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O ovo e a galinha

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

12/07/2020 04h00

No Japão não existem lixeiras, já imaginou? Saiu de manhã para passar o dia todo fora, levou aquele suco na embalagem descartável, aquela garrafinha de água, aquele biscoito? Tudo que não é o que você comeu fica com você até o fim do dia. Diz que tem uns saquinhos bonitinhos pra você levar na mochila de lixeira e acomodar todos os seus resíduos do dia.

Na Alemanha, quando você aprova o projeto de uma grande indústria, uma das normas que você deve seguir é: a água para a sua indústria deve ser coletada no ponto do rio depois do ponto no qual você descarta o seu resíduo.

Em São Paulo, foi aprovada no início do ano uma lei que proíbe embalagens descartáveis em restaurantes e serviços de delivery. Ela começaria a vigorar em janeiro de 2021, mas esse prazo foi adiado por conta da pandemia. É um tanto complexo introduzir uma lei em um mercado em que existem poucas opções para cumpri-la, mas aí entramos numa conversa de quem vem antes, o ovo ou a galinha. Por aqui, temos esse fenômeno de uma lei "pegar" ou não e acredito que isso aconteça, em parte, por ela ser feita desta maneira. A lei está corretíssima, afinal, a mudança tem que começar de algum lado, mas talvez se opções de embalagens retornáveis ou duráveis estivessem mais presentes — e acessíveis — no mercado, ela seria mais fácil de "pegar".

A lei das sacolinhas plásticas proíbe a distribuição de sacolinhas plásticas descartáveis que não sejam biodegradáveis e prioriza o uso de sacolas que sejam duráveis. Na prática, eu nunca tive dificuldades para encontrá-las no final da esteira de nenhum mercado? Na Itália, não existiam sacolinhas plásticas no final da esteira na década de 1990 e os sacos de papel, que eram a opção "comprável" naquele momento, custavam o preço de uma manteiga, bem mais caro que os centavos das de plástico que são vendidas atualmente no mercado. Quando a lei foi aprovada por aqui na década 2010, eu imaginei que a coisa seria mais ou menos como na Itália, duas décadas antes, e que não veríamos mais tantos saquinhos por aí; todos iríamos com nossas sacolas ao mercado, sem exceção. Mas enfim, ainda que o assunto tenha ganhado destaque e que o material das sacolas tenha sido modificado, o comportamento das pessoas não foi modificado tanto quanto poderia ter sido, a ponto de as sacolinhas passarem a ser raras. Isso porque, apesar de biodegradáveis agora, elas continuam de plástico e sua produção ainda tem consequências para o meio ambiente, como a emissão de gases de efeito estufa.

Inevitável pensar que quando eu era criança viajava dormindo no banco de trás do carro e que meu pai teve Voyages em que o cinto de segurança do banco de trás nunca foi utilizado. E hoje alguns carros nem ligam se você não estiver com o cinto de segurança apertado. Esse é sempre o exemplo que me vem em mente quando penso em uma lei que de fato modificou o comportamento das pessoas.

Isso tudo para pensar como é importante o papel da legislação, mas também como é importante que todo mundo opere junto: legislação, sociedade civil e indústria. No Japão você tem que pensar direitinho o que é que você vai carregar nas costas o dia todo; na Alemanha, você vai ter que necessariamente encontrar formas de devolver a água limpa para o rio.

Enfim, não importa o que vem antes, se o ovo ou a galinha, importa que pensemos a respeito do consumo e da obsolescência programada e caminhemos na direção de menos lixo e mais responsabilidade. As leis ajudam muito nessa mudança e tem a capacidade de modificar comportamentos, como é o caso do cinto de segurança. Mas iniciativas individuais — sejam nas nossas ações pessoais como consumidores ou nas políticas de sustentabilidade das empresas — também podem fazer o mesmo papel.

Lia Assumpção