atacado, porque não está nem louca de gastar rios de dinheiro na embalagem e ela acabar sendo mais cara do que o alimento que vem ali dentro, não é mesmo?

Essa última alternativa pode entrar num atrativo econômico pois a compra fica mais barata se não você não paga pela embalagem. Essa ideia entra na categoria de você levar a sua própria sacola ao mercado quando faz compras, por exemplo; se o valor da sacolinha fosse efetivamente cobrado e se o valor fosse algo que fizesse uma diferença substancial em todos os bolsos, você nunca mais esqueceria a sua, tenho certeza. Prova disso é crescente adesão de consumidores na compra de coca cola em vasilhames de vidro. No caixa você recebe um desconto por devolver a garrafa, pagando somente o conteúdo dela. A economia é significativa, logo, atrativa.

Quando falamos do vidro, surgiu uma dúvida que muitas vezes aparece em conversas sobre reciclagem. Vidro é reciclável?

Eu repito muitas vezes por aqui que nem tudo que é reciclável chega a ser reciclado. Mas tenho aprendido que tem muito mais coisa reciclável no mundo do que eu imaginava. O isopor, por exemplo, é reciclável (assim como o vidro). Chocou com o isopor? Eu choquei. Passei a vida achando que isopor não é reciclável mas como ele é um tipo de plástico, pasmem, ele é sim reciclável (vou estudar um pouco mais e logo escrevo sobre isso por aqui).

Mas segue valendo a máxima de que reciclável não é necessariamente reciclado. E são dois os fatores cruciais que fazem com que algo reciclável seja efetivamente reciclado: as características do material e a logística envolvida na sua reciclagem.

Esse segundo ponto refere-se, entre outras coisas, ao número de empresas de reciclagem de determinado material. E o Brasil é grande, hein? Então se a fábrica que recicla vidro fica lá no Norte e você mora aí no Sul (ou vice-versa), acaba saindo muito caro para o cara que recicla comprar o material que você descartou. Então o que acontece é que muitas vezes ele não tem uma destinação correta e vai parar no lixão. O mesmo vale para o isopor. São poucas as empresas que reciclam isopor então muitas vezes a logística delas não contempla a sua cidade e acabamos tendo uma compreensão de que ele não é reciclável. Ele é reciclável mas, muitas vezes, não chega a ser reciclado. Como o vidro.

Enfim, tudo isso pra dizer que não tem uma resposta pronta para "qual o melhor material para uma embalagem descartável?" e não tem também uma solução ideal. Isso vai depender de onde você mora, do que tem ali por perto e do tipo de coleta de lixo que tem no lugar que você mora. E no final das contas, é um pouco "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". Talvez o ideal fosse que a gente tivesse todas essas informações no momento de desenhar uma embalagem, mas como eu também sei que na maioria das vezes isso não é algo viável em um trabalho, ficamos na mesma. Mas se interessar por isso, saber o caminho e tomar sua parte de responsabilidade nas coisas já é um bom começo.

E claro que ter sempre em mente os Rs todos (eles eram 3, hoje são 7, dá uma conferida), ajuda muito tanto no que diz respeito a produção quanto ao consumo. Nesse sentido, ainda que não tenha solução única e nem mágica, tudo que pode não ser descartável é o recomendável, não é mesmo? E claro também que na linha do menos é mais, o quanto mais pudermos reduzir o número de embalagens, tendendo a zero, tanto melhor será.