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Lia Assumpção

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Televisão antiga; não há apenas extremos em que o antigo ou o novo são essencialmente melhores - Shutterstock
Televisão antiga; não há apenas extremos em que o antigo ou o novo são essencialmente melhores Imagem: Shutterstock
Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

12/04/2020 04h00

Me deparei com um pessoal outro dia (num livro que leva o título desta coluna) que estuda a durabilidade das coisas. Eles olham para os diversos aspectos que se relacionam com esse conceito. Produtos duráveis são uma das alternativas à lógica do compra-usa-descarta em que vivemos, porque evita trocas frequentes. Mas, nossa, é muito complexo falar em durabilidade em tempos de grandes e frequentes saltos tecnológicos, não?

É interessante ter um celular por muito tempo? Você gostaria que seu sofá durasse a vida toda? São coisas incomparáveis, eu sei, mas a ideia é que durabilidade realmente não se aplica da mesma maneira a variados produtos, ainda que fosse interessante que ela permeasse tudo, como ideia? Isso porque boa parte do que é produzido, dura; quero dizer, quase tudo que é produzido continua existindo mesmo depois de não ter mais utilidade para alguém; continua existindo como lixo, confere?

Em tempos de saltos tecnológicos, as coisas duram (ou durariam) sendo úteis para seus usuários, sendo:

1. compartilhadas, pois isso diminui a produção de artefatos e seu consequente descarte. Além disso, produtos compartilhados deveriam ter uma fabricação mais resistente e serem passíveis de consertos também frequentes;

2. "consertáveis" ou "atualizáveis" quando apresentam defeitos (ao invés da troca total do produto);

3. atemporais, ou seja, desvinculadas da moda, podendo agradar a mais de uma geração de pessoas;

4. alinhadas com uma economia circular, contemplando a ideia de somos todos responsáveis pelos produtos — enquanto produtores, consumidores e poder público — para que ele não seja descartado mas retorne ao produtor, por exemplo. No estudo eles se referem à economia circular como um "plano de carreira" de produtos, isto é, a capacidade de prever todos os seus passos, para além de seu consumo e utilização, ou seja, o que acontece também depois que ele não tem mais uso.

O estudo, depois de percorrer os vários aspectos da durabilidade, compara-as a relações pessoais e conclui que não gostamos de todas as pessoas que conhecemos da mesma maneira, nem queremos ficar casados com todas as pessoas que gostamos ou conhecemos. E isso é o que acontece com produtos; não queremos ficar com todos eles até o fim das nossas vidas, mas talvez com alguns, sim.

Então, os critérios que são analisados neste estudo, servem de premissas de projeto e também de consumo; ou seja, posso pensar em todos os quatro itens acima ao produzir produtos ou ao consumi-los.

Tem um jeito de olhar para durabilidade que é "antigamente é que era bom que as coisas duravam muito". Tem também um outro que está mais para o "por que ficar com coisas velhas se eu posso ter sempre coisas novas?" Digamos que tem saudosismo de um lado, e desapego do outro.

Entre esses os dois extremos, tem a informação de que antes descartávamos menos as coisas; talvez elas fossem mais caras e, por isso, déssemos mais valor a elas. Esse "antes" que eu digo é no tempo da minha avó e realmente me impressiona a resistência da máquina de costura que ela ganhou de presente de 15 anos lá na década de 1930 e que segue em uso por aqui; mandei ela para o conserto muito menos vezes do que a moderna que adquiri há menos de dez anos.

Do tempo da minha avó pra cá, houve um aumento de consumo (e consequente descarte). Isso porque somos mais pessoas mesmo; e porque houve um barateamento de tudo. Novos materiais e maneiras mais rápidas de produzir baratearam por um lado e, diminuíram a durabilidade, por outro. Soma-se a isso também saltos tecnológicos e lançamentos frequentes (com grande publicidade), além de crédito mais fácil, entre uma porção de outras coisas.

Isso continua acontecer num "antes" mais recente, quando a internet se instalou entre nós modificando os produtos e o seu uso. Mais contemporaneamente, os chips e microchips habitantes dos eletroeletrônicos vão sendo barateados e popularizados cada vez mais frequentemente (o aumento de produtos com comando de voz, é um sinal disso). E vai ser continuar sendo sempre assim. E que bom, porque andamos pra frente, evoluímos. Mas a ideia é que anotemos os prós e os contras das evoluções e façamos ajustes. Durabilidade e tecnologia não são inimigas, mas devem aprender a conviver de alguma maneira. O lixo é um sinal de que a durabilidade é uma constante e não pode ser ignorada.

Meu sofá está comigo há 20 anos, meu celular há 4. Não sei se gostaria de ter o mesmo sofá a vida toda mas não gosto de ter que trocar o celular frequentemente. Casei com o moço tecnológico que troca de aparelho mais vezes do que eu. Tenho amigos que riem dos modelos de celular meio velhos que tenho e outros que me ligam pra perguntar se sei onde consertar o forninho elétrico. Somos diferentes, mas somos todos consumidores.

A produção na lógica do compra-usa-descarta, contempla quem não se incomoda com as trocas. Mas cada vez mais, tem gente se incomodando, se dando conta das consequências dessa lógica, cuja mais mensurável é o lixo gerado. Aumentemos esse coro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.