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Cidades e vidas invisíveis

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

14/06/2020 04h00

O livro Cidades Invisíveis traz a descrição de diversas cidades imaginadas. Uma delas é Leônia, uma cidade cercada por montanhas de lixo. Nessa cidade tudo é usado somente uma vez, sendo descartado em seguida.

Vale uma citação: "Não só tubos retorcidos de pasta de dente, lâmpadas queimadas, jornais, recipientes, materiais de embalagem, mas também aquecedores, enciclopédias, pianos, aparelhos de jantar de porcelana [...]. É uma fortaleza de rebotalhos indestrutíveis que circunda Leônia, domina-a de todos os lados como uma cadeia de montanhas. [...] mais do que pelas coisas que todos os dias são fabricadas, vendidas e compradas, a opulência de Leônia se mede pelas coisas que todos os dias são jogadas fora para dar lugar às novas. Tanto que se pergunta se a verdadeira paixão de Leônia é de fato, como dizem, o prazer das coisas novas e diferentes, e não o ato de expelir, de afastar de si, expurgar uma pureza recorrente. O certo é que os lixeiros são acolhidos como anjos e a sua tarefa de remover restos da existência do dia anterior é circundada de um respeito silencioso, como um rito que inspira a devoção, ou talvez apenas porque, uma vez que as coisas são jogadas fora, ninguém mais quer pensar nelas."

Oscar Kulemkamp é o personagem de um dos contos do livro A vida que ninguém vê, de Eliane Brum, um senhor que vive em uma casa cheia de lixo em Porto Alegre. Cheia de lixo não, feita de "restos de existências alheias". Manuais de eletrodomésticos que não foram seus, bonecas quebradas, antigos enfeites de natal; a descrição da casa do personagem transita entre o triste e o poético. Imaginar uma casa cheia de cartas ou fotos de pessoas que nada tem a ver com Oscar é a parte triste; imaginar que as mesmas fotos, cartas e bonecas, foram histórias salvas do lixo por esse homem que as toma agora como suas, talvez seja a parte poética. Poético também talvez seja imaginar sua ação como uma resistência à sociedade de consumo em que vivemos, que é como a autora o descreve. "Tarefa árdua porque ele é um só combatente contra um exército de 1.3 milhão de pessoas que todos os dias botam fora as sobras de suas vidas."

Ficções à parte, o principal conceito relacionado à obsolescência programada — aquele nome difícil para aquela situação familiar do celular que quebra e vale mais a pena trocá-lo do que consertá-lo, lembra? — é o de descartável; falou-se muito no perigo de adotá-los também nas relações pessoais e na maneira como nos relacionamos como sociedade.

"Tornando descartáveis móveis, veículos, roupas e aparelhos eletrônicos, podemos passar a sentir que as relações pessoais também são descartáveis, e, numa escala global, países inteiros podem passar a ser descartáveis também." Não valorizamos o que jogamos fora e, quando projetamos coisas para serem descartadas, exercitamos uma alienação à sua efemeridade.

Lembro sempre desses contos e dessa ideia de a obsolescência programada contaminando tudo e todos. Mais recentemente, três momentos me chamaram novamente a atenção para eles: o vídeo do ator Lima Duarte falando da morte do também ator Flavio Migliaccio, dizendo que estão promovendo a "devastação dos velhos"; as falas do senhor que mora lá no palácio do planalto (com o aquecimento da piscina desligado) dizendo que muitos morrerão (e daí?); e também num debate online que chamava atenção para as poucas notícias que temos na imprensa sobre o coronavírus na África. São, respectivamente, faixas etárias, classes sociais, e países inteiros "descartados"; deixados à margem. Partes talvez consideradas "obsoletas" da sociedade, consideradas como não fundamentais para fazer a engrenagem do consumo girar; não consomem ou não produzem e, de acordo com essa lógica terrível em que vivemos, "não importam".

No lado oposto disso, penso nas falas do líder indígena Aílton Krenak sobre a real necessidade de nos tornarmos uma humanidade verdadeira, no sentido de nos tornarmos semelhantes, não "obsoletos". "A economia é uma atividade que os humanos inventaram e que depende de nós. Se os humanos estão em risco, qualquer atividade humana deixa de ter importância. Dizer que a economia é mais importante é dizer que o navio importa mais que a tripulação."

É sempre bom lembrar que fomos nós que inventamos a economia e que ela "trabalha" para nós e não o contrário, não é mesmo? Por isso, não acredito que relações pessoais devam se assemelhar às relações de consumo. Mas, se tiverem mesmo que ser indissociáveis, mais um motivo para que uma mudança ocorra. Para além de não virarmos uma montanha de lixo, como Leônia, que sejamos mais humanos uns com os outros.

A descrição da cidade de Leônia termina com a ideia de que ela um dia desaparecerá coberta de lixo. A descrição de Oscar termina com o sonho deste senhor de um dia se mudar para o litoral e levar consigo todas aquelas histórias que não eram suas, mas passaram a ser. Um sonho de fazer em sua nova morada, um novo mundo "onde nem coisas nem pessoas sejam descartáveis. Onde nada nem ninguém fique obsoleto depois de velho, quebrado ou torto. Um mundo onde todos tenham igual valor. E a nenhum seja dado uma lixeira por destino."

Se esse lugar existir, também me mudo pra lá.

Lia Assumpção