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Lia Assumpção

De que plásticos estamos falando?

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Imagem: Getty Images
Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

23/11/2020 16h25

O texto publicado neste espaço no dia 27 de setembro tinha muitas perguntas; rendeu algumas conversas e novas reflexões.

Para além de informações específicas, a ideia de que não existe uma fórmula pronta para mudarmos a situação dos resíduos foi um ponto em comum entre as conversas que aconteceram. Falar a respeito do assunto, além de possibilitar a troca de pontos de vista e de informações, é o começo do "fazer isso juntos", que é um dos pontos-chave se quisermos que uma mudança ocorra. (Acabei de escrever essa frase e me veio a imagem dessas "vivências" que são feitas algumas vezes em empresas ou em dinâmicas de grupo em que uma hora você tem que interagir com a pessoa ao seu lado, sabe? Algo como olhe nos olhos da pessoa ao seu lado… no caso aqui, seria algo como "pergunte para a pessoa ao seu lado se ela separa o lixo em sua casa". Sei lá.)

Conversei com ele e com o Auri Maçon, da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet). Ambas as empresas, cada uma com seu tipo de plástico, trabalham com as diversas partes desse mercado no sentido de inseri-lo dentro de uma economia circular, ou seja, fazendo com que o plástico não vire lixo, mas que retorne à cadeia produtiva virando novos produtos. Ambas as empresas promovem encontros e conversas como a deste link para que essa ideia seja difundida, além, de desenvolver alternativas para questão dos resíduos. Ambas tentam conciliar os interesses de todas as partes da cadeia: consumidores, grandes indústrias, designers, catadores, recicladores, transformadores. (É uma cadeia grande, com nomes específicos, que vale uma coluna só pra isso. Aguarde.)

De que plástico estamos falando? Foi uma das primeiras perguntas que o Paulo Teixeira, da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), me fez. Porque, na verdade, o plástico está no copinho de plástico que usamos por segundos para beber água e que demora uma vida para se decompor, mas está também no cano que traz água até a torneira da sua casa ou no potinho que não deixa estragar os alimentos e que fica ali conosco anos e anos. A diferença que ele quis fazer com essa pergunta foi entre plásticos de uso único e outros tipos de plástico. E isso dá também a dimensão de quanto o plástico faz parte da nossa vida.

E na verdade, mesmo os plásticos de uso único, se tiverem logística para retornar à cadeia produtiva, também podem ser legais, digamos. Plásticos empregados em embalagens de bebida, por exemplo, economizam muito espaço, que economiza muita gasolina e muita emissão de carbono. E isso é bom. Descartáveis relacionados à produtos hospitalares, também são bons, pois evitam contaminações. (Aqui entro numa seara perigosa! Continuo seguidora do Recuse-Ruse; o recicle ainda fica lá no final da minha lista; mas como falei acima, o plástico faz parte da nossa vida de um tanto que às vezes perdemos a dimensão. Não acho que eles sejam nossos inimigos. Acho que o plástico, assim como qualquer outro material, sem uma logística de reciclagem, é ruim. Esse é o nosso inimigo: a falta de logística para materiais descartáveis.)

A Abipet, como o próprio nome diz, se ocupa de PET, que é a sigla para Poli (Tereftalato de Etileno), um tipo de plástico com alta reciclabilidade. No site eles dizem assim: PET é o melhor e mais resistente plástico para fabricação de garrafas, frascos e embalagens para refrigerantes, águas, sucos, óleos comestíveis, medicamentos, cosméticos, produtos de higiene e limpeza, destilados, isotônicos, cervejas, entre vários outros. (…) A embalagem de PET tem mostrado ser o recipiente ideal para a indústria de bebidas em todo o mundo, reduzindo custos de transporte e produção, evitando desperdícios em todas as fases de produção e distribuição.

Falando com o Auri, dá vontade que tudo seja de PET, isso porque os números que ele me deu parece até que a gente é a Alemanha:

A coisa é que o PET é um dos 7 tipos de plástico que existem e no mundo ele responde por apenas 8% deles.
Uma das minhas perguntas no texto de setembro se referia aos tipos de plástico. Se o mundo fosse de PET tudo seria mais bonito? Eles me responderam que não, porque aí teríamos um outro tipo de resíduos que se refere à produção de plástico, uma vez que eles são todos derivados do petróleo, porém de diversas partes do processo de transformação.

Porém, para não dizer que o PET é nossa salvação e que tudo que não é PET é ruim, reproduzo o dado da Abiplast que me surpreendeu: 22% das embalagens ou plásticos de uso único foram recicladas no Brasil no ano passado. Ainda é pouco, mas é bem mais do que eu imaginava. Esse número mostra que, com uma logística adequada e responsabilidade, é possível usar o plástico se focarmos na economia circular.

Claro que precisaríamos analisar esses números todos num contexto mais amplo do plástico mas eu não, nem de longe, sou especialista no assunto. Sigo sendo somente uma designer interessada em sistemas. E acho que o que ganhei com essas conversas foi a oportunidade de conhecer pessoas comprometidas com esse assunto, em posições de mudança efetiva. Me deu vontade de agradecer por esse espaço que me possibilita isso, aos que me escrevem nas redes sociais para complementar informações e aos 2 que dispensaram parte do seu tempo para me contar isso que falei aqui hoje (e mais um outro tanto de coisas que não couberam hoje aqui mas que aparecerão no decorrer do período).

O texto de setembro terminava com a pergunta "por que não temos ainda uma alternativa de reciclagem similar para o plástico?" E eis que as conversas me deram a oportunidade de mudar um pouco de opinião; tem muita gente interessada em fazer com que a logística do plástico aconteça de maneira eficiente. Também tem muita gente que já sabe o quanto rentável isso pode ser. E tem muita coisa acontecendo.

Porém outro ponto comum das conversas é que uma das coisas que falta para isso ser maior e mais efetivo é informação. Tanto desse tipo que falei aqui, que nos ajuda a entender que existem outras maneiras de fazer e produzir; como do comprometimento individual de cada um, como consumidor. Se o número de consumidores conscientes crescer, assim como o número de pessoas que separa seu lixo de maneira adequada, esses números de reciclagem crescem junto. Não estamos sozinhos nesta, mas temos papel importante.
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Esse texto, certamente, não dá conta de contar todas as informações que falamos assim como não dá conta de dar todas as informações sobre o plástico. Digamos que ele serve como isca pra pensar no plástico de um jeito mais circular. Se você se interessa por esse tema ou tem uma empresa que gostaria de adotar uma logística mais circular em seu negócio, recomendo fortemente que acesse os canais de comunicação das empresas com as quais conversei, alguns links estão disponíveis ao longo do texto.